Pergunta crucial

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Tabletalk Magazine, uma publicação de Ligonier Ministries, entrevistou Paul Tripp sobre seu ministério e sua perspectiva a respeito do aconselhamento bíblico. Destacamos aqui uma das perguntas. O restante da entrevista pode ser acessado em Living in Light of the Gospel: An Interview with Paul David Tripp.

Tabletalk : Os cristãos podem aprender alguma coisa com as abordagens seculares de aconselhamento ou devem evitá-las completamente?

Paul Tripp : A resposta para essa pergunta está nas palavras práticas e brilhantes de Colossenses 2.8: “Tenham cuidado para que ninguém os escravize a filosofias vãs e enganosas, que se fundamentam nas tradições humanas e nos princípios elementares deste mundo, e não em Cristo”. Observe que Paulo não está argumentando que tudo aquilo que o mundo diz é lixo. Deus permite que filósofos, psicólogos e cientistas tenham insights. Podemos aprender algo  a partir de sua experiência e pesquisa. No entanto, no processo de aprender com eles, devemos estar cientes de que existe uma falha fatal em sua visão de mundo: ela omite Cristo.

Diante desta falha, não podemos permitir que o nosso aconselhamento seja controlado ou moldado por um sistema que ignora ou nega a Pessoa mais importante no universo, Cristo, e a obra mais importante no universo – Sua vida, morte e ressurreição. Embora sejamos gratos pelos insights dos pensadores seculares, recebemos tais insights sabendo que os sistemas dos quais eles provêm são fatalmente defeituosos, e entendemos que uma abordagem bíblica de mudança não é apenas mais uma  escola de psicologia entre muitas outras.

O aconselhamento bíblico é radicalmente diferente. Ao contrário de todas as outras escolas de psicologia, que colocam sua esperança em algum tipo de sistema de redenção humana, acreditamos que as mudanças pessoais duradouras necessitam de um Redentor. Sendo assim, nós ouvimos e aprendemos humildemente com as vozes ao nosso redor, mas não nos deixamos cativar por nenhum sistema que ofereça uma esperança que omite o Senhor da esperança, Jesus Cristo.

Lições de um conselheiro bíblico

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Bob Kellemen compartilha com a Biblical Counseling Coalition cinco lições que fazem parte de seu aprendizado ao longo de trinta anos de ministério.

Tenho aprendido que aconselhamento bíblico é sobre as Escrituras e o coração.
Se existe um versículo que capta os batimentos cardíacos do meu ministério de aconselhamento bíblico, depois de três décadas, é 1Tessalonicenses 2.8: “Sentindo, assim, tanta afeição por vocês, decidimos dar-lhes não somente o evangelho de Deus, mas também a nossa própria vida, porque vocês se tornaram muito amados por nós”.

Quando terminei a faculdade e os estudos no seminário, eu era 90% Bíblia e 10% coração. Eu dirigia meu foco predominantemente para a verdade e não suficientemente para o amor (“falando a verdade em amor”  Ef 4.15 ). Não creio que a resposta seja um “equilíbrio de 50% + 50%” entre verdade e amor. Tenho aprendido que o modelo bíblico é 100% de verdade  e 100% de amor. Paulo enfatiza isso em Filipenses 1.9: “Esta é a minha oração: Que o amor de vocês aumente cada vez mais em conhecimento e em toda a percepção”.

Como conselheiro bíblico, quero me apropriar da oração de Paulo. Quero que meu amor pelas pessoas que aconselho torne-se cada vez mais abundante à medida que o meu conhecimento bíblico e a profundidade do meu discernimento também forem aumentando mais e mais. Quero entrar profundamente na vida das pessoas com o amor e a sabedoria de Cristo, e envolvê-las profundamente com a graça e a verdade de Cristo.

Tenho aprendido que aconselhamento bíblico é sobre o sofrimento e o pecado.
Uma frase que tenho em lugar visível no meu escritório capta bem a segunda lição que tenho aprendido: “O cuidado pastoral é incompleto a menos que possa lidar de forma abrangente tanto com os danos que sofremos quanto com os pecados que cometemos”.

Quando terminei a faculdade e os estudos no seminário, meu foco concentrava-se em “noutheteo” e era limitado com respeito a “parakaleo“. Isso significa que minha atuação era predominantemente de confrontação de pecados, mas não estava igualmente afinada para oferecer conforto às pessoas em seu sofrimento.

Em 2Coríntios 1.3-7, Paulo nos diz oito vezes que Deus nos chama e prepara para confortarmos uns aos outros (parakaleo). Da mesma forma, ele nos diz em Romanos 15.14 que Deus nos equipa para confrontar cuidadosamente uns aos outros (noutheteo). Não se trata de um ou de outro, mas de ambos.

Precisei aprender a lição de João 9.1-3 − muito do nosso sofrimento não se deve ao pecado pessoal, mas ao fato de vivermos em um mundo caído, pecador. Precisei aprender tanto, que acabei escrevendo um livro sobre esse assunto: God’s Healing for Life’s Losses: how to find hope when you’re hurting [A Cura de Deus para as Perdas da Vida: como encontrar esperança quando você está ferido].

Tenho aprendido que aconselhamento bíblico é sobre a intersecção da história divina com a nossa história.
Quando terminei a faculdade e os estudos no seminário, eu sabia mais sobre o ministério de pregação da Palavra do que sobre o ministério pessoal da Palavra. Eu estava mais bem preparado para pregar a Palavra de Deus do que para me envolver com meus irmãos e irmãs em Cristo no contato um a um.

Décadas atrás, eu costumava me apressar em abrir a Palavra de Deus e esperava que as pessoas me ouvissem antes mesmo que eu as tivesse ouvido atentamente. Tenho apredido que é preciso ter “pés pivotantes” para ministrar no aconselhamento: um dos pés deve se firmar e entrar na história de vida da pessoa enquanto o outro pé deve se firmar e levar a pessoa rumo à história eterna de Deus.

Tenho chegado à compreensão de que o aconselhamento bíblico não é uma pregação para uma audiência de um. O aconselhamento bíblico não é um monólogo nem mesmo um diálogo, mas é um trílogo: o conselheiro e o aconselhado ouvem juntos o Conselheiro Divino, por meio da Palavra de Deus e o Espírito de Deus.

Tenho aprendido que aconselhamento bíblico é sobre você e eu.
Fiquei em dúvida sobre como colocar minha ideia em poucas palavras neste subtítulo. O quero dizer é que o aconselhamento não é “tamanho único”. Precisamos cuidar individualmente de cada aconselhado, conhecê-lo e nos relacionarmos com ele de forma distinta.

Meu primeiro ministério de aconselhamento pastoral foi em uma mega-igreja urbana com mais de três mil membros e uma longa história de “excelência” e “profissionalismo” no ministério. Antes de dar início ao aconselhamento, as pessoas preenchiam um Formulário de Informações Pessoais com quatro páginas. Não há nada errado nisso… naquele contexto. Meu segundo ministério pastoral foi em uma pequena igreja rural. Na minha primeira semana de ministério, um irmão idoso veio conversar comigo. Puxei um Formulário de Informações Pessoais. Aquele querido irmão deu uma olhada no formulário, olhou para mim com seus olhos de idoso experiente e sábio, e me disse: “Pastor Kellemen, não sei como as coisas eram feitas no lugar de onde veio, mas aqui nós não fazemos isso”. Sou grato àquele irmão experiente.

Aprendi naquela ocasião, e continuo a aprender, que não devo impingir um “modelo” de aconselhamento sobre as pessoas. Eu não tiro da minha “caixa de ferramentas” as “habilidades” ou os “métodos” prontos para uso no aconselhamento. Pelo contrário, estabeleço um relacionamento com a pessoa, envolvo-me de coração para coração para juntos explorarmos de que forma a Palavra de Deus relaciona-se com sua vida diária.

Deus planejou e criou cada um de nós de forma admirável e maravilhosa – corpo, alma, pano de fundo cultural e familiar, experiências de vida e muito mais. Quero que o meu aconselhamento seja um relacionamento de “uns aos outros” entre duas pessoas singulares, portadoras da imagem de Deus.

Tenho aprendido que o aconselhamento bíblico é sobre Cristo e o corpo de Cristo.
Dizer que o aconselhamento é sobre você e eu não significa que paramos em nós dois. Francamente, eu não quero atrair as pessoas a mim.  Eu quero dirigir as pessoas a Cristo. Ele está sempre disponível (Hb 4.14-16). Ele está perfeitamente disponível (Hb 2.17-18).

Ao longo dos últimos trinta anos, tenho aprendido também que o aconselhamento bíblico é sobre o corpo de Cristo. Os membros da minha igreja ou os aconselhados não podem se tornar dependentes de mim. Quero que eles sejam dependentes uns dos outros na mutualidade do corpo de Cristo. É por isso que a participação no culto de adoração e, pelo menos, em uma classe de escola dominical e/ou um grupo pequeno é sempre um requisito para meus aconselhados.

Tenho aprendido que para que o aconselhamento bíblico tenha um impacto duradouro, que vá além do breve tempo que passamos juntos a cada semana, os aconselhados devem estar envolvidos em comunhão espiritual com o corpo de Cristo e praticar as disciplinas espirituais que os conectam a Cristo.

Fonte: Biblical Counseling Coalition
Original: Lessons learned as a biblical counselor: reflections after thirty years of biblical counseling

Isso é inveja!

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Trisha Wilkerson

Então, vi que todo trabalho e toda destreza em obras provêm da inveja do homem contra o seu próximo. Também isto é vaidade e correr atrás do vento. (Ec 4.4)

Todas as bênçãos vêm de Deus. Às vezes, recebemos Suas dádivas com gratidão: uma promoção, um relacionamento reatado, beleza, bens materiais, um bebê, oportunidades, um favor … e a lista continua. Quando os outros são abençoados por Deus, às vezes, somos gratos por eles também.

Em outros momentos, porém, temos inveja. Nas Escrituras, a inveja diz respeito ao descontentamento e rivalidade que destrói os relacionamentos. Ela começa com a comparação entre aquilo que outros têm, mas você não tem. A tentação sussurra: “Por que eles têm isso e eu não?”. E o coração invejoso responde: “Por que não eu, Senhor?”.

A inveja compara
Infelizmente, tenho ouvido confissões semelhantes de inúmeras mulheres: “Ultimamente, as comparações estão me deixando realmente deprimida” ou “Por que meu marido não pode ser como o dela” ou “Estou triste porque minha vida não se parece com a dela”. Minha própria inveja parece se expressar assim: “Por que o meu corpo não pode voltar a ser como o delas?”.

A inveja mata
Todos as pessoas que convivem conosco possuem algo que nós não temos. Muitas vezes, nós nos  ressentimos secretamente de suas bênçãos. Eu tenho inveja quando minhas amigas perdem peso, saem de férias ou têm avós por perto. Minha inveja tem sido uma ameaça a esses relacionamentos. Quando nos preocupamos com aquilo que não temos, nossa vida se consome, pois “a inveja é a podridão dos ossos” (Pv 14.30) .

A inveja é pecaminosa
A inveja é egoísta e rancorosa, além de que muitas vezes é acompanhada por ciúme e cobiça.

Se, pelo contrário, tendes em vosso coração inveja amargurada e sentimento faccioso, nem vos glorieis disso, nem mintais contra a verdade. Esta não é a sabedoria que desce lá do alto; antes, é terrena, animal e demoníaca. Pois, onde há inveja e sentimento faccioso, aí há confusão e toda espécie de coisas ruins. (Tg 3.14-16).

Quem você inveja? O seu coração despreza secretamente essa pessoa por aquilo que ela tem? O seu coração está endurecido e você evita conversas mais chegadas, que poderiam expor a sua inveja secreta?

Deus quer que sejamos agradecidos e que o nosso foco não esteja nas dádivas, mas no Doador. Jesus é o maior tesouro para todos nós. Por causa de Sua morte e ressurreição gloriosa, todos nós podemos ser salvos da inveja pecaminosa, que rouba a paz do nosso coração.

Não vamos chamá-la apenas de comparação . Vamos chamá-la pelo nome certo − inveja.

Fonte: The Resurgence
Original: This is envy

O poder do encorajamento

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Paul Tautges

Alguma vez você já experimentou o poder do encorajamento? Lembro-me de muitas vezes, ao longo dos anos, nas quais Deus providenciou crentes fiéis que foram “outrocêntricos” o suficiente para chegar ao meu lado e fortalece as minhas mãos para a Sua obra.

O apóstolo Paulo tinha um homem ao seu lado chamado Onesíforo. Ele é um dos servos que costumam passar despercebidos nas Escrituras. Seu nome já diz tudo. Onesíforo significa “portador de um benefício” − exatamente aquilo que ele era. Quando Paulo, sentado em uma prisão romana, considerava as últimas palavras que ele escreveria sob a inspiração do Espírito Santo, o nome de seu amigo fiel não poderia deixar de lhe vir à mente.  E com ele aprendemos três qualidades de um encorajador fiel.

Um encorajador oferece motivação nova em meio a uma situação de rejeição ministerial.
“Você sabe que todos os da província da Ásia me abandonaram, inclusive Fígelo e Hermógenes. O Senhor conceda misericórdia à casa de Onesíforo, porque muitas vezes ele me reanimou e não se envergonhou por eu estar preso” (2Tm 1.15,16). Como pregador do evangelho e de todo o conselho de Deus, Paulo estava acostumado ao abandono. À semelhança de Jesus, ele estava cercado de muitas pessoas que pegavam carona ao seu lado, mas quando o compromisso com os caminhos de Deus e a Palavra de Deus significava desconforto e até mesmo perseguição, a multidão partia e ele ficava com poucos fiéis.

Onesíforo, um daqueles servos fiéis, reanimou Paulo. Esta é a única ocorrência da palavra reanimar no Novo Testamento. Ela retrata alguém que providencia uma brisa refrescante para a pessoa que está prestes a desmaiar. Nossos dias não são muito diferentes daqueles em que Paulo viveu. São muitas as pessoas que pegam carona e “seguem” a Jesus, até que o desapontamento bate à sua porta ou que o morrer para si mesmo torna-se uma realidade. Que Deus desenvolva em cada um de nós a perseverança necessária para sermos encorajadores fiéis em longa distância.

Um encorajador dedica-se a reanimar os outros com grande entusiasmo.
O versículo seguinte diz: “…quando chegou a Roma, procurou-me diligentemente até me encontrar” (2Tm 1.17). Onesíforo não ficou esperando nem mesmo orando por oportunidades para servir. Assim que ele soube de uma necessidade, ele agiu de acordo com ela, mesmo que isso significasse sair à procura de uma prisão romana onde encontraria seu irmão. Não devemos permitir que nossa perspectiva de ministério em vidas seja ditada pela “cultura da conveniência”. Ser um encorajador fiel exige que sejamos pessoas de iniciativa que buscam formas de reanimar outros crentes, mesmo que isso signifique sacrifício pessoal ou desconforto.

Um encorajador mostra lealdade diante da adversidade.
A adversidade revela quem são de fato os seus verdadeiros amigos. Em contraste com todos os que estavam na Ásia, e que se afastaram de Paulo, Onesíforo “não se envergonhou” da prisão de Paulo (1.16). Ele conhecia o significado de Provérbios 17.17: “O amigo ama em todos os momentos”. Mais adiante, Paulo escreveu: “Na minha primeira defesa, ninguém apareceu para me apoiar; todos me abandonaram” (2 Tm 4.16 ). No entanto, três versículos depois, ele pediu a Timóteo que levasse suas saudações à casa de Onesíforo (4.19). Seu espírito corajoso e sua devoção a Paulo estabeleceram um forte contraste com a infidelidade de tantos outros.

Ser um encorajador fiel exige uma lealdade que resiste em tempos difíceis. O exemplo de Onesíforo é digno de imitação. Que Deus nos conceda a graça de sermos “outrocêntricos” para que os crentes ao nosso redor possam experimentar o verdadeiro poder do encorajamento.

E você, a quem vai reanimar hoje?

Fonte: Counseling One Another
Original: The power of encoragement

Vida espiritual combina com planejamento?

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Nas palavras do Pr. Fernando Leite, “Planejar para alguns pode ser uma grande dificuldade, para outros desnecessário, e ainda para outros, um sinal de incredulidade ou desconfiança em Deus. Dificuldade por não ser hábito das culturas base de nosso ambiente brasileiro. Índios dos trópicos levam suas vidas sem muita preocupação com o futuro, explorando da terra o que ela oferece; enquanto indígenas de ambientes gelados precisam planejar para poder sobrevier no inverno severo. Esse traço em muito permanece na cultura brasileira. […] Soma-se a isso, em meio aos ‘piedosos’, que planejar e organizar são contrários à piedade que confia em Deus e dEle depende. Estes consideram que o uso de ferramentas organizacionais envenenam e atrapalham o ser igreja, o que difere bastante da prática percebida na vida e ministério de Paulo.”  (Planejar ou confiar?)

O planejamento não exclui a fé e a fé não exclui o planejamento.
O planejamento não exclui a oração e a oração não exclui o planejamento.
O planejamento não exclui a humildade perante Deus e a humildade perante Deus não exclui o planejamento.

Planejar faz parte da sua vida pessoal e do seu ministério?
Ouça a mensagem pregada pelo Pr. Fernando Leite na Igreja Batista da Cidade Universitária, em Campinas, SP.

Você pode também ver o vídeo e seguir o esboço e os slides.

D. Martin Loyd-Jones. Depressão espiritual: suas causas e cura

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“Por que estás abatida, ó minha alma? E por que te perturbas dentro de mim?” Essa declaração, que aparece tanto no Salmo 42 como no 43, descreve com clareza a condição de muitos – uma condição conhecida como depressão espiritual. Depressão Espiritual: suas causas e cura é uma compilação de 21 sermões pregados na Capela de Westminster, em Londres, em que Dr. D. Martin Lloyd-Jones discute as causas e a forma como pode ser tratada e superada a depressão. Dr. Lloyd-Jones, médico e pastor, explica a natureza do livro compilado originalmente em 1964, mas perfeitamente atual em seu conteúdo:

Nosso assunto, em outras palavras, é o que poderíamos descrever como “depressão espiritual”, as suas causas e a maneira como deve ser tratada. É interessante notar a frequência com que este assunto é tratado nas Escrituras. Isso nos leva à conclusão que é um problema muito comum, e que parece ter afligido o povo de Deus desde o princípio, pois tanto o Velho como o Novo Testamento o descrevem e o tratam demoradamente. Isso, por si só, seria razão suficiente para trazê-lo à sua atenção, mas eu também o faço porque parece ser um problema que está afligindo o povo de Deus de forma particular nos dias atuais […] Para fazer uma análise a fundo deste tema, precisamos prosseguir ao longo de duas linhas de pensamento. Primeiro, precisamos ver o que a Bíblia ensina sobre o assunto, e então vamos examinar alguns exemplos ou ilustrações notáveis deste problema na Bíblia, e observar como as pessoas envolvidas agiram, e como Deus tratou com elas. Esta é uma boa maneira de enfrentar qualquer problema na vida espiritual. É sempre bom começar com a Bíblia, onde encontramos ensinamentos claros sobre todo e qualquer problema, e depois examinar exemplos e ilustrações oferecidos pela mesma fonte. (p. 10)

Aqueles que não tiveram ainda contato com a obra do Dr. Lloyd-Jones, talvez queiram começar pelo vídeo, produzido por Granted Ministries, para o lançamento da nova edição revista m inglês, e com tradução e legenda de Defesa do Evangelho.

Embora Depressão Espiritual: suas causas e cura tenha sido escrito há quase meio século, seu conteúdo baseado nas verdades da Palavra de Deus é atemporal e ainda fala à nossa geração. O livro pode não ser a leitura mais indicada para colocar nas mãos de um aconselhado profundamente deprimido, que se beneficiaria inicialmente de textos mais breves e com estilo de escrita mais atual, mas é sem dúvida alimento sólido para o conselheiro e para os crentes que buscam orientação para a vida cristã efetiva. Dos vários aspectos tratados com relação à depressão, selecionamos alguns destaques.

O cristão e a conversa consigo mesmo

Estou dizendo que o maior problema em toda essa questão de depressão espiritual, num sentido, é que permitimos que o nosso “eu” fale conosco, em vez de nós falarmos com o nosso “eu”. Estou tentando ser deliberadamente paradoxal? De modo algum. Isso é a essência da sabedoria nesta questão. Já perceberam que uma grande parte da infelicidade e perturbação em suas vidas provém do fato, que estão escutando a si mesmos em vez de falar consigo mesmos? Por exemplo, considerem os pensamentos que lhes vêm à mente quando acordam de manhã. Vocês não os originaram mas esses pensamentos começam a “falar” com vocês, trazendo de volta os problemas de ontem, etc. Alguém está falando. Quem está lhes falando? O seu “eu” está falando com vocês. Ora, o que o salmista [no Salmo 42] fez foi o seguinte: em vez de permitir que esse “eu” falasse com ele, ele começou a falar consigo mesmo. “Por que estás abatida, ó minha alma?” ele pergunta. Sua alma estava deprimida, esmagando-o. Por isso ele se dirige a ela, dizendo: “Ouça por um momento, eu quero falar contigo”.

A arte maior na questão da vida espiritual é saber como dominar-se. Um homem precisa ter controle sobre si mesmo, deve falar consigo mesmo, exortar e examinar a si mesmo, […] lembrando-se de Deus: quem Ele é, o que Ele é, o que Ele tem feito, e o que tem prometido fazer. Tendo feito isso, termine com esta nota de triunfo: desafie a si mesmo, desafie os outros, desafie o diabo e o mundo todo, dizendo com este homem, “Eu ainda o louvarei. Ele é a salvação da minha face, e o meu Deus”. (p. 20)

O cristão e a culpa pelo passado

Você e eu — e para mim esta é uma das grandes descobertas da vida cristã: eu nunca esquecerei a libertação que a compreensão deste fato me trouxe — você e eu nunca devemos olhar para nenhum pecado da nossa vida passada de qualquer forma, a não ser aquela que nos leve a louvar a Deus e exaltar a Sua graça em Cristo Jesus. Eu o desafio a fazer isso. Se você olha para o seu passado e isso o deprime, e se como resultado disso você se sente miserável como cristão, precisa fazer o que Paulo fez. “Fui um blasfemador”, ele disse, mas não parou aí. O que é que ele diz em seguida? “Sou portanto indigno de ser um pregador do evangelho”? Na verdade, ele diz  exatamente o oposto: “Dou graças a Cristo Jesus Senhor nosso, porque me teve por fiel, pondo-me no ministério”. Quando Paulo olha para o passado e vê o seu pecado, ele não se encolhe num canto, dizendo: “Não mereço ser um cristão, eu fiz coisas tão terríveis”. Ele não faz isso. O efeito do seu passado sobre ele leva-o a dar glória a Deus. Ele se gloria na Sua graça e diz: “E a graça de nosso Senhor superabundou com a fé e amor que há em Jesus Cristo”.

É assim que devemos olhar para o nosso passado. Então, se você olha para o seu passado e se sente deprimido, significa que está dando ouvidos ao diabo. Mas se você olha para o seu passado e diz:  “Infelizmente é verdade que o deus deste mundo me cegou, mas louvado seja Deus a Sua graça foi mais abundante; Ele foi mais que suficiente e Seu amor e misericórdia vieram sobre mim de tal forma que tudo foi perdoado; sou uma nova criatura” — então tudo está bem. É assim que devemos olhar para o passado, c se não fazemos isso, quase me sinto tentado a dizer que merecemos ser miseráveis. Por que crer no diabo em vez de crer em Deus? Levante-se e compreenda a verdade a respeito de si mesmo, que o passado se foi, que você é um com Cristo, e todos os seus pecados foram apagados de uma vez para sempre. Oh, lembremo-nos que é pecado duvidar da Palavra de Deus, é pecado permitir que o passado, que já foi resolvido por Deus, nos roube da nossa alegria e nossa utilidade no presente e no futuro. Ouça de novo as palavras ditas do céu ao duvidoso, hesitante apóstolo Pedro: “Não faças tu comum ao que Deus purificou”. Regozije-se na maravilhosa graça e misericórdia que apagou os seus pecados e o fez um filho de Deus. “Regozijai-vos sempre no Senhor; outra vez digo, regozijai-vos”. (p. 69)

O cristão e a preocupação com o futuro

Há certas considerações gerais preliminares a serem feitas, antes de abordarmos os ensinamentos específicos das Escrituras. Por isso, gostaria de apresentar certas proposições. A primeira coisa é descobrir e saber exatamente onde está a linha divisória entre prudência legítima quanto ao futuro, e antecipação paralisante. Devemos pensar sobre o futuro, e é muito tola a pessoa que não pensa nele. Mas o que as Escrituras nos exortam constantemente é que não devemos nos preocupar sobre o futuro. “Não vos inquieteis pelo dia de amanhã” significa “não sejam culpados de ansiedade quanto ao amanhã”. Não significa que não devemos tomar providências quanto ao futuro; se fosse assim, o fazendeiro não sairia a arar e preparar a terra e semear. Ele está olhando para o futuro, mas ele não passa o tempo todo se preocupando com os resultados do seu trabalho. Não, ele pensa nisso dentro dos limites da razão, e depois descansa.

Pensar está certo até um determinado ponto, mas se passarmos desse ponto, isso se transforma em ansiedade e preocupação, que paralisa e incapacita. Em outras palavras, ainda que esteja certo pensarmos sobre o futuro, está errado ser controlado por ele. O problema com as pessoas que são prisioneiras desses temores é que elas são controladas pelo futuro, são dominadas por pensamentos a respeito dele, constantemente torcendo as mãos em desespero, sem fazer nada, deprimidas pelos seus temores. Na verdade, são completamente governadas e controladas pelo futuro desconhecido, e isso sempre é errado. Pensar a respeito está certo, mas ser controlado pelo futuro está errado. (p. 87)

O cristão e o medo

Aqui temos uma soberba migalha de psicologia, pois, no fim das contas, qual é a causa principal do espírito de temor? A resposta é “o eu”. Autopreocupação, autoproteção, egoísmo. Vocês já perceberam que a essência deste problema é que estas pessoas medrosas realmente estão absorvidas demais em si mesmas — “Como posso fazer isso? E se eu falhar?” “Eu” — estão constantemente voltadas para si mesmas, olhando para si mesmas e preocupadas consigo mesmas. E é aqui que o espírito de amor entra, porque só há um modo de alguém se libertar de si mesmo. Há somente uma cura para isso. Ninguém pode tratar com seu próprio “eu”. Esse foi o erro fatal daqueles pobres homens que se tornaram monges e eremitas. Eles conseguiram se afastar do mundo e das outras pessoas, mas não conseguiam se afastar de si mesmos. O nosso “eu” está dentro de nós e não podemos nos livrar dele; quanto mais nos mortificarmos a nós mesmos, mais a nossa natureza vai atormentar-nos.

Há somente uma maneira de nos libertar — é nos absorvermos tanto em outra coisa ou outra pessoa, que não tenhamos tempo de pensar em nós mesmos. Graças a Deus, o Espírito Santo torna isso possível. Ele não é apenas o “Espírito de poder”, mas também é o “Espírito de amor”. Que significa isso? Significa amor a Deus, amor ao grande Deus que nos criou, amor ao grande Deus que planejou um caminho de redenção para nós, miseráveis criaturas — que nada merecemos senão o inferno. Ele nos amou com um amor eterno. Pense nisso, diz Paulo a Timóteo, e quando você se absorver no amor de Deus, vai se esquecer de si mesmo. “O Espírito de amor!” Esse Espírito de amor libertará vocês do auto-interesse, da auto-preocupação, da depressão por causa de si mesmos, porque depressão é resultado do “eu” e da auto-preocupação. Ele liberta do “eu” em todas as áreas. Então, falem consigo mesmos a respeito deste eterno, grandioso amor de Deus — o Deus que olhou para nós, apesar do nosso pecado, que planejou o caminho da redenção, e não poupou Seu próprio Filho, mas O entregou por todos nós. […] Pensem no Seu amor, e à medida que começarem a entender algo a respeito, vão se esquecer de si mesmos. E daí, amor aos irmãos. Pensem em outras pessoas, suas necessidades, suas preocupações. (p. 92)

O cristão e suas emoções

Evite o erro de concentrar demais em suas emoções. Acima de tudo, evite o terrível erro de colocá-las no centro. Eu nunca me canso de repetir isso porque frequentemente descubro que isso leva a tropeços. Emoções nunca devem assumir o primeiro lugar, nunca devem ocupar o centro. Se você as colocar ali, estará se condenando à infelicidade, porque não está seguindo a ordem que o próprio Deus estabeleceu. As emoções sempre são o resultado de outra coisa, e como alguém que já tenha lido a Bíblia pode cair nesse erro ultrapassa minha compreensão. O salmista o expressa no Salmo 34, dizendo: “Provai, e vede que o Senhor é bom”. Você nunca vai ver enquanto não provar; não vai saber, nem sentir, enquanto não experimentar. “Provai e vede”, um segue ao outro como a noite segue o dia. Ver antes de provar é impossível. Isso é algo que é constantemente enfatizado nas Escrituras. Afinal, o que temos na Bíblia é a verdade; não é um estímulo emocional, não é algo destinado primariamente a nos dar uma experiência jubilosa. É, antes de tudo, verdade, e verdade é algo dirigido à mente, o dom supremo de Deus ao homem; e é quando compreendemos a verdade e nos submetemos a ela, que as emoções se seguem. Nunca devo fazer a mim mesmo, à primeira instância, a pergunta: “Que sinto a respeito disto?” A primeira pergunta deve ser: “Creio nisso? Aceito isso, isso tomou conta de mim?” Considero esta, talvez, a regra mais importante de todas, que não devemos nos concentrar demais nas emoções. Não gaste tanto tempo sentindo seu próprio pulso e tirando sua própria temperatura espiritual, não gaste tanto tempo analisando seus sentimentos. Essa é a estrada principal que leva à morbidez. […] nosso dever, o seu e o meu, não é despertar sentimentos; é crer. A Bíblia não nos diz, em lugar algum, que somos salvos por nossos emoções; ela diz que somos salvos pela fé. “Crê no Senhor Jesus Cristo e serás salvo”. Nem uma vez as emoções são colocadas numa posição central. Ora, isto é algo que podemos fazer. Eu não posso forçar a mim mesmo a ser feliz, mas posso lembrar-me da minha fé. Posso exortar a mim mesmo a crer, posso falar com minha alma como o salmista fez no Salmo 42: “Por que estás abatida, ó minha alma, e por que te perturbas dentro de mim? espera. . .” Crê, confia. Esse é o caminho. (p .102, 105)

O cristão, as provações e a tristeza

Existe uma linha de pensamento a respeito da vida cristã que dá a impressão de que, uma vez tomada a decisão, ou uma vez convertido, não há mais ondas nem tempestades no mar da vida. Tudo vai ser perfeito, sem qualquer problema daí para a frente. Bem, a simples resposta a essa visão do cristianismo, é que isso não é o cristianismo do Novo Testamento. […] Ora, não vamos nos enganar quanto ao significado dessa palavra “contristado” [1Pe 1.6]. Contristado significa estar entristecido; significa que estamos perturbados. Não significa apenas que temos que sofrer certas coisas, mas que esse sofrimento nos entristece. Essas coisas nos perturbam e realmente nos tornam infelizes. Pedro então descreve estas pessoas como apresentando estas duas características ao mesmo tempo, alegres e no entanto contristadas. Encontramos isso frequentemente nas Escrituras. Tomemos como exemplo perfeito disso a série de paradoxos que o apóstolo Paulo usa para descrever a si mesmo em II Coríntios capítulo quatro: “Em tudo somos atribulados mas não angustiados;. perplexos, mas não desanimados; perseguidos mas não desamparados; abatidos, mas não destruídos; trazendo sempre por toda a parte a mortificação do Senhor Jesus” — e assim por diante. Tais afirmações parecem ser mutuamente exclusivas a princípio, mas não são. Apenas fazem parte do paradoxo da vida cristã. Isto é o mais espantoso no cristão, que ele pode experimentar estas duas coisas ao mesmo tempo. “Se isso é verdade”, alguém dirá, “onde está o problema?” O problema está em que falhamos em manter o equilíbrio, e temos a tendência de permitir que essa tristeza nos oprima e realmente nos desanime. O perigo não está em ficarmos temporariamente perturbados com isso, mas em que isso se torne uma atitude predominante da qual não nos consigamos livrar, e que, como resultado, leve as pessoas que nos observam a perceber mais o lado de tristeza em nós do que a atitude de alegria. O que estamos realmente dizendo, e o que precisamos compreender e lembrar, é que o cristão não é alguém que se tornou imune ao que está acontecendo à sua volta. É necessário enfatizar esta verdade porque há pessoas cuja noção e concepção da vida cristã torna o cristão um ser um tanto inatural. Tristeza e aflição são coisas às quais o cristão está sujeito, e estou pronto a defender o argumento que a ausência de um sentimento de tristeza no cristão em certas circunstâncias não é uma recomendação para a fé cristã. […] Não há nada mais instrutivo ou encorajador, ao ler as Escrituras, do que observar que os santos de Deus estão sujeitos às fraquezas humanas. Conhecem a dor e a tristeza, sabem o que é sentir solidão e desapontamento. […]Pois bem, estas coisas podem ser encontradas ao mesmo tempo, e o cristão jamais deve considerar-se como alguém que está isento de sentimentos naturais. Ele tem algo em si que lhe permite elevar-se acima de todas essas coisas; mas a glória da vida cristã é justamente que podemos viver acima destas coisas, ainda que as sintamos. Não é uma ausência de sentimentos ou emoções. (p.193)

O cristão e a oração

Todos temos a tendência de permitir que as circunstâncias nos tiranizem, porque dependemos delas, e gostaríamos de poder governá-las e controlá-las, mas essa não é a maneira que as Escrituras tratam da situação. O que o apóstolo diz é isto: “Tornem as suas petições conhecidas a Deus, e a paz de Deus que excede todo entendimento guardará seus corações e suas mentes”. Ele manterá vocês a salvo destas coisas que os mantêm acordados e os impedem de dormir. Serão mantidas à distância, e vocês serão mantidos em paz, apesar delas. Quero enfatizar mais uma vez que o apóstolo nunca diz que, se orarmos, nossa oração em si fará com que nos sintamos melhor. É uma desgraça que pessoas. possam orar por essa razão. Essa é a maneira dos psicólogos usarem a oração. Eles nos dizem que, se estamos perturbados, a oração nos fará bem — boa psicologia, péssimo cristianismo. Oração não é autossugestão.

Tampouco o apóstolo diz: “Orem, porque enquanto vocês estiverem orando, não vão pensar nesse problema, e assim terão alívio temporário”. Novamente, boa psicologia, péssimo cristianismo. Ele também não diz: “Se vocês encherem as suas mentes com pensamentos a respeito de Deus e de Jesus Cristo, esses pensamentos expulsarão as outras coisas”. Outra vez, muito boa psicologia, mas que não tem nada a ver com cristianismo.
Nem ele está dizendo — e afirmo isso ponderadamente: “Orem, porque a oração muda as coisas”. Não, não
muda. A oração não “muda coisas”. Não é isso que o apóstolo está dizendo; isso, novamente, é psicologia que
nada tem a ver com o evangelho. O que o apóstolo diz é isto: “Orem e tornem os seus pedidos conhecidos diante de Deus, e Deus fará alguma coisa”. No é a sua oração que vai fazer algo, nem vocês que vão fazer alguma coisa acontecer — é Deus. “A paz de Deus, que excede todo entendimento” — Ele, em e através de tudo, “guardará os vossos corações e os vossos sentimentos em Cristo Jesus”. (p. 238)

Ficha Técnica
Autor: D. Martin Lloyd-Jones
Título:  Depressão espiritual: suas causas e cura
Título original:  Spiritual depression: its causes and cures
Editora: PES
Páginas: 264
Data de publicação: 1987

D. Martyn Lloyd-Jones (1899-1981) formou-se em medicina, e exerceu a profissão de médico por vários anos, antes de ingressar no ministério. Depois de exercer o pastorado por onze anos no País de Gales, mudou-se para Londres, onde foi pastor adjunto do Dr. Campbell Morgan, na Capela de Westminster. Foi sucessor do Dr. Morgan, pastoreando a Capela de Westminster por três décadas.