Andy Farmer

Recentemente, eu estava vendo imagens do consultório em que Sigmund Freud praticava a psicanálise. Ele a chamava de “sala de tratamento”. As fotos icônicas mostram uma sala de estar em sua casa com o famoso sofá onde os pacientes se deitavam para receber terapia. A cadeira de Freud ficava posicionada contra a cabeceira do sofá de tal forma que o paciente não o visse. Este arranjo, no qual o paciente está olhando para cima enquanto é guiado somente pela voz do terapeuta, foi cuidadosamente organizado por Freud para estabelecer a experiência espacial que ele desejava para alcançar seus objetivos de tratamento.
Isso me fez pensar em minha “sala de tratamento”. Como meu espaço dedicado ao aconselhamento está configurado para atender aos meus objetivos de aconselhamento? Como o seu espaço está configurado?
A ênfase do nosso aconselhamento não é proporcionar uma experiência impessoal, mas conhecer e orientar o aconselhado no contexto de uma conversa. Costumamos pensar que o espaço ideal para o aconselhamento seja inundado de luz natural, decorado de forma cuidadosa, mas básica, com cadeiras confortáveis uma de frente para a outra, talvez com uma mesinha de apoio entre o conselheiro e o aconselhado. Este espaço deve comunicar uma sensação de normalidade e colaboração. O aconselhado precisa sentir que está em um ambiente seguro e agradável.
A sala onde o aconselhamento acontece
Penso no próprio espaço onde aconselho, o meu escritório pastoral. Tenho cadeiras e uma mesinha que pode ser um lugar conveniente para colocar uma bebida ou uma pequena barreira de conforto entre mim e meu aconselhado, caso isso seja útil. Tenho janelas que só iluminam a sala durante as primeiras horas da manhã, então complemento com abajures para obter uma iluminação mais suave do que as lâmpadas fluorescentes do teto. No entanto, o meu escritório é um espaço polivalente, utilizado para muitas atividades além dos encontros de aconselhamento. Pode haver uma confusão de livros que não foram recolocados nas prateleiras e pilhas de tudo o que em minha vida está ali à espera de talvez acabar ignorado. Dependendo de quanto a ordem é importante para você, isso pode lhe dizer que sou um pastor que trabalha bastante ou que estou nos estágios iniciais de um transtorno de acumulação.
O que o espaço que você escolhe para o aconselhamento diz sobre você? Quão intencional você é ao pensar sobre o espaço no que se refere ao aconselhamento? Talvez você, como eu, tenha a vantagem de usar um ambiente de escritório com uma área de recepção e um local relativamente privado para conversar. Pode ser que seu aconselhamento seja feito em uma sala da sua casa. Ou talvez seu aconselhamento aconteça num café. Onde aconselhamos e o arranjo espacial não é algo acidental. A pergunta é: Que propósito queremos alcançar com o espaço que configuramos? Algumas perguntas que derivam desta podem ajudá-lo a alinhar seu espaço com seu chamado bíblico para o ministério de aconselhamento.
A quem o espaço de aconselhamento atende
Em primeiro lugar, a quem meu espaço atende prioritariamente? Faz todo o sentido ter um espaço dedicado para o aconselhamento se isso for possível. Ter um “escritório” permite separar o ministério de aconselhamento de outras esferas da vida, permite a constância e a eficiência no agendamento. Se preciso constantemente procurar não só um dia e hora para me encontrar com alguém, mas também um local disponível, torna-se mais complicado marcar os encontros de aconselhamento. No entanto, o que é familiar e eficiente para mim pode ser muito estranho para outra pessoa. Encontro-me regularmente com pessoas que nunca se sentaram diante de um pastor ou de um conselheiro para conversar. Para essas pessoas, entrar em um escritório e sentar-se diante de alguém para falar sobre seus problemas é como viajar para um país que nunca visitaram ou como ir ao escritório do diretor.
Você sabe como as pessoas se relacionam com o espaço que você lhes proporciona? Você pode se sentir à vontade de aconselhar em sua casa, mas será que você está ciente de como pode ser estranho para algumas pessoas entrar em uma casa para falar sobre sua vida, mesmo que seja um lugar da casa dedicado ao aconselhamento? Se você escolher um espaço público para a conversa, talvez você tenha certeza de que ninguém o está espionando, mas será que a pessoa com quem você está se encontrando está convencida disso? Embora façamos todo o possível para diminuir essa lacuna referencial, nunca devemos esquecer que a nossa percepção do espaço não é a percepção do nosso aconselhado. Precisamos nos perguntar com frequência se o espaço que propomos está facilitando ou atrapalhando a experiência da pessoa que estamos aconselhando.
Remodelando nosso espaço para o aconselhamento bíblico
Em segundo lugar, qual a origem da minha concepção de um espaço para o aconselhamento? Inicialmente, essa pergunta causou-me certo desconforto. Estou confiante de que aquilo que procuro fazer em meu aconselhamento – tantos no conteúdo quanto na entrega – é totalmente bíblico. Ocorreu-me, porém, que o ambiente espacial que estabeleci para fazer meu aconselhamento reporta-se aos modelos clínicos e profissionais da terapia secular desenvolvidos a partir da “sala de tratamento”. Quando parei para considerar como poderia ser um modelo bíblico para um espaço de aconselhamento, dei-me conta de que ele não se pareceria nem um pouco com uma sala de tratamento ou um consultório de aconselhamento.
Em Provérbios, vemos a sabedoria ser entregue “ao longo do caminho” da vida. A maneira de aconselhar de Jesus foi condizente com o modelo de Provérbios. Ele aconselhou Seus discípulos – e não raramente seus opositores – ao longo do caminho. Ele se sentava à mesa e conversava. Ele se envolvia em atividades do dia a dia e transmitia a verdade. Ele chamava as pessoas para conversas individuais, mas nada indica que marcasse encontros. Se você quiser ver um bom exemplo do uso que Jesus fazia do espaço para o aconselhamento, observe Sua conversa com os dois discípulos no caminho de Emaús. Penso que esse modelo esteja por trás da antiga prática pastoral puritana de visitação, em que o pastor cuidava de almas visitando as pessoas em suas casas ou encontrando-as “ao longo do caminho” em seus campos.
Esta não é uma exortação para fechar seu escritório e sair por aí procurando alguém para aconselhar! É uma recomendação para que nos perguntemos sobre como criamos e usamos o espaço para o aconselhamento.
Um escritório ou um espaço dedicado ao aconselhamento é valioso no mundo atual, em que não se pode contar com o acaso para criar oportunidades de aconselhamento. Um ambiente de escritório pode ser muito útil se for o local mais conveniente, silencioso e seguro para as pessoas que você aconselha ou se for um espaço que facilite o acesso a recursos suplementares disponíveis para seu aconselhado. Não é um bom lugar se ele estabelecer inadvertidamente um ambiente de poder e autoridade no qual você é o profissional que aconselha com base na experiência, e os aconselhados fazem parte do expediente.
O Maravilhoso Conselheiro era um companheiro de viagem. Ele caminhava com as pessoas em seus espaços e as convidava para o dele. Precisamos desenvolver a convicção de que nosso espaço de aconselhamento – seja ele um escritório, seja a sala de casa, a mesa da cozinha, uma cafeteria, um banco do parque ou mesmo um espaço online – é uma expressão do que acreditamos sobre nosso papel como conselheiros.
Como conselheiros bíblicos, vamos escolher os espaços que melhor se adaptam ao chamado do evangelho!
Perguntas para Reflexão
1- Você já pediu a um aconselhado para lhe dar um feedback sobre o que o seu espaço de aconselhamento comunica?
2- Se você não tem um espaço definido e costumeiro para o aconselhamento, o que o orienta na determinação de quando e onde se encontrar com as pessoas que você aconselha?
Andy Farmer serve como pastor e presbítero na Covenant Fellowship Church em Glen Mills, PA há mais de 25 anos. Suas áreas de foco incluem plantação de igrejas, aconselhamento e cuidado de pequenos grupos. Ele é bacharel em Ciência Política pelo St. Andrews Presbyterian College e mestre em Aconselhamento Bíblico pelo Westminster Theological Seminary. É autor de Aprisionados: libertando-se de armadilhas que envolvem pessoas, padrões e problemas, publicado em português pela Editora Peregrino.
Original do artigo: A Biblical Counselor’s Treatment Room
Artigo publicado pela Biblical Counseling Coalition. Traduzido com autorização.
Tradução e adaptação para o português por Conexão Conselho Bíblico