Passo 2. Avaliar com critério

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O valor da sua coleção de recursos não está na quantidade de itens que ela reúne. Assim que você começar a localizar livros, artigos e outros recursos seja em livrarias ou na internet, antes de inseri-los na sua coleção, ou em uma lista de livros a adquirir, é preciso avaliar tanto a qualidade quanto a adequação de cada um deles à sua necessidade informacional. Essa avaliação deixará alguns itens de lado por não terem a qualidade desejada, e deixará talvez outros de lado não pelo fato de não serem bons materiais, mas porque não são os materiais mais adequados para alcançar o objetivo estabelecido para a sua coleção.

……1. AVALIE A QUALIDADE DOS LIVROS: A LEITURA PRELIMINAR

No caso dos livros, o primeiro contato — aquela “passada de olho pelo texto” ou leitura preliminar — já permite identificar se vale a pena tê-lo na sua coleção. Trata-se de uma leitura corrida que, embora atenta, não deve se preocupar com a compreensão mais aprofundada das ideias apresentadas. Em geral, os mesmos critérios valem para livros impressos e e-books.

• A página de rosto – procure a editora e a data de publicação.
• As abas ou a quarta capa – verifique as credenciais do autor: formação, experiência e contexto ministerial.  A quarta capa também costuma trazer um breve resumo do livro, seu propósito e recomendações de outros autores do mesmo campo de estudo.
O sumário – confira como o autor desenvolve o tema, os assuntos de que trata  e o quanto os capítulos se relacionam à sua necessidade informacional.
O prefácio – confira quem o assina e as recomendações feitas à obra.
A introdução – verifique o propósito, a abordagem e o público alvo, as hipóteses de trabalho e a metodologia do autor.
Os capítulos – passe rapidamente pelos capítulos em busca de termos ligados ao seu tema, valendo-se de títulos e subtítulos, e da leitura de alguns parágrafos que lhe permitam entender a linha e essência do trabalho.
A bibliografia citada – confira os recursos utilizados pelo autor ou veja se há notas de rodapé ou notas finais.
A bibliografia recomendada – confira os recursos recomendados pelo autor.

Para uma avaliação mais detalhada dos dados encontrados na leitura preliminar, você pode usar os cinco critérios básicos da tabela abaixo. Uma área mais fraca não invalida necessariamente o material, mas deve levantar um sinal amarelo. 

PERGUNTAS IMPLICAÇÕES
Autoria  Quais as credenciais do autor?
Qual sua posição teológica ou qual sua linha de pesquisa?
Ele escreveu outros livros?
É citado por outros em seu campo de estudo?
Está ligado a alguma instituição acadêmica ou a um ministério?
Se o livro não fornece dados suficiente, procure uma resenha crítica e mais dados sobre o autor na internet. Verifique quem endossa o livro, lembrando que os autores que você já conhece e em quem você confia também podem dar as recomendações mais confiáveis. Estabeleça conexão entre autores e a linha das instituições a que o autor está ligado ou recomenda. Para uso de estudo, muitas vezes é preciso recorrer a livros de autores com diferentes linhas teológico-ministeriais. Para uso ministerial, porém, familiarize-se com autores cujo conteúdo é confiável para indicar aos seus aconselhados. 
Publicação Qual é a editora?
Identifique a qualidade da editora e sua linha editorial. Familiarize-se com editoras cristãs que publicam na área do aconselhamento bíblico. A boa reputação da editora não garante inteiramente a qualidade do conteúdo de todos os seus projetos editoriais, mas é um indicador a ser considerado.
Datação Quando foi publicado?
Foram feitas revisões ou novas edições?
A data de publicação é importante para o assunto?
Na área científica, a atualidade da informação é importante. Em um ano ou dois os livros podem estar desatualizados. Em campos como a teologia, os livros mais antigos podem ter excelentes contribuições. A área ministerial, precisa levar em conta os novos desafios do cotidiano. Várias edições e revisões podem indicar que a obra é de referência na área. A data permite também inserir o texto no momento histórico de desenvolvimento do pensamento do autor, bem como no contexto cultural e ministerial. 
Conteúdo O argumento é desenvolvido de modo claro e coerente?
Ao defender seu ponto de vista, o autor apresenta e compara vários pontos de vista?
O tratamento do assunto é específico e profundo, ou é geral e superficial? A linguagem é acadêmica ou acessível ao público em geral?
Verifique tanto a confiabilidade do conteúdo quanto a originalidade no tratamento do tema, e a utilidade tanto acadêmica quanto ministerial do livro.
Para estudo, você precisa estar ciente de diferentes pontos de vista e saber avalia-los e compará-los. Para o seu aconselhado, prefira livros que exponham claramente o ensino bíblico, com interpretação bíblica e teologia precisas.
Documentação O autor faz referência a obras conhecidas no seu campo de estudo?
Inclui uma bibliografia recomendada?
Faz afirmações dando referências de pesquisa?
A fonte dos fatos é citada?
A informação é precisa ou contém erros evidentes?
Verifique se as fontes citadas são verídicas. Algumas vezes, é possível que você tenha de ir à fonte original para entender o contexto da citação e verificar se a fonte foi devidamente representada.
Tanto a bibliografia usada como base pelo autor quanto a bibliografia recomendada costumam indicar a linha de pensamento que o autor segue na sua área de estudo.
>……2. AVALIE A QUALIDADE DA INFORMAÇÃO ENCONTRADA EM LIVRE ACESSO NA INTERNET

Quando pesquisamos em bases de dados, repositórios acadêmicos ou acervos digitais de sites conceituados, encontramos informação que já foi selecionada por meio de um processo parecido com aquele que acontece nas bibliotecas físicas. O problema maior, porém, está em determinar a qualidade dos materiais encontrados por meio de buscadores como o Google. Este material requer uma avaliação cuidadosa antes de ser usado como base para um estudo consistente e fidedigno, ou para o ministério. Além de aplicar boa parte dos critérios de avaliação mencionados para os livros, considere alguns critérios específicos para a informação on-line.

PERGUNTAS IMPLICAÇÕES
Responsabilidade pelo conteúdo e pelo site Está explícito quem é o responsável pelo site?
O que a URL indica?
Existe um contato para informação?
O site inclui uma página que fornece as credenciais e/ou filosofia da instituição ou autor?
Você chegou a ele por um link de um site de confiança?
Que sites fazem referência a ele?
É recomendável para um aconselhado
?
Uma URL “.edu” ou “.gov” pode indicar informação mais confiável para pesquisa e dados estatísticos.
Páginas na internet que não dão credenciais de autoria precisam ser vistas no mínimo com cautela.
Páginas pessoais e blogs não são necessariamente fontes ruins de informação, mas é preciso investigar a autoria.
Para descobrir outras páginas que fazem referência: na pesquisa do Google, digite: link: “url do site“.
Se o site não for inteiramente de confiança em seu conteúdo, verifique que o seu aconselhado tenha maturidade para discernir o que aproveitar ou não; caso contrário, não indique.
Datação Qual a data da última atualização ou postagem? Nas áreas científicas, a atualidade da informação é primordial. Na área teológica e nas ciências humanas, a informação não perde sua validade com o tempo, mas a data permite verificar se o site ainda é mantido.
Conteúdo Qual o publico alvo?
A informação é completa e exata? O quanto é detalhada? Remete para outros conteúdos?
A extensão do desenvolvimento de um assunto na internet é diferente do material impresso. Uma página da internet pode não ter todo o conteúdo, mas incluir links para outras páginas que estendem a abordagem do assunto.
Documentação Há links inativos?
As fontes bibliográficas estão indicadas?
Reproduz material de outros sites? Se sim, as referências são exatas e há links?
Os links estão organizados? Foram avaliados ou anotados?
Links que não estão ativos ou que levam a páginas com conteúdo vago não dão credibilidade.
Verifique as fontes do material reproduzido de outros sites. Se a URL do documento original não é mencionada, a reprodução pode ser não autorizada ou estar alterada.
……3. AVALIE A “QUALIDADE BÍBLICA” DOS RECURSOS ESPECÍFICOS PARA O ACONSELHAMENTO BÍBLICO

Na área do aconselhamento, é comum que as pressuposições humanas influenciem a leitura e interpretação da Bíblia e, consequentemente, a variedade de recursos disponíveis para o conselheiro e o aconselhado. Os conselheiros treinados em sistemas seculares de aconselhamento correm o risco de se aproximar da Bíblia para comprovar o que já defendem com base em sua formação acadêmica ou na experiência profissional.

Na verdade, todos nós interpretamos a Bíblia quando a lemos, pois ainda que seja uma leitura superficial, atribuímos algum sentido ao texto. É comum ouvirmos dizer “Para mim, o texto significa que…”. O fato, porém, é que cada texto da Bíblia tem apenas um significado de acordo com seu Autor e não nos cabe criar novos significados. Embora com a finalidade de estudo crítico e comparativo possamos incluir em nossa coleção recursos mais baseados em teorias e experiência humana do que em conteúdo genuinamente bíblico, devemos ser cuidadosos em verificar que os livros em que o nosso ministério se alicerça, e que usamos para instruir os aconselhados, extraiam os ensino pela correta interpretação do texto bíblico (exegesis) em lugar de levar ao texto as teorias e ideias (eisegesis) e fazê-lo dizer aquilo que se quer que ele diga.

Além das pressuposições que podem influenciar ou mesmo controlar o entendimento do texto bíblico, um outro perigo são os livros que se atêm ao uso de versículos isolados, descontextualizados. Isso faz toda diferença no processo interpretativo e pode conduzir a falácias no aconselhamento bíblico. Você pode aprender mais e encontrar recursos que ajudam a crescer na área de interpretação bíblica para o aconselhamento em Estudo e aplicação da Bíblia no discipulado e aconselhamento bíblico.

Dois conjuntos de perguntas para você considerar

A base teológica da filosofia ministerial e metodologia do autor. Deus nos dá o privilégio de aprender a ver a vida através da Sua perspectiva. Se queremos entender o ser humano e seus problemas pessoais e interpessoais, e encontrar soluções cristãs, devemos nos basear nas instruções do Autor da vida.

1. Qual a visão sobre Deus e Cristo?
Quem é Deus, quais são os Seus atributos, como entramos em relacionamento com Ele, quem é Cristo e que diferença Sua obra faz para a salvação e para o cotidiano?
2. Qual a visão sobre o homem?
Quem é o homem, qual é a sua condição perante Deus, por que o homem faz o que faz?
3. Qual a visão sobre o problema do homem?
Qual é a raiz dos problemas do homem, qual é o papel das circunstâncias e do ambiente?
4. Qual a visão sobre a solução para o problema do homem?
Qual é a base para uma vida bem-sucedida, para uma mudança duradoura? O problema pode ser resolvido por mudar o ambiente, por mudar a si mesmo, por busca a autoafirmação, por aplicar “meia dúzia de dicas”, ou pelo arrependimento seguido de mudança de hábitos em dependência da capacitação e graça de Deus em Cristo?
5. Qual é a visão sobre o ministério do conselheiro?
Qual é o alvo para o aconselhamento, qual é o papel do conselheiro?

Os livros e blogs de autoajuda. Os livros de autoajuda costumam ser best-sellers atraentes em suas promessas. Os conselhos práticos podem ser muitas vezes úteis, com certeza, mas visto que o nosso coração é enganoso e pronto a viver em independência de Deus.

1.  De onde vem a capacidade para mudar?
Este livro incentiva-me a pedir a ajuda de Deus em oração, e a agir em dependência do poder e da graça de Cristo para a mudança, ou incentiva-me a confiar em mim mesmo e achar que tenho capacidade para mudar a mim mesmo (Fp 2.12,13)?
2. Qual a motivação para mudar?
Este livro incentiva-me a mudanças para o meu conforto e bem-estar, ou para honrar e obedecer a Deus e amar ao próximo (Mt 22.34-38)?
3. O que ou quem garante os resultados?
Este livro leva-me a esperar que seguindo as recomendações do autor terei pleno controle sobre os resultados esperados e sobre as pessoas envolvidas, ou ele me lembra que minha esperança está nas promessas do Deus que tem em Suas mãos todas as circunstâncias da minha vida (Sl 19.7-11; 2Pe 1.3,4; Tg 4.13-16)?
4. “Fazer” ou “ser para poder fazer”?
Este livro concentra-se em mudanças exteriores, ou ele me ajuda a focar primeiramente a mudança do meu coração em direção a Deus (Mt 23.25,26; Lc 6.43-45).
5. Qual o plano para mudar?
Este livro segue o plano de Deus, que é usar a Sua Palavra para o ensino, a repreensão e a correção, e também a educação na justiça para o meu crescimento (2Tm 3.16, 17; Ef 4.22-24 )?



Os primeiros dois passos que demos aqui — a busca e a avaliação da informação — preparam a sua coleção para o passo seguinte que será a organização dos recursos. Estes dois primeiros passos também podem resultar em um “guia bibliográfico” para as aquisições que você necessita fazer.