Abuso espiritual: como responder

Entrevista com Bob Kellemen realizada por Tim Challies

[Em uma primeira conversa sobre abuso espiritual, Tim Challies e Bob Kellemen trabalharam em direção a uma definição do termo e viram também o que não deve ser classificado propriamente como abuso. Nesta segunda conversa sobre o assunto, Bob Kellemen responde a mais algumas perguntas.]

TC : Como devemos reagir ao verdadeiro abuso espiritual? Seria ocasião para dar início a um site para expor o abuso? Seria o momento oportuno para deixar uma igreja?

BK : Quero trabalhar esta questão de forma dupla: como responder ao abuso espiritual “internamente”, no seu coração, e como responder ao abuso espiritual “externamente”, no relacionamento com a pessoa que o feriu, no relacionamento com a igreja e com toda a comunidade cristã.

Para lidar com o próprio coração, eu sempre incentivo a pessoa que está passando por um abuso espiritual a parar e procurar ajuda de uma terceira parte, alguém de confiança, que possa oferecer uma avaliação objetiva. Discutimos na primeira conversa o fato de que o termo “abuso espiritual” pode ser mal utilizado ou mal aplicado para não precisarmos responder a uma confrontação amorosa de uma autoridade espiritual. Como conselheiro, procuro levantar essa possibilidade de forma amável e cuidadosa. A última coisa que alguém precisa é sentir que a “vítima está sendo novamente vítima”. Ainda assim, é vital ter alguém que possa ajudar a avaliar o que está realmente acontecendo.

Vamos supor que a avaliação externa confirme (falar assim pode até parece um pouco clínico demais para a vida real): está acontecendo um abuso espiritual. Neste caso, incentivo a pessoa que está sofrendo o abuso a evitar dois extremos. Um extremo é negar e minimizar. Em God’s Healing for Life’s Losses: how to find hope when you’re hurting, faço uma defesa bíblica da franqueza e do lamento − a honestidade consigo mesmo e com Deus a respeito das perdas que sofremos na vida. É uma perda muito dolorosa quando alguém de confiança – por exemplo, um pastor – usa seu papel de líder espiritual para prejudicar ao invés de ajudar.

Embora eu entenda que muitos não gostam da “linguagem de vitimização”, há uma “vítima” no abuso espiritual. Se você preferir, escolha uma outra palavra em lugar de “vítima”: “alvo do pecado de outra pessoa”, “sofredor”. Não minimize, porém, os danos causados pelo abuso. Na primeira parte da nossa conversa, compartilhei a base bíblica para o conceito de abuso espiritual: não se trata de um “crime sem vítima” e Cristo demonstra grande compaixão para com aqueles que são prejudicados pelos líderes espirituais.

O outro extremo a ser evitado é entrar em “modo de vítima”. Isso acontece quando passo a definir minha inteira identidade com base no abuso espiritual que sofri. Tudo em minha vida gira ao redor desta “identidade de vítima”. Nossa identidade fundamental é quem somos em Cristo, e em Cristo somos mais do que vencedores. Embora vítimas, somos vencedores em Cristo. A “mentalidade de vítima” leva a uma raiz de amargura que, pos sua vez, leva a um espírito vingativo de retaliação.

Quando evitamos esses dois extremos, podemos levar nossa dor e o sofrimento a Cristo e encontrar a Sua esperança restauradora. Mais uma vez, isso parece ser fácil e rápido quando colocado em palavras, mas não é fácil nem rápido na vida real. No entanto, é possível ter esperança mesmo ao passar pela dor do abuso espiritual.

TC :  A distinção entre a resposta interior e a exterior é um esclarecimento útil, Bob. Uma vez que a pessoa se disponha a trabalhar sua resposta interior, como ela deve reagir exteriormente ao abuso espiritual? Usar um site ou um blog para denunciá-lo? Deixar a igreja?

BK : Esse é o ponto-chave que faz toda a diferença: trabalharmos com Cristo e com o corpo de Cristo a nossa resposta interior. Tiago 3.13-18 oferece um retrato vívido com o uso de cores que contrastam a reação de um coração duro e amargo com a reação de um coração brando e piedoso.

Quem é sábio e tem entendimento entre vocês? Que o demonstre por seu bom procedimento, mediante obras praticadas com a humildade que provém da sabedoria. Contudo, se vocês abrigam no coração inveja amarga e ambição egoísta, não se gloriem disso, nem neguem a verdade. Esse tipo de “sabedoria” não vem dos céus, mas é terrena; não é espiritual, mas é demoníaca. Pois onde há inveja e ambição egoísta, aí há confusão e toda espécie de males. Mas a sabedoria que vem do alto é antes de tudo pura; depois, pacífica, amável, compreensiva, cheia de misericórdia e de bons frutos, imparcial e sincera. O fruto da justiça semeia-se em paz para os pacificadores.

Se dermos início a um ministério de esclarecimento a respeito do tema, este ministério refletirá a primeira ou a segunda parte do texto de Tiago? Se deixarmos a igreja local, partiremos de forma a refletir Tiago 3.13-16 ou Tiago 3.17-18? Se ficarmos na igreja e iniciarmos o processo de Mateus 18, faremos isso de forma amarga e arrogante, promovendo divisão, ou de forma humilde, pura, submissa, como amantes da paz?

Nenhum artigo, nenhum blog pode dar a resposta “certa”. Não existe uma resposta “certa”. Mas existe claramente uma resposta que vem de um coração “certo” com Cristo.

Vamos supor que alguém comece um site de esclarecimento sobre o assunto. O que alimenta os objetivos desse site? O que o impulsiona? Se for um lugar onde as pessoas que sofreram dor semelhante (ao redor do mundo) podem ir para encorajarem umas às outras com o propósito de crescerem em Cristo, então sou completamente a favor. Se for um repositório de informações e conselhos sábios, e de sugestões para encontrar um caminho bíblico ao passar pelo abuso espiritual, também sou completamente a favor. Mas se for um site em que há mais expressões de Tiago 3.13-16 que de Tiago 3.17-18, então não sou a favor. E não sou a favor porque isso não reflete a Cristo. Também não sou a favor porque não é útil para ninguém, nem mesmo para a pessoa que sofreu o abuso espiritual.

TC : Como uma estrutura adequada de liderança poderia atuar contra esse tipo de abuso ao prover um sistema de autoridade ou prestação de contas?

BK : Esta é uma pergunta importante, Tim. Creio que podemos levantar uma pergunta preliminar antes de respondê-la: “O que fazer se a estrutura de liderança não inclui a prestação de contas e inibe uma investigação legítima do abuso espiritual?”. Alguém que sofreu abuso espiritual e acabou de ler meu parágrafo acima a respeito dos sites poderia muito bem pensar algo assim:

“Isso é fácil de dizer, Bob. Mas o problema é ‘sistêmico’. Procuramos seguir o processo de Mateus 18. Em uma igreja saudável, com boa estrutura de liderança e prestação de contas, Mateus 18 funciona. No entanto, na igreja onde um líder ou um pequeno grupo de líderes dominam completamente e respondem de maneira defensiva a qualquer feedback, Mateus 18 encontra um grande obstáculo. Isto é especialmente verdadeiro em igrejas não denominacionais ou em uma mega-igreja cujo líder atingiu o estrelato. Desta forma, a nossa única esperança de mudar a liderança abusiva sistêmica, a cultura pecaminosa enraizada, é a exposição pública.”

Esse ponto merece reflexão e certamente não podemos responder de forma definitiva aqui. Você e eu, Tim, nas resenhas de livros que fazemos em nossos sites, oferecemos “esclarecimento público” e, às vezes, “exposição pública”. Onde está a linha tênue entre a exposição pública apropriada, humilde e cuidadosa de um erro público (erro doutrinário ou erro relacional) e a exposição pública inadequada, arrogante e facciosa de um erro público? Esta é uma pergunta de milhões de dólares.

Parece-me que a exposição pública pode ser piedosa ou ímpia, sábia ou insensata, amante da paz ou facciosa. Ela se move em uma ou outra direção dependendo da atitude do nosso coração, da nossa motivação interna e dos métodos específicos/meios que usamos. Algumas passagens bíblicas que todos nós precisamos considerar quanto à exposição pública, e nas quais precisamos refletir, são: Mateus 18.15-20, Filipenses 2.1-10, 1Coríntios 13.1-13, 1Coríntios 5.1-5 com 2Coríntios 2.5 -11, 2Coríntios 6.11-13, 2Coríntios 7.8-13; Tiago 3.13-18; Tiago 4.1-12.

TC : Mais uma vez, Bob, este é um esclarecimento útil antes de abordarmos a questão específica. Vamos presumir o melhor cenário, com pessoas piedosas e uma estrutura bíblica de liderança, e voltar à questão anterior. Como uma estrutura adequada de liderança poderia atuar contra esse tipo de abuso ao prover um sistema de autoridade ou prestação de contas?

BK : Os leitores do seu blog vem de uma grande diversidade de igrejas, com diferentes estruturas de liderança, de modo que é impossível prescrever uma abordagem única para todos. É possível sugerir alguns princípios bíblicos.

1. Recomendo que todas as igrejas não somente tenham uma política de disciplina/restauração, mas que também tenham uma declaração de sua política/posição sobre como os conflitos devem ser solucionados.

2. Evidentemente, recomendo que o processo siga o padrão de Mateus 18 − caminhar do círculo mais restrito para os círculos mais amplos de envolvimento sempre que isso for se necessário para solucionar o conflito.

3. Se o processo já envolveu toda a liderança local e ainda não houve solução, encorajo os líderes a procurarem a liderança denominacional, se ela existir em sua situação, ou consultores externos (como a equipe de Peacemakers).

4. Este ponto deve fluir ao longo dos pontos de 1 a 3. Cada integrante da equipe pastoral e da liderança espiritual deve se comprometer com a prestação de contas contínua e um processo em que “ferro afia ferro”. Qualquer pastor ou membro de uma equipe de liderança que se considere acima da necessidade de feedback, prestação de contas e desafio mútuo, está pronto para uma queda.

5. Este ponto também deve fluir ao longo dos pontos anteriores: quer estejamos na posição de pastor, líder espiritual ou liderado, todos nós precisamos aplicar Mateus 7.1-5. Precisamos pedir que Deus revele a trave do nosso olho. Não estou certo de ter visto muitos sites comprometidos com expor o abuso espiritual que dediquem muito ou mesmo algum espaço para dizer: “Pecamos desta e daquela forma contra o nosso pastor e nossa equipe de liderança. Lidamos mal com o processo assim e assim”. Não estou certo de ter visto equipes de liderança responderem: “Confessamos que fomos arrogantes. Reconhecemos que erramos ao sermos manipuladores”.

6. Ao caminhar pelos princípios anteriores, precisamos orar que Deus nos dê um coração de embaixadores da reconciliação. Nosso objetivo principal é denunciar o erro ou é incentivar o arrependimento mútuo e humilde que conduz à reconciliação com Deus e uns com os outros? O teste, algumas vezes, surge quando um dos lados se arrepende. A resposta do outro lado será o perdão humilde ou uma atitude de “Eu te avisei! Te peguei!”?

Tim, aprecio muito o fato de você usar o seu blog para explorar este assunto. Suas perguntas me desafiaram a pensar mais, e sou grato por esta oportunidade de pensar em voz alta com seus leitores. Embora não existam respostas fáceis, existem princípios bíblicos para os relacionamentos e podemos segui-los para evitar, sempre que possível, e para tratar, sempre que necessário, o “abuso espiritual”.

Fonte: Challies.com
Original: More on spiritual abuse

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