Nunca leia um versículo da Bíblia

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No artigo Never Read a Bible Verse, Koukl Gregory oferece um conselho muito prático e relevante para todos os cristãos, e de extrema importância para os discipuladores e conselheiros bíblicos.

Se eu fosse pensar em transmitir a você uma pitada de sabedoria, uma regra de ouro, uma habilidade única ou uma dica útil que pudesse acompanhá-lo para o resto da sua vida, qual seria? Qual é a habilidade prática mais importante que aprendi na minha vida cristã? Aqui está: Nunca leia um versículo da Bíblia. É isso mesmo: nunca leia um versículo da Bíblia. Em vez disso, leia sempre um parágrafo, no mínimo.

Podemos cair facilmente no engano de isolar um versículo bíblico e deixar de ministrar de forma completa o  verdadeiro conselho de Deus. Outras  vezes, corremos o perigo de isolar um versículo e usá-lo para provar aquilo que nós queremos dizer — uma espécie de “copiar e colar” um versículo em lugar de estudar o assunto no contexto maior da Palavra de Deus.

Koukl Gregory testemunha mais sobre o uso da Bíblia em seu ministério.

Uso uma regra simples para me ajudar a responder a maioria das perguntas que me fazem sobre a Bíblia, mesmo quando não estou totalmente familiarizado com um versículo que alguém mencione. É uma técnica incrivelmente eficaz, que você pode usar também: leio o parágrafo, não apenas o verso, e considero os pontos relevantes acima e abaixo do texto em questão. Visto que o contexto dá a estrutura em que o versículo se insere, e confere o significado específico, deixo que ele me informe. Isso funciona por causa de uma regra básica de toda a comunicação: o significado sempre flui do contexto, da unidade maior para a menor, e não o inverso. A chave para entender o significado de qualquer versículo bíblico vem do parágrafo, não apenas de palavras isoladas.

Os números que vemos à  frente de cada versículo na nossa versão da Bíblia dão a ilusão de que os versículos são autônomo em seu significado. No entanto, esses números não estão no texto original da Bíblia, mas foram adicionados centenas de anos mais tarde. As quebras de capítulos, parágrafos  e versículos, por vezes, aparecem em lugares inadequados e separam conteúdo bíblico relevante que deveria estar unido para o correto entendimento.

Em primeiro lugar, ignore essas divisões e tente captar o quadro maior. Em seguida, comece a estreitar o seu foco. Isso não é muito difícil nem exige tempo excessivo. É uma questão de alguns minutos e um pouco de observação do texto. Comece pelo contexto mais amplo do livro. Qual é o tipo de literatura − você está lendo um relato histórico, uma coletânea de poesias ou provérbios, uma carta? No geral, qual é o assunto da passagem em que o versículo está inserido? Qual é a idéia que o autor está desenvolvendo?

Afaste-se do versículo e procure as pausas naturais no texto, que identificam as grandes unidades de pensamento. Pergunte: “Nesse parágrafo, ou grupo de parágrafos, o que pode me dar alguma pista para o significado do versículo?”. Há uma razão por que este exercício é tão importante. As palavras têm significados diferentes em contextos diferentes (isso é o que faz com que os trocadilhos funcionem). Quando consideramos um versículo de forma isolada, podemos pensar em determinado significado. Mas como saber se é o significado pretendido pelo autor? A ajuda imediata não vem do dicionário. Os dicionários podem complicar a questão, ampliando as possibilidades de escolha. O primeiro recurso para o entendimento de uma palavra está mais à mão, ou debaixo da vista: é o parágrafo em que o versículo está inserido.

Depois de considerar o contexto maior, você pode estreitar o seu foco,  refletir sobre o significado do versículo em si e resumi-lo em suas palavras. Finalmente, e isto é fundamental, verifique se a sua paráfrase faz sentido quando inserida na passagem. Ela se encaixa naturalmente no quadro maior?

Mais adiante, Koukl Gregory oferece alguns exemplos práticos. Entre as ilustrações que o artigo traz, destacamos aqui uma que trata de um assunto com que lidamos com bastante frequência no aconselhamento bíblico: como identificar quando uma decisão é acertada. É bem provável que você já tenha ouvido alguém lhe dizer: “Fiz essa escolha porque sinto paz quanto a isso”. E você descobriu que o texto-base para aquela tomada de decisão foi Colossenses 3.15.

Colossenses 3:15 é um texto constantemente mal interpretado por cristãos bem-intencionados. Paulo escreve: “Que a paz de Cristo seja o juiz em seu coração.” Alguns têm mostrado acertadamente que o termo grego usado no original significa agir como árbitro ou juiz. E a partir do significado dessa palavra em particular, vêem o versículo como uma ferramenta para conhecer a vontade de Deus para nossa vida. Sua linha de pensamento segue, aproximadamente, os seguintes passos: quando confrontado com uma decisão, ore. Se você sentir uma “paz” em seu coração, vá em frente. Se você não sentir paz, não prossiga. Este sentimento interno de paz age como um juiz, ajudando você a tomar decisões de acordo com a vontade de Deus. Nesse caso, a paráfrase poderia ser: “Deixe que o sentimento de paz em seu coração seja o juiz para apontar a vontade individual de Deus para sua vida”. Será isso o que Paulo quer dizer?

Este é um exemplo clássico de como o conhecimento do grego pode ser perigoso se o estudo do contexto do versículo não for levado em consideração. A palavra “paz” tem dois significados diferentes. Ela pode significar um senso de harmonia interior e serenidade emocional. Paulo parece ter essa definição em mente em Filipenses 4.7: “E a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará o coração e a mente de vocês em Cristo Jesus”. Este é o sentido subjetivo da paz.

A mesma palavra também pode ter um sentido objetivo. Algumas vezes, ela significa ausência de conflito entre duas partes anteriormente em guerra uma com a outra. É a esta definição de paz que Paulo se refere em Romanos 5.1: ” Tendo sido, pois, justificados pela fé, temos paz com Deus, por nosso Senhor Jesus Cristo.” (Note a distinção entre a paz de Deus e paz com Deus nestes dois versículos.)

Que senso de paz Paulo tinha em mente ao escrever aos colossenses? O termo grego em si não nos dá nenhuma indicação. A mesma palavra é utilizada nos três versículos. Mais uma vez, o contexto é a chave. O significado específico só pode ser conhecido a partir do contexto.

Em Colessenses 3.11,  Paulo diz que, no corpo de Cristo, não há distinção são entre gregos e judeus, escravos e livres, entre outros. Ele apela para a unidade do corpo caracterizado pelo perdão, a humildade, a mansidão. Em seguida, ele acrescenta que a harmonia (“paz”) deve ser a regra que orienta os nossos relacionamentos. Paulo tem em mente aqui o sentido objetivo da paz, ou seja, a ausência de conflito entre os cristãos e não um sentimento subjetivo de paz no coração de um cristão em particular. Isso se torna evidente quando inserimos a paráfrase sugerida no contexto. Compare as duas possibilidades.

Revistam-se de um coração cheio de compaixão, bondade, humildade, mansidão e paciência, suportando uns aos outros e perdoando uns aos outros. Se alguém tem uma queixa contra outra pessoa, deve perdoar assim como o Senhor o perdoou. E acima de todas essas coisas revistam-se de amor, que é o perfeito vínculo de união. E deixem que o sentimento de paz em seu coração seja o juiz para apontar a vontade individual de Deus para a sua vida porque, de fato, vocês foram chamados para viver em paz em um corpo, e sejam gratos.

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Revistam-se de um coração cheio de compaixão, bondade, humildade, mansidão e paciência, suportando uns aos outros e perdoando uns aos outros. Se alguém tem uma queixa contra outra pessoa, deve perdoar assim como o Senhor o perdoou. E acima de todas essas coisas revistam-se de amor, que é o perfeito vínculo de união. E deixem que a harmonia, não o conflito, seja a regra que oriente vocês porque, de fato, vocês foram chamados para viver em paz em um corpo, e sejam gratos.

A primeira possibilidade é completamente estranha ao contexto, enquanto que a segunda encaixa-se bem com tudo quanto vem antes e depois do versículo em questão. No contexto de Colossenses 3, não há nenhum indício do uso de sentimentos internos como um selo de aprovação divina em nossas decisões. A tomada de decisão pessoal não é a questão tratada no texto. O assunto é a harmonia e a unidade no corpo de Cristo.

Tome sempre muito cuidado para não construir o seu aconselhamento a partir de versículos tomados fora de contexto. Certamente é relevante que o seu discípulo ou aconselhado conheça e memorize versículos bíblicos que podem guiá-lo no dia-a-dia em lutas específicas. Certifique-se, porém, de que estes versículos sejam corretamente interpretados e aplicados. Separe tempo para trabalhar as passagens bíblicas, explique à pessoa o quadro maior em que os versículos usados no aconselhamento se inserem e oriente na interpretação correta. Certamente as aplicações podem variar de pessoas para pessoa, de cultura para cultura, mas o significado do texto é sempre o mesmo.

Um lembrete final muito importante: quando o texto bíblico é mal usado, o seu aconselhamento não é bíblico ainda que ele contenha a citação de um versículo bíblico.

Para aprender mais a respeito do assunto e encontrar recursos para o estudo da Bíblia, leia Estudo e Uso da Bíblia no Discipulado-Aconselhamento Bíblico.

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