Esperança para quando morrem as esperanças

Nancy Snyder

As Escrituras são suficientes até mesmo para a dor de perder um ente querido que morreu sem Cristo, e o consolo de Cristo flui no vale da sombra da morte.

As Escrituras trazem muito consolo para aqueles cujos entes queridos morrem na fé, mas como podemos ajudar os aconselhados cujos entes queridos morrem, aparentemente, separados de Cristo?

Andar humildemente
Ajude seu aconselhado a reconhecer humildemente que somente Deus pode discernir o verdadeiro estado da alma de uma pessoa. Ninguém sabe exatamente o que acontece entre o pecador e o Salvador nos últimos suspiros da vida. Talvez aquela pessoa como meu sogro, que desprezava os cristãos e o cristianismo, tenha se lembrado de uma conversa sobre o evangelho,  da qual se esquivou sem zombar. Talvez, enquanto deitado aparentemente sem sinal de resposta, ele tenha clamado a Deus em arrependimento genuíno. Nesse caso, como o ladrão na cruz, ele está com Cristo no paraíso. A morte, especialmente a morte de um suposto descrente, chama-nos a nos humilhar debaixo da poderosa mão de Deus, lançando sobre Ele todas as nossas ansiedades, porque Ele cuida de nós (cf. 1Pe 5.6, 7).

Lamentar com quebrantamento
Ensine seu aconselhado a lamentar. O lamento ergue do chão a os nossos olhos e leva a Deus o nosso medo, a dúvida, a ira e o desespero (cf. Sl 40.2). Incentive seu aconselhado a ler os salmos de lamento e depois escrever seu próprio lamento. Os Salmos foram escritos para serem cantados; o canto faz com que esses salmos penetrem na alma, amolecendo o barro quebradiço dos corações partidos. Indique para o seu aconselhado interpretações de salmos de lamento que ele possa encontrar na internet para ouvir e cantar em lágrimas. O salmista, cujas lágrimas eram o alimento dia e noite (cf. Sl 42.3),  cantou: “Contudo, o SENHOR durante o dia me concede a sua misericórdia, e de noite está comigo o seu cântico, uma oração ao Deus da minha vida​” (Sl 42.8).

Agradecer ainda que enlutado
Oriente seu aconselhado a agradecer a Deus pelas evidências da graça comum através da vida de seu ente querido. A graça comum – a bondade transbordante de Deus que derrama boas dádivas, mesmo sobre aqueles que se rebelam contra Ele – é tanto corriqueira quanto extraordinária. Corriqueira como o nascer diário do sol (cf. Mt 5.45) e a comida quente no fogão; extraordinária porque, como toda graça, é tão imerecida. Visto que meu pai ficava alegre quando estava bêbado, em oposição à embriaguez raivosa de minha mãe, ele foi um raio de sol na minha infância. Quando ele faleceu repentinamente, provavelmente em seu pecado, fiquei impressionado com a minha compreensão do julgamento justo de Deus que ele merecia. Agradecer a Deus por Sua graça comum, que brilhou naqueles momentos ensolarados que tive com meu pai, confortou-me e lembrou-me das ternas misericórdias de Deus para comigo. Se a evidência da graça comum parecer oculta, o aconselhado enlutado pode agradecer porque o caráter de Deus, refletido em nós, é tão diferente daquele do ente querido perdido. Depois de conhecer os outros membros da família, o pastor que oficiou o funeral do pai de um de meus amigos disse: “Agradeço a Deus por Sua graça que fez de você um triunfo da luz de Deus em meio a tantas trevas”. Mesmo nas circunstâncias de maior dor, ajude seu aconselhado a encontrar algo pelo que dar graças “porque esta é a vontade de Deus em Cristo Jesus” (1Ts 5.18).

Lidar com a culpa
De maneira bondosa, ajude seu aconselhado a discernir a culpa. Por exemplo, se o temor de homens impediu que ele compartilhasse o evangelho com seu ente querido que faleceu, oriente-o a confessar esse pecado e descansar na misericórdia purificadora de Deus (cf. 1Jo 1.9). Leve-o a se firmar na justiça de Cristo, imputada a ele pela fé (cf. Fp 3.9; Rm 4.5). Ajude-o a ter uma santa ousadia ao testemunhar de Cristo para outros incrédulos ao seu redor (cf. 2Co 3.12). Se o seu aconselhado luta com remorso por coisas que não são pecado, ajude-o a se firmar na providência soberana de Deus. Se um aconselhado chorar dizendo “Se eu tivesse percebido antes que ela estava doente, ela ainda poderia estar viva”, aponte para o Deus bom, cujos propósitos imutáveis são bons (cf. Is 14.27; Sl 119.68).

Apegar-se a Cristo
Um dos companheiros mais próximos de Jesus – Judas, “o filho da perdição” (Jo 17.12) – morreu privado da graça salvadora. O Homem de Dores compreende a profunda dor de ver alguém próximo, mas eternamente perdido. Aqueles que choram pelos que morreram sem ter crido em Cristo não estão sozinhos nem incompreendidos.

Encontrar  consolo em Cristo
Em 2Coríntios 1.3, 4, o apóstolo Paulo assegura àqueles que estão tristes que Deus é o “o Pai de misericórdias e Deus de toda consolação. É ele que nos consola em toda a nossa tribulação”. O versículo 5 acrescenta que “assim como transbordam sobre nós os sofrimentos de Cristo, assim também por meio de Cristo transborda o nosso consolo”. Cristo nos consola por meio da Palavra de Deus, pois as Escrituras são suficientes mesmo para essa dor. À medida que seu aconselhado se fortalecer por meio do consolo da Palavra de Deus, incentive-o a buscar, em espírito de oração, oportunidades para consolar outros com o consolo que recebeu (cf. 2Co 1.4b).

Ter esperança na eternidade
Quando pessoas amadas morrem e somos forçados a enterrar nossas esperanças por elas, uma forte esperança bíblica permanece. A esperança pode ser mais limitada do que gostaríamos, pois pode não incluir a pessoa amada. Esse canal de esperança, no entanto, é mais profundo do que a mais profunda dor. A tristeza por um ente querido que pode estar sofrendo o julgamento eterno parece um mar revolto no meio da batalha, mas Cristo é nosso precursor de Hebreus 6.20. Na Grécia antiga, os precursores eram enviados à frente do exército para preparar o caminho para a vitória. Cristo enfrentou o mar revolto, conquistou nossos inimigos e plantou nossa âncora no céu: “Temos esta esperança por âncora da alma, segura e firme e que entra no santuário que fica atrás do véu,  onde Jesus, como precursor, entrou por nós, tendo-se tornado sumo sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedeque” (Hb 6.19, 20).

Seu aconselhado pode não conseguir imaginar a possibilidade de desfrutar do céu sem esse ente querido. Deus, porém, “é poderoso para fazer infinitamente mais do que tudo o que pedimos ou pensamos, conforme o seu poder que opera em nós” (Ef 3.20).  De uma forma maravilhosa, que para nós é inconcebível agora, aqueles cujos entes queridos sofrem o julgamento eterno experimentarão tão plenamente “o amor de Cristo que excede o entendimento” e “toda a plenitude de Deus” (Ef 3.19), que terão plenitude de alegria para sempre. A fonte dessa alegria será a presença de Deus. Essa presença mesmo agora está ao lado do enlutado que ainda caminha neste vale da sombra da morte.


Nancy Snyder é conselheira bíblica certificada pela Association of Certified Biblical Counselors (ACBC),  autora de dois  livros para pais,  The Gospel for Moving Targets e Lions for Ajax, e intérprete para surdos nas conferências  da ACBC.



Original: Hope, When Hopes Die
Artigo publicado pela Association of Certified Biblical Counselors.  Traduzido com autorização.