
Jessica Mohr
Ao longo dos séculos, grandes obras da literatura e do cinema têm lidado com nuances perceptíveis de vingança e justiça. Por exemplo, O Conde de Monte Cristo explora as consequências morais de querer vingança por ofensas pessoais. Ao apelar para o senso inato de justiça do homem, essas histórias costumam punir os personagens “merecedores” de punição. No entanto, os enredos que tradicionalmente usam de circunstâncias para orquestrar justiça contra os malfeitores dão lugar, na maioria das vezes, a “heróis” que buscam vendeta pessoal. Trata-se de heróis que embarcam em missões para obter restituição, agindo segundo o que é “reto aos seus próprios olhos” (Pv 21.2; cf. Jz 21.25). Eles assumem os papéis de juiz, júri e executor e, em alguns casos, ultrapassam em sua vingança as “setenta vezes sete” mencionadas por Lameque (Gn 4.24), aplicando a própria forma justiça e fazendo um grande e constrangedor número de vítimas.
Nossa cultura promove a retaliação também na vida real. A tecnologia digital oferece maneiras inovadoras para “se vingar” de outros, destruindo reputações. “Cancelar” pessoas envolve envergonhá-las publicamente por meio de boicotes sociais como o cyberbullying ou o doxxing, que consiste na publicação de dados de contato para assédio. Manifestações violentas, que causam danos patrimoniais, são vistas como justificáveis para protestar contra injustiças institucionais. Muitos até celebram a violência praticada contra seus inimigos sociopolíticos.
Em contraste marcante, os cristãos são chamados a uma resposta radical e contra-cultural quando são injustiçados. Paulo nos instruiu:
Não paguem a ninguém mal por mal; procurem fazer o bem diante de todos. Se possível, no que depender de vocês, vivam em paz com todas as pessoas. Meus amados, não façam justiça com as próprias mãos, mas deem lugar à ira de Deus, pois está escrito: “A mim pertence a vingança; eu é que retribuirei, diz o Senhor.” Façam o contrário: “Se o seu inimigo tiver fome, dê-lhe de comer; se tiver sede, dê-lhe de beber; porque, fazendo isto, você amontoará brasas vivas sobre a cabeça dele.” Não se deixe vencer pelo mal, mas vença o mal com o bem. (Rm 12.17-21)
Nossos aconselhados – assim como nós – precisam ser lembrados de duas verdades fundamentais sobre a vingança:
- o desejo de “corrigir” pecaminosamente as ofensas pessoais ainda reside em nossa carne;
- esse desejo expressa-se de diferentes formas.
O desejo de “acertar as contas”
A justificativa para uma vingança pode parecer tão justa! Quando nos vemos como vítimas, uma resposta “olho por olho” pode parecer totalmente justificável. No entanto, isso é uma distorção do senso e desejo de justiça que Deus incutiu em todos os que criou à Sua imagem. Segundo os termos bíblicos, podemos definir a justiça como “a virtude que dá a cada um o que lhe é devido”[1], e a vingança como “o ato de causar um dano pessoal, humilhação ou punição em resposta a uma ofensa”.[2]
Quando o desejo de sermos bem tratados não é atendido devido a uma ofensa, nosso senso de injustiça cresce. Em vez de reagir corretamente, nossa tendência é distorcer a justiça, assumindo o papel de “fiscais da justiça”: calculamos como acertar as contas segundo a nossa “balança da justiça” e executamos a vingança de acordo com o nosso critério. Como sempre, há uma certa recompensa. Depois de obter aquilo que achamos merecer, podemos provar certa satisfação ou senso de vindicação obtida: a justiça foi feita. No entanto, isso nunca extingue a amargura que vai se enraizar em nosso coração.
As muitas máscaras da vingança
Chegamos, assim, à segunda verdade: a vingança se revela de muitas maneiras e em diferentes dimensões. Nem toda vingança é como a do protagonista do Conde de Monte Cristo, meditada e tramada por anos. Pode ser algo muito mais sutil como, por exemplo, uma esposa que muda seu tom de voz para uma leve indiferença depois que o marido “joga um balde de água fria” na grande ideia que ela vinha trabalhando há algumas semanas. Essa resposta seca pode parecer totalmente justificada. Ela foi ferida, quer o marido tivesse a intenção de feri-la, quer não, e a decisão de se distanciar dele é sua escolha vingativa para puni-lo.
Normalmente, em situações como essa, um conselheiro pode identificar várias atitudes pecaminosas do coração: falta de tolerância e paciência; falta de humildade e de amor bíblico, um amor imerecido; falta de sabedoria e domínio próprio para conter sua atitude errada; falta de expressar o respeito para com seu marido, que agrada ao Senhor, entre outras. No entanto, os aconselhados nem sempre percebem o elemento da vingança pecaminosa. Em muitas situações de aconselhamento, eles ficam surpresos ao descobrir que algumas das respostas que eles dão, se usarmos o termo bíblico, são vingativas. Geralmente essas respostas podem ser resumidas da seguinte forma: “Você me feriu, e isso tem um preço”.
A vingança pode ser tão pequena quanto inserir na conversa uma pequena cutucada verbal ou até mesmo imaginar uma “retaliação” em sua mente: satisfazemo-nos mentalmente com o que nunca teríamos coragem de falar em voz alta. Talvez a esposa estivesse somente pensando: Você acha que essa é uma ideia ruim?! E aquela sua ideia de_____?
Nem sempre nós nos damos conta plenamente das respostas dadas em troca àquilo que julgamos ser uma ofensa. Algumas vezes, logo as esquecemos depois de sentir que o “pagamento” obtido foi suficiente. Ainda assim, isso é retribuir o mal com o mal. Devemos não somente ajudar nossos aconselhados a perceber esse comportamento pecaminoso, mas também a eliminá-lo da própria vida. Estas são algumas maneiras pelas quais podemos ser vingativos com os outros:
• Espalhar uma fofoca ou prejudicar a reputação de alguém;
• fechar-se, recusar-se a interagir, “gelar”;
• fazer um trabalho malfeito;
• sabotar, minar;
• enganar, roubar, mentir;
• fantasiar sobre uma vingança verbal ou de outro tipo;
• excluir a pessoa de entre suas amizades;
• causar algum tipo de dano a si mesmo, mas culpar a outra pessoa;
• recusar-se a servir;
• desconsiderar os desejos da outra pessoa e ocupar-se com aquilo que ela odeia;
• provocar intencionalmente à ira;
• virar o jogo, procurando praticar o mesmo tipo de ofensa;
• zombar, fazer brincadeiras de mau gosto, usar de sarcasmo e desrespeito.
O “revestir-se” bíblico: entregar a Deus e perdoar
A prática da vingança é fundamentalmente errada para nós porque ela não nos pertence. A vingança pertence a Deus, que a exerce de maneira perfeita e isenta de pecado: “Ele determina a justiça em Seus termos”.[3] Ele pode usar agentes terrenos, mas nunca para retaliação pessoal. Ele promete que “os maus serão castigados” (Pv 11.21). Todo pecado é tratado, seja pela condenação eterna do incrédulo, seja ao ser perdoado completamente por Cristo na cruz, para o crente. Não há espaço para buscarmos agir, nem necessidade. Deus é digno de confiança, e somos consolados e libertos, livres para seguir Seu exemplo quando somos terrivelmente injustiçados: “[Ele] quando insultado, não revidava com insultos; quando maltratado, não fazia ameaças, mas se entregava àquele que julga retamente” (1Pe 2.23). “Entregar” significa passar adiante; confiar a outro.[4] Cristo entregou os insultos e o sofrimento injusto ao Seu Pai. A vingança também é característica de um coração não perdoador. Quando nos vemos diante da tentação de “acertar as contas”, nossa escolha deve ser entregar isso aos cuidados de Deus. Em vez de nos vingar, perdoamos. Sofremos o golpe, por assim dizer. Lou Priolo observou: “Quando você perdoa alguém, isso lhe custa algo que é tremendamente caro. Custa o preço da ofensa que você perdoa!”[5] Somos livres para amar, sem nos ressentirmos do mal sofrido (1Co 13.5). Pelo poder do Espírito Santo, escolhemos pela fé “considerar a dívida de pecado que outros contraem contra nós como paga, com base na graça, ternura e misericórdia de Deus ao nos perdoar em Cristo, e com o compromisso de tratá-los como se nunca tivessem pecado contra nós”.[6] O perdão, e não a vingança, é o que realmente é doce.
[1] δικαιοσύνη, dikaiosynē, (Strong’s NT 1343), Thayer’s Greek Lexicon. Disponível em https://biblehub.com/greek/1343.htm. Acesso em 22 nov. 2025. Tradução nossa.
[2] HULSEY, P. Vengeance. Biblical Counseling Database. Disponível em: https://www.biblicalcounselingdatabase.net/tag/vengeance. Acesso em 22 nov. 2025. Tradução nossa.
[3] MacARTHUR, John. The problem of evil. Grace to You, 2007. Disponível em https://www.gty.org/library/sermons-library/GTY161/the-problem-of-evil. Acesso em 22 nov. 2025. Tradução nossa.
[4] παραδίδωμι, paradidōmi, Strong’s G3860, Blue Letter Bible. Disponível em https://www.blueletterbible.org/lexicon/g3860/nasb95/mgnt/0-1/. Acesso em 22 nov. 2025.
[5] PRIOLO, Lou. Amargura: a raiz que contamina. São Paulo: Nutra, 2019, p. 18.
[6] RISER, Chris. Love, the more excellent way: love does not take into account a wrong suffered – Part 2. Grace Maryville. Disponível em https://sermons.gracemaryville.org/2025/250126_Love_Pt_11_Pt_2.mp3 . Acesso em 22 nov. 2025. Tradução nossa.
Jessica Mohr é uma conselheira certificada pela Association of Certified Biblical Counselors (ACBC) e serve na Grace Community Church in Maryville, Tennessee.
Original: Vengeance Is Mine
Artigo publicado originalmente em Association of Certified Biblical Counselors
Tradução e adaptação para o português de Conexão Conselho Bíblico com permissão.