Esperança e ajuda para as feridas do passado

Lucy Ann Moll


“Pessoas feridas ferem outras pessoas.” Popularizada na década de 1980, essa frase foi repetida e publicada nas redes sociais milhares de vezes. Talvez você a tenha usado com um aconselhado para ajudá-lo a compreender seu sofrimento. O significado básico dessa frase é que pessoas que carregam mágoas do passado podem, muitas vezes, magoar outras pessoas. Um hindu poderia chamar isso de carma.

O apóstolo Paulo usou uma outra metáfora, a metáfora da semeadura, dizendo aos seus leitores que “aquilo que a pessoa semear, isso também colherá (Gl 6.7). Dito de outra forma, plante sementes de maçã e você terá macieiras. Como isso pode se apresentar na vida de seus aconselhados?

  • Um pai que rotineiramente desencoraja seu filho pode criar um homem irado (Ef 6.4).
  • Uma esposa com um marido indiferente pode tornar-se amargurada e supercrítica em relação a ele e à vida em geral (Hb 12.15).
  • Uma jovem que foi abusada sexualmente pode sentir profunda vergonha e ter dificuldade em manter relacionamentos amorosos (2Sm 13).

Neste breve artigo, veremos como expressamos a mágoa, onde ela se origina e o que a Bíblia diz sobre enfrentar o passado para que possamos seguir em frente com liberdade. Dois excelentes recursos para ampliar o conhecimento sobre o assunto e aprender como ajudar pessoas magoadas são Ira: arrancado o mal pela raiz, de Robert D. Jones, e Colocando o seu Passado no Devido Lugar, de Stephen Viars.

Dor exteriorizada, dor interiorizada

  • A dor pode se manifestar no exterior. Gritamos, gritamos, batemos os pés e tornamos a vida das pessoas ao nosso redor insuportável – a típica criança de dois anos de idade que tem um acesso de ira, mas desta vez em um corpo adulto.
  • A dor pode se voltar para o interior. Tornamo-nos algozes autocríticos, lançando insultos a nós mesmos: “Você é tão estúpido”. Ou estabelecemos constantemente padrões perfeccionistas excessivamente altos, garantimos desta forma o fracasso, e depois ficamos novamente irados quando não conseguimos alcançá-los. Às vezes, acontece a automutilação. Outras vezes, a ansiedade e até o medo paralisante. Em outros momentos, nós nos desesperamos.

Traga à sua memória uma lembrança difícil da primeira infância, ou peça ao seu aconselhado que ele conte uma lembrança que guarda. Quais emoções isso evoca? Como você/ele lidou com a mágoa? Como essa dor do passado afeta ou afetou tanto a sua vida quanto a vida de outras pessoas?

Onde a dor se origina
Os sentimentos feridos fluem dos erros que sofremos e das escolhas erradas que fazemos. Se alguém roubar seu carro, você ficará transtornado. Quando surge um problema com sua conta bancária, você pode ficar irritado com o gerente. Se seus pais se divorciaram quando você era ainda criança, talvez você se culpe: “Se eu tivesse me comportado melhor como filha, talvez eles ainda estariam juntos”.

Steve Viars usa um gráfico para ajudar seus leitores a compreender e organizar as mágoas do passado.[1] O gráfico apresenta quatro categorias:

  1. Você sofreu um dano (ou seja, é inocente)e reagiu bem. Exemplo: José em Gênesis 37-50. Ele foi vendido como escravo, foi acusado de um crime que não cometeu e foi preso, mas não se vingou e confiou em Deus.
  2. Você sofreu um dano (ou seja, é inocente)e reagiu mal. Exemplo: Noemi no livro de Rute, no Antigo Testamento. Seu marido e seus filhos morreram e ela se sentiu amargurada contra Deus.
  3. Você cometeu um erro (ou seja, é culpado) e reagiu bem. Exemplo: Pedro negou conhecer Jesus três vezes (Lc 22.34), ficou quebrantado por causa do seu pecado, aceitou o perdão de Cristo e seguiu em frente (Jo 21.15-19).
  4. Você cometeu um erro (ou seja, é culpado) e reagiu mal. Exemplo: Davi cometeu adultério com Bate-Seba e matou Urias (2Sm 11).

Pergunte a si mesmo ou ao seu aconselhado se existe alguma mágoa não resolvida. Em qual categoria ela se enquadra?

O que a Bíblia diz sobre os danos ou ofensas que sofremos
A Bíblia fala sobre a dor que podemos sentir. Ela nos diz que à medida que nosso Consolador nos conforta em nossas aflições, podemos aprender a responder bem (2Co 1.3, 4; Fp 4.9), quer tenhamos sofrido um dano sem ser culpados por aquilo que aconteceu, quer tenhamos feito uma escolha errada.

Nosso passado não é “tudo” e também não é “nada”, diz Viars.[2] Se você acredita que o passado não tem importância nenhuma, você pode seguir o mau conselho de “não se preocupe, seja feliz”. Você pode reprimir seus sentimentos e manter um sorriso no rosto, mas o tempo todo você está fervendo por dentro e a ansiedade está borbulhando. Você pode se acalmar com sorvete ou cerveja. Você também pode desenvolver uma úlcera. Por outro lado, se você acredita que o passado é muito importante, você pode se ver como uma vítima sem esperança, culpar todos ao seu redor, tornar-se amargo e deixar que isso prejudique seus colegas de trabalho e sua família. Quando sua ira persiste, a depressão pode bater à porta.

Deus aponta o melhor caminho para você seguir: volte-se para Ele. Isso não significa esquecer o passado no sentido de que você não se lembrará mais daquilo que aconteceu. Também não significa vingar-se (Rm 12.19-21). Em vez disso, você deve enfrentar honestamente a sua dor, lembrar-se com alegria da fidelidade de Deus, mesmo quando sofre danos, confrontar de bom grado e tratar biblicamente seus erros quando isso é apropriado. Agir dessa maneira permitirá que você prossiga a vida livre das mágoas do passado.

Você pode se livrar das mágoas do passado e abraçar sua nova vida: “E, assim, se alguém está em Cristo, é nova criatura; as coisas antigas já passaram; eis que se fizeram novas” (2Co 5.17).

Perguntas para o conselheiro

  1. Peça ao seu aconselhado para identificar as mágoas do passado e colocá-las nas categorias de 1 a 4, conforme descritas acima.
  2. Seu aconselhado costuma pensar que o passado não tem a menor importância ou que o passado é de importância determinante em sua vida? Como isso se reflete no comportamento que ele tem?
  3. Em casos de abuso, como você poderia ajudar seu aconselhado?

[1] Stephen Viars, Colocando seu passado no devido lugar. São Paulo: Nutra, 2012. p. 75ss

[2] Ibid. p. 18


Lucy Ann Moll é conselheira certificada pela ACBC e faz parte da equipe do Biblical Counseling Center. Ela aconselha mulheres desde 2008, especializando-se na área de ansiedade, ataques de pânico, TOC, ansiedade social e fobias. Completou um doutorado em aconselhamento bíblico e escreve em LucyAnnMoll.com.


LIVROS MENCIONADOS NO TEXTO

VIARS, Stephen. Colocando seu passado no devido lugar. São Paulo: Nutra, 2012. 296 p.

Links para o livro: Livro impresso

O passado é para muitos o grande vilão de suas vidas. Não raro, buscam nele as razões para as mazelas do presente. Para esses, no passado estão os grandes responsáveis por suas ações e reações no presente, por suas respostas, pensamentos e padrão de comportamento atuais, e completam afirmando que nada pode mudar isso

JONES, Robert. Ira: Arrancando o mal pela raiz. São Paulo: Nutra, 2010. 224 p.

Links: Livro impresso

A ira é para alguns o que a pornografia é para outros – um gigante monstruoso, poderoso, cruel e que parece nunca poderá ser vencido. Robert Jones explora ira com profundidade nas Escrituras, a define e oferece caminhos bíblicos, piedosos e práticos para lidar com ela. Ele argumenta que a ira precisa ser arrancada pela raiz se alguém quiser derrotá-la. Em seu argumento, enfatiza que lidar biblicamente com a ira é uma decisão, uma escolha do coração.


Original do artigo: Hope for Hurts in Your Past
Artigo publicado pela Biblical Counseling Coalition.  Traduzido com autorização.