A armadilha da comparação

Steve Hoppe


São 22h30 – hora de Erin ir para a cama e navegar pelas redes sociais uma última vez. Ela vai para o Instagram. Durante meia hora, seus dedos percorrem imagens visualmente filtradas de mulheres bonitas, famílias se passando por perfeitas, pratos de comida deliciosos e casas muito mais bem decoradas e caras do que a dela. Ela cochila sentindo-se insegura, com inveja das amigas e amargurada com aquilo que recebeu da vida.

Enquanto isso, seu marido Tim está ao lado dela, praticando um ritual noturno parecido. Sua plataforma social preferida? O LinkedIn. Ele gosta particularmente de pesquisar perfis profissionais de homens que ele tem certeza de que não alcançaram sua posição social, não ganham o que ele ganha nem foram promovidos tanto quanto ele. Isso o faz se sentir bem consigo mesmo e, especificamente, com sua carreira. Ele pega no sono com um senso artificial de autoconfiança.

Erin e Tim estão entrando em uma armadilha cruel: a armadilha da comparação. À medida que navegam em seus respectivos aplicativos de rede social, cada um deles coloca um olho em si mesmo e outro nos outros – na aparência dos outros, no estilo de vida, nos relacionamentos, nas posses e empregos. Eles estão percebendo e internalizando as diferenças e permitindo que essas diferenças moldem sua identidade e ditem suas emoções. No caso de Erin, ela se sente desanimada, ciumenta e ressentida. No caso de Tim, ele dorme enrolado em um manto de justiça própria.  Nenhum dos dois, eu diria, encontra verdadeira alegria.

Falta de alegria
“A comparação é um ladrão da alegria.”  Theodore Roosevelt, Mark Twain, CS Lewis e uma série de outros autores já receberam crédito por esta citação. Independentemente de quem escreveu essa frase pela primeira vez, ela expressa uma verdade. A comparação nos rouba a alegria. Por quê? 

Em primeiro lugar, precisamos definir o que é alegria. A alegria é um contentamento profundo e inabalável da alma, enraizado no amor de Deus e na nossa identidade em Cristo. Ela Não depende das circunstâncias. Não pode ser comprada nem vendida. Não se consegue encontrá-la no mundo e muito menos nas redes sociais. A alegria é parte do fruto do Espírito Santo, dado somente por Deus e fundamentado somente em Deus (Gl 5.22).

Por que a comparação nos rouba a alegria? Porque ela tira os nossos olhos de Deus, do Seu amor e da nossa identidade em Cristo. Ela coloca nossos olhos nas nossas circunstâncias e, frequentemente, em circunstâncias fictícias Os possíveis resultados são dois. Em deles é que nós nos sentimos inferiores às pessoas com quem nos comparamos – resultando em alguma combinação de vergonha, cobiça, ira, ansiedade, culpa, dúvida ou ódio de nós mesmos. O outro é que nos sentimos superiores às pessoas com quem nos comparamos – resultando em alguma combinação de orgulho, presunção e julgamento. Em qualquer dos casos, não encontramos verdadeira alegria.

Uma longa história de comparação e tristeza
As Escrituras estão cheias de pessoas que se compararam com os outros, resultando em tristeza. Vamos ver alguns exemplos.

  • No Jardim do Éden, Eva foi tentada por um pedaço de fruta que Satanás prometeu que lhe daria conhecimento comparável ao de Deus. Com um olho, ela viu a si mesma e suas deficiências intelectuais. Com o outro olho, ela viu uma Eva imaginária sem tais deficiências. Ela cobiçou ser a Eva imaginária e comeu o fruto, trazendo o pecado e a morte a um mundo anteriormente perfeito (Gn 3), e não encontrou alegria.
  • Caim olhou para si mesmo, para sua oferta de sacrifício e para a resposta de Deus a ela. Ele colocou seu outro olho em Abel, em sua oferta de sacrifício e na resposta de Deus a Abel. Caim ficou irado, matou seu irmão (Gn 4) e não encontrou alegria.
  • Saul colocou um olho em si mesmo e em sua reputação como guerreiro aos olhos das mulheres de Israel. Ele colocou seu outro olho em Davi e sua reputação aos olhos delas. Saul se sentiu inseguro e passou o resto de sua vida procurando matar Davi (1Sm 18), e não encontrou alegria.
  • Um fariseu olhou para si mesmo e para sua atuação religiosa. Ele colocou seu outro olho em um cobrador de impostos e em seu registro de pecados. O fariseu se sentiu orgulhoso e condenou internamente o cobrador de impostos (Lc 18.9-14), mas não encontrou alegria.

Infelizmente, não somos diferentes de Eva, de Caim, de Saul, do fariseu ou de dezenas de outros personagens bíblicos que perderam a alegria ao se compararem com outros. Todos nós fazemos comparações, e o resultado é que não encontramos a tão desejada alegria.

Alternativas que resultam em alegria
Como podemos combater a tentação de nos compararmos erradamente com os outros? A resposta está em nossos olhos. Se colocarmos um olho em nós mesmos e outro nos outros, cairemos instintivamente na armadilha da comparação. Em vez disso, devemos ser mais estratégicos no posicionamento dos olhos. Em quem devemos colocar nossos olhos se quisermos ter alegria?

  • Podemos colocar ambos os olhos em Deus. Quando oramos, lemos Sua Palavra e O adoramos – quando nossos olhos estão colados em Deus, em Seu caráter amoroso e em Seu amor por nós, encontramos a alegria (Sl 5.11; 71.23; 1Pe 1.8).
  • Podemos colocar ambos os olhos nos outros. Quando compreendemos e recebemos o amor de Deus, e o derramamos sobre outras pessoas por meio do serviço sacrificial, encontramos a alegria (At 20.35).
  • Podemos colocar um olho em nós mesmos e outro em Deus. Em outras palavras, podemos nos concentrar em nossa identidade em Cristo e viver a partir dessa identidade. Quem somos nós em Cristo? Somos filhos de Deus – justos, aceitos, preciosos, santos e amados por Ele (Gl 3.26; 1Co 5.21; Rm 15.7; Is 43.4; Ef 1.4; 1Ts 1.4). Quando compreendemos nossa posição como filhos de Deus e vivemos de acordo com isso, encontramos a alegria (Jl 2.23; Fp 3.1).

Alegria agora mesmo
Você pode experimentar alegria, agora mesmoEm 1Tessalonicenses, o apóstolo Paulo nos diz isso. Ele diz para nos alegrarmos sempre (5.16). Observe que esta é uma ordem, não uma sugestão. Paulo está nos ordenando que nos alegremos, e ele não nos ordenaria algo impossível de se fazer. Você pode estar alegre, agora mesmo. Você pode experimentar um contentamento profundo e inabalável em seu coração. Para fazer isso, porém, você deve parar de se comparar com os outros. Pare de navegar nos perfis de mídia social para se comparar com outras pessoas e ajuste seus olhos.

Perguntas para reflexão

  1. Com quem você se compara com mais frequência? Essa comparação resulta em insegurança, inveja, iraa, ansiedade, culpa, dúvida ou ódio de si mesmo? Ou resulta em orgulho, julgamentos? Você vai parar de comparar? Você vai ajustar seus olhos?
  2. Como a sua identidade em Cristo – a sua identidade como filho de Deus – impacta sua vida diária, momento a momento? Isso lhe dá alegria? Se não, por quê?
  3. Você acha que a comparação cria raízes em seu coração quando você está nas redes sociais? Se sim, será que Deus o está chamando a mudar seus hábitos de navegação nas mídias sociais?

Steve Hoppe é o fundador e diretor executivo da Crosstown Counseling em Nashville, onde atua como conselheiro bíblico. Ele é formado em  engenharia industrial, mestre em divindade pelo Gordon-Conwell Theological Seminary, mestre em aconselhamento bíblico pelo Westminster Theological Seminary e certificado pela Christian Counseling and Educational Fundação (CCEF). É autor de vários livros.


Original do artigo: The Trap of Comparison
Artigo publicado pela Biblical Counseling Coalition.  Traduzido com autorização.