Palavras de conforto contraintuitivas

Wendy Alsup

Há um momento na história de Jó que me incomoda a cada leitura. Em Jó 23, Jó está em seu ponto máximo de abatimento. Seus filhos morreram, ele perdeu todos os seus bens e está coberto de feridas purulentas. Tudo aquilo a que ele se dedicou durante a vida tornou-se pó. Aqueles que deveriam confortá-lo não lhe trazem conforto. Ele diz que sua queixa é amarga e lamenta o fato de nem mesmo saber para onde olhar em busca de Deus. Jó, um homem reto perante Deus, está em situação lastimável não por sua própria insensatez. Na verdade, se existe alguém merecedor de conforto verdadeiro, pelo meu sistema de valores, esse homem é Jó.

No entanto, depois de um longo silêncio, quando finalmente Deus fala com Jó no capítulo 38, Suas palavras não se encaixam no perfil daquilo que eu penso que Jó merecesse ouvir.

1 Então o SENHOR respondeu a Jó do meio da tempestade e disse: 2 “Quem é esse que obscurece o meu conselho com palavras sem conhecimento? 3 Prepare-se como simples homem; vou fazer-lhe perguntas, e você me responderá. 4 “Onde você estava quando lancei os alicerces da terra? Responda-me, se é que você sabe tanto. 5 Quem marcou os limites das suas dimensões? Talvez você saiba! E quem estendeu sobre ela a linha de medir?

Deus continua a falar assim com Jó ao longo de quatro capítulos. “Eu sou Deus, Jó! Eu firmei as estrelas no céu, criei os oceanos e todos os animais que neles há. Você pode fazer isso? Eu sou o Todo-poderoso, onisciente. Jó, não aja como se você tivesse conhecimento maior do que o meu a respeito de qualquer questão.”

Eu esperaria que Deus tivesse palavras mais confortantes para Jó − pelo menos de acordo com minha definição de conforto. Algo que lembrasse que nada pode nos separar do amor de Deus . Ou que Deus faz todas as coisas para o nosso bem. Ou que aqueles que esperam em Deus sobem com asas como águias. Ou que Aquele que começou a boa obra em nós será fiel para completá-la. Mas nenhuma dessas promessas é enfatizada aqui. Pelo contrário, dirigindo-se à pessoa que provavelmente estava na situação mais lamentável entre as demais mencionadas nas Escrituras, Deus diz: “Eu sou Deus. Eu sou o Todo-poderoso. E eu sei o que estou fazendo!”.

Tenho me debatido pessoalmente com Deus a respeito de algumas circunstâncias em minha vida. Recentemente, orei com insistência por uma palavra dEle − “Deus, mostre-me algo que me ajude a entender esse momento de vida. Ajude-me a  saber como pensar a respeito de tudo isso e como responder em obediência”. Não sei o que eu esperava, mas Sua palavra foi bastante clara. “Sem fé é impossível agradar a Deus” (Hb 11.6).

Deus não me disse que meus problemas logo terminariam ou que as coisas fariam mais sentido em breve. Em vez disso, Ele disse com muita firmeza: “Confie em mim! Acredite em mim. Eu firmei as estrelas no céu e Eu sei o que estou fazendo”.

Lembrei-me de que, aqui na terra, Deus nunca explicou a Jó, pelo menos segundo o relato bíblico, o propósito de seu sofrimento. Até onde sabemos, Jó não tinha conhecimento do que estava acontecendo nos bastidores. Na verdade, o sofrimento de Jó não tinha um propósito imediato aqui na terra. Ele tinha por objetivo provar a idoneidade do caráter de Deus nos lugares celestiais, perante Satanás e seus subordinados.

Estou começando a entender que a razão principal dos longos períodos de silêncio de Deus durante as nossas dores e sofrimentos terrenos é mostrar que Ele é digno de nossa confiança com base inteiramente em quem Ele é, e não nas coisas que Ele nos dá. Satanás não consegue acreditar que a nossa confiança em Deus tenha por base apenas o Seu caráter e não as bênçãos que Ele nos dá aqui na terra. Essa é a provocação de Satanás: “Eles Te adoram só porque Tu és bom para com eles. Eles nunca adorariam se não recebessem respostas às suas orações e o cuidado que eles esperam”.

A verdade é que a fé genuína não adora a Deus porque Deus é bom, mas porque Deus é Deus. Nós não resistimos firmes na fé apenas porque esperamos o livramento, mas porque Deus é digno de adoração. E nós não entendemos esta verdade com total clareza no coração até conhecermos o Deus que não se encaixa em nossa definição de bondade, mas nos faz sentar pacientemente a Seus pés, sem responder às nossas orações durante algum tempo. E mesmo que esse tempo dure o restante de nossa existência aqui, Ele é digno de adoração.

Outra verdade é que, nas Escrituras, aqueles que conheceram o silêncio de Deus não permaneceram nesta condição o restante de seus dias. Deus promete completar a boa obra que Ele iniciou no coração. Ele trabalha as circunstâncias difíceis para o bem. E quando esperamos nEle para que atue, Ele nos faz subir com asas como águias. Mas não é por isso que nós cremos e confiamos nEle, e O adoramos. Nós adoramos a Deus porque só Ele é Deus. E Ele é digno de adoração.

Curiosamente, até que Deus realmente mudou algo em minha vida (e Ele o fez), essas palavras contraintuitivas ministraram grande graça para mim.

… o meu justo viverá pela fé (Hb. 10.38).

Original

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