Esperança e ajuda para lidar com pensamentos ruminativos

Lucy Ann Moll


Rosa estava presa em pensamentos ruminativos.[1] Perfeccionista por natureza, ela se orgulhava de estar sempre preparada, antecipando problemas e resolvendo-os antes que pudessem surgir. Ultimamente, porém, ela se sentia aprisionada por seus pensamentos.[2]  Uma simples conversa no trabalho desencadeou o episódio mais recente. Rosa compartilhou suas ideias em uma reunião, mas assim que saiu, ela começou a se preocupar: “Será que falei demais? Ou será que não falei o suficiente? E se eles acharem que eu não sei do que estou falando?” Ela repetiu a cena várias vezes, analisando seu tom, suas reações e até mesmo o que ela deveria ter dito em vez do que disse.

 Dias depois, Rosa ainda estava presa naquele ciclo de pensamentos ruminativos. A cada tentativa de parar, sua mente a puxava de volta. “Se eu pudesse descobrir exatamente o que fiz de errado, eu me sentiria melhor”, ela pensava. No entanto, cada análise levantava novas dúvidas, e ela se sentia presa e sem esperança.

O que é um pensamento ruminativos?
O pensamento ruminativo é um pensamento repetitivo, muitas vezes obsessivo, a respeito de um problema, preocupação ou medo específico. Ele é autocentrado, e pode alimentar ansiedade, depressão e pensamentos e comportamentos obsessivo-compulsivos, muitas vezes identificados como TOC. Neste artigo, você aprenderá a diferença entre os pensamentos normais do dia a dia e os pensamentos ruminativos, obsessivos. Vamos considerar passagens importantes das Escrituras e uma estratégia prática traçada pelo conselheiro Edward Welch.

A diferença entre um pensamento do dia a dia e um pensamento ruminativo
Estudos recentes sugerem que, em média, uma pessoa tem aproximadamente 6 mil pensamentos por dia, o que equivale a 250 pensamentos por hora ou aproximadamente 4 pensamentos por minuto, incluindo impressões fugazes e pensamentos mais focados e intencionais.[3]

— Ter um pensamento aleatório? Não é ruminar um pensamento.
— Procurar insistentemente descobrir o que esse pensamento significa ou como fazê-lo desaparecer? É ruminar um pensamento.

— Perceber que existe algo a ser feito ou um problema a ser resolvido? Não é ruminar um pensamento.
— Pensar obsessivamente que deve fazer algo ou resolver o problema? É ruminar um pensamento.

— Perceber a existência de algo? Não é ruminar um pensamento.
— Monitorar ou manter o foco constante nisso? É ruminar um pensamento.[4]

Para Rosa, lidar com aqueles pensamentos era como um cabo de guerra exaustivo. Ela queria desesperadamente soltá-los, mas sentia que isso significava deixar algo sem solução, e ela acreditava que isso seria intolerável. Conforme os dias se transformavam em semanas, Rosa começou a monitorar seus pensamentos constantemente. Ela até se preparou mentalmente contra esses pensamentos ruminativos, pensando: “E se isso nunca passar?” Suas tentativas de afastar tais pensamentos não faziam nada além de torna-los mais fortes. Era como se sua mente se agarrasse ainda mais a eles a cada tentativa de afastá-los.

Michael J. Greenberg explica: “Aqueles que ruminam um pensamento de forma compulsiva sentem como se não pudessem parar, mas, na verdade, eles estão em meio a um conflito. Há, de fato, uma parte deles que quer parar, mas há outra parte que está procurando resolver o problema, e esses são objetivos que se excluem mutuamente”.[5]

A Bíblia e os pensamentos ruminativos
A Bíblia não usa explicitamente o termo “pensamento ruminativo”, mas oferece sabedoria sobre como lidar com os pensamentos ansiosos ou obsessivos. Aqui estão alguns passos e as principais passagens bíblicas relacionadas:

1- Leve cativos os seus pensamentos
“Destruímos raciocínios falaciosos e toda arrogância que se levanta contra o conhecimento de Deus, e levamos cativo todo pensamento à obediência de Cristo.” (2Co 10.4b, 5).

2. Confie em Deus
“Tu, SENHOR, conservarás em perfeita paz aquele cujo propósito é firme, porque ele confia em ti.” (Is 26.3).

3. Não mergulhe na ansiedade
“Não fiquem ansiosos com coisa alguma, mas, em tudo, sejam conhecidos diante de Deus os pedidos de vocês, pela oração e pela súplica, com ações de graças. E a paz de Deus, que excede todo entendimento, guardará o coração e a mente de vocês em Cristo Jesus” (Fp 4.6, 7).

4. Concentre-se no que é verdadeiro e correto
“Finalmente, irmãos, tudo o que é verdadeiro, tudo o que é respeitável, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se alguma virtude há e se algum louvor existe, seja isso o que ocupe o pensamento de vocês” (Fp 4.8).

5. Entregue suas preocupações a Deus
“Lancem sobre ele todas as suas ansiedades, porque ele cuida de vocês.” (1Pe 5.7).

Esses versículos bíblicos lembram aos crentes que Deus se importa profundamente com seus pensamentos e seu bem-estar, proporcionando-lhes conforto, verdade e esperança.

Quando os pensamentos aprisionam
Edward Welch, conselheiro e membro do corpo docente da Christian Counseling & Educational Foundation (CCEF), fala sobre o desafio dos pensamentos ruminativos em seu artigo When Your Mind Gets Stuck.[6]  Ele reconhece que muitas pessoas sentem que suas mentes ficam presas em lugares improdutivos, incluindo pensamentos obsessivos. Para neutralizar os pensamentos ruminativos, Dr. Welch sugere uma estratégia prática que ele propôs a uma aconselhada: “Quando ela acorda de manhã e eles [pensamentos ruminativos] começam a agarrá-la, ela diz em voz alta: ‘Jesus, você me abençoou’. Às vezes, ela lista essas bênçãos espirituais recebidas; outras vezes, essas palavras estão suficientemente acompanhadas de conteúdo bíblico em sua mente de modo que lhe basta pronunciá-las. Em seguida, ela sai da cama”.

Essa estratégia ajuda a redirecionar os pensamentos da necessidade obsessiva de uma resolução de problemas para as bênçãos recebidas pela fé em Jesus.

O ponto de virada para Rosa
Certa noite, depois de horas de análises infrutíferas de seus pensamentos, Rosa percebeu que estava pensando repetidamente em todas as possibilidades em vez de meditar nas Escrituras. Ela se deu conta de que não precisava ter todas as respostas. Ruminar os pensamentos não estava resolvendo o problema; pelo contrário, esse era o problema. Ela decidiu obedecer às Escrituras. Em vez de lutar contra os seus pensamentos, ela lançou sua ansiedade sobre Deus (1Pe 5.7).  Não foi fácil. Sua mente ainda pedia para ela se deter em analisar cada pensamento. No entanto, cada vez que isso acontecia, Rosa escolhia decididamente não agir. Lentamente, os pensamentos começaram a perder o controle sobre sua mente. Sempre que sua mente começava a se encher de pensamentos temerosos, Rosa se lembrava do versículo de Isaías e respirava fundo. Em vez de lutar contra seus pensamentos, ela orava: “Deus, eu confio no Senhor. Ajuda-me a deixar estes pensamentos irem embora”.[7]


Perguntas para reflexão
1– De que maneira, nos casos de pensamentos ruminativos obsessivos que você aconselha, você pode incluir tanto o ensino sobre como pensar biblicamente quanto atividades práticas?
2– Ao trabalhar com portadores de TOC, você já usou uma estratégia parecida à de Edward Welch? Como foi a experiência e o crescimento espiritual do seu aconselhado?


[1] NdT. Em português, tem sido usada a expressão “pensamentos ruminativos” para indicar uma “ruminação mental” consciente. Embora parecidos, os pensamentos intrusivos são diferentes dos ruminativos. Eles são involuntários e podem ser perturbadores, enquanto a ruminação envolve um foco consciente em pensamentos específicos.
[2] Rosa não é uma pessoa real. Sua história é um conglomerado de meus aconselhados que se enquadram nos critérios para transtorno obsessivo-compulsivo.
[3] TSENG, J.; POPPENK, J. Brain meta-state transitions demarcate thoughts across task contexts exposing the mental noise of trait neuroticism. Nature Communications, vol. 11, n. 1, p. 1-12, 2020. Disponível em:  https://doi.org/10.1038/s41467-020-17255-9. Acesso em: 19 jan. 2025.
[4] Esta comparação é oferecida pelo Michael J. Greenberg em seu website. Disponível em: https://drmichaeljgreenberg.com/defining-rumination/. Acesso em 19 jan, 2025. Tradução nossa.
[5] Ibid.
NdT: O termo bíblico no original grego, traduzido para o português como “ansiedade”, significa justamente “uma mente dividida”.
[6] WELCH, Edward. When your mind gets stuck. CCEF. Disponível em: https://www.ccef.org/when-your-mind-gets-stuck. Acesso em 19 jan. 2025. Tradução nossa.
[7] Em minha experiência com alguns portadores de TOC, a oração pode se tornar compulsiva. Portanto, tenha prontas outras opções, incluindo, por exemplo, aquelas que envolvem movimento físico como exercícios, jardinagem, tarefas domésticas.


Lucy Ann Moll tem doutorado em ministérios da área de aconselhamento bíblico pelo Birmingham Theological Seminary e é uma conselheira certificada pela ACBC. Ela atua na equipe do Biblical Counseling Center, onde aconselha mulheres ao redor do mundo, por meio de vídeo chamadas, lidando especialmente com ansiedade, ataques de pânico, TOC, ansiedade social e fobias. Escreve em LucyAnnMoll.com.


Original do artigo: Knowledge of God and Knowledge of Self
Artigo publicado pela Biblical Counseling Coalition.  Traduzido com autorização.