Cody Newcome

Aconselhar pessoas que foram diagnosticadas com Transtorno obsessivo-compulsivo (TOC) pode ser desafiador, e os conselheiros podem achar difícil saber como ajudá-las.[1] Frequentemente, os aconselhados que lutam com TOC sentem-se tão sobrecarregados com a intensidade e frequência de seus pensamentos obsessivos e dos subsequentes comportamentos compulsivos que acham difícil desacelerar e absorver a verdade da Palavra de Deus.[2] Os aconselhados precisam de repetição ao aprender novas formas de responder aos seus pensamentos e resistir ao impulso de atender às compulsões. O progresso começará a acontecer com o tempo, à medida que eles desenvolverem novos hábitos piedosos em resposta aos pensamentos intrusivos e forem transformados espiritualmente em sua percepção de Deus, de si mesmos e da sua situação. Minha esperança é que compartilhar algumas das tarefas práticas que uso em casos de aconselhamento de TOC seja de ajuda para você auxiliar pessoas que sofrem dessa mesma forma.
Uma palavra de cautela para aconselhados com escrupulosidade
Seja sábio e cuidadoso com o tipo de tarefa prática que você atribuir a aconselhados que lutam com escrupulosidade, para não alimentar inadvertidamente as compulsões com tarefas que envolvam leitura bíblica, oração e confissão de forma excessiva. Esses meios de graça são frequentemente distorcidos por uma pessoa com escrupulosidade e, ao invés de receber graça por meio deles, ela os realiza de maneira ritualística e repetitiva, como comportamentos compulsivos, em uma tentativa de se sentir segura. Durante algum tempo, será necessário reeducar sobre como ler a Bíblia e entendê-la como um todo, orar a Deus de maneira honesta e relacional, e confessar seus pecados de maneira bíblica, para gerar esperança e restauração ao invés de vergonha e culpa. O objetivo final não é que o aconselhado não pratique essas disciplinas da graça, mas que aprenda a fazê-lo de forma significativa e transformadora.
Comece pela base
Geralmente, a primeira tarefa prática que dou está baseada no Salmo 103, para que o aconselhado se concentre no caráter de Deus e em como Deus se relaciona conosco com misericórdia, amor e compaixão. Destaco como Deus não nos trata segundo os nossos pecados ou iniquidades (v. 10), o que muitas vezes contrasta com a visão que o aconselhado tem de Deus e de como Ele se relaciona conosco. Investimos tempo particularmente nos versículos 13 e 14, trabalhando sobre a compaixão de Deus por Seus filhos e a maravilhosa promessa de que Ele conhece e entende quem somos e com o que lutamos. Isso ajuda o aconselhado a ter a certeza de que Deus é compassivo em relação à sua luta e conhece a fragilidade de sua mente.
Lide com o medo
O TOC é impulsionado pelo medo, que está em sua raiz. Para lidar com o medo e a angústia que habitam na mente e no coração do aconselhado, vamos juntos ao Salmo 46, e peço que comece por identificar o que podemos aprender com o salmista sobre o caráter de Deus, e por que Ele é digno de confiança. Peço que considere as promessas de Deus, contidas neste salmo, e a esperança que elas dão. Em seguida, com base na Palavra de Deus, pergunto por que o aconselhado pode confiar em Deus em vez de confiar em si mesmo ou se deixar dominar pelo medo. Em cada uma dessas tarefas, pergunto ao aconselhado como as verdades contidas no salmo são diferentes das mentiras nas quais ele é tentado a acreditar, e como ele pode pensar, crer e agir de forma diferente com base no que está aprendendo. O Salmo 46 também é excelente para que o aconselhado memorize e traga à mente quando o medo surgir, para que se lembre rapidamente de que Deus é seu refúgio e fortaleza (v. 1), não importa o que o futuro traga.
Lide com a autossuficiência
Muitos aconselhados acreditam na mentira de que só estarão seguros se conseguirem manter a si mesmos seguros. À medida que o TOC persiste, o aconselhado se torna cada vez mais dependente de suas próprias avaliações e interpretações dos pensamentos, criando todo tipo de rituais – os comportamentos compulsivos – para aliviar o medo e a ansiedade. Ele se torna excessivamente focado em si mesmo, em seu próprio sistema para lidar com os pensamentos intrusivos e nas crenças distorcidas que têm sobre Deus e sobre si mesmo. Para mostrar o que as Escrituras oferecem como cura para a autossuficiência, uso Mateus 11.28-30 e 2Coríntios 12.7-10. Essas passagens o ajudam a começar a permitir que Deus carregue seus fardos e a saber que Sua graça é suficiente para cada necessidade. Jeremias 17.5-8 também pode ser usado para mostrar o contraste entre a pessoa que confia na própria carne e aquela que confia no Senhor.
Lide com o perfeccionismo
O perfeccionismo é uma raiz bastante comum no TOC, e Filipenses 3 é um excelente texto para atribuir como tarefa. Uso esse capítulo para direcionar a atenção do aconselhado à forma de o apóstolo Paulo, enquanto judeu, buscar a justiça própria motivado pela obediência à Lei. É importante entender como Paulo contrasta sua vida antes e depois de conhecer a Cristo, e como aquilo que ele valoriza, ao se tornar seguidor de Cristo, não é a perfeição, mas conhecer mais a Cristo e ser conformado à Sua imagem. Ajudar o aconselhado a resistir ao pecado do perfeccionismo e, em vez disso, confiar na graça de Deus e na justiça imputada (Is 61.10; Fp 3.9; 2Co 5.21) desafiará muitos dos pensamentos e crenças temerosas e falsas que ocupam obsessivamente sua mente.
Lide com o desejo de ter segurança e controle
Outro ídolo persistente no coração do aconselhado é o desejo de ter segurança e controle. Ele pode sentir um medo intenso ao não saber se está seguro ou se seus pensamentos são verdadeiros. O objetivo do aconselhamento é ajudá-lo a entender que ele não encontrará essa segurança olhando para dentro de si mesmo, mas confiando no amor soberano e no cuidado de Deus. Da mesma forma, o desejo de controlar pensamentos, sentimentos, circunstâncias e resultados aumenta, inevitavelmente, a ansiedade e alimenta o ciclo obsessivo-compulsivo. O tratamento para o controle é o mesmo que aplicamos para o desejo de segurança: ajudar o aconselhado a aprender que ele está seguro debaixo do cuidado providencial de Deus. Pode-se usar Isaías 40 como tarefa para ajudá-lo a entender melhor o caráter confiável de Deus e como Ele soberanamente supervisiona sua vida. Ensine o aconselhado a se render diante da grandeza e do poder de Deus (v. 26) e a se submeter aos planos de Deus para sua vida.
Ajude a crescer na confiança em Deus
Conforme já foi enfatizado, a parte mais importante do processo de aconselhamento para o TOC é ajudar o aconselhado a confiar menos em si mesmo e mais em Deus. Ele criou o hábito de confiar na própria interpretação de seus pensamentos e sentimentos, e precisa aprender diariamente, momento a momento, a substituir este hábito pela confiança em Deus (Pv 3.5; Is 12.2). Costumo encorajar minhas aconselhadas a fazerem para si mesmas esta pergunta quando estiverem presas no ciclo do TOC: “Como eu preciso confiar em Deus neste momento?”
Encoraje seu aconselhado e o exorte a considerar se precisa crescer na confiança que ele tem no cuidado soberano de Deus (Sl 121.2), em Seus planos sábios e amorosos (Sl 33.11), e em Sua proteção diante dos pensamentos temerosos (Sl 46.1-2). Ele precisa aplicar o evangelho aos pensamentos angustiantes naqueles momentos de luta e se lembrar da obra que Jesus consumou na cruz por ele (Rm 8.32). No meio do ciclo obsessivo-compulsivo, como ele pode permanecer em Cristo (Jo 15) e permitir que Ele carregue seus fardos em vez de querer fazer isso sozinho (Mt 11.28-30)? Seu aconselhado começará a experimentar liberdade do ciclo obsessivo-compulsivo à medida que buscar aplicar as verdades das Escrituras aos pensamentos obsessivos e coloca sua esperança e confiança no Senhor, em vez de colocá-las em seus comportamentos compulsivos,
[1] Veja o artigo anterior, Vivenciando a fidelidade de Deus no transtorno obsessivo-compulsivo, para entender o TOC a partir de uma perspectiva bíblica: Resumidamente, a visão bíblica do TOC entende que o coração humano, cheio de desejos e motivações pecaminosas, alimenta o ciclo obsessivo-compulsivo. O TOC, portanto, é um ciclo de comportamento habitual e enraizado, que envolve tanto o pensar quanto o agir.
[2] Scrupulosidade e TOC são usados de forma intercambiável neste artigo. Para mais informações, veja o livreto Scrupulosity, de Brent Osterberg, sobre este tema..
Cody Newcome é conselheira certificada pela ACBC e atua no ministério de aconselhamento bíblico em sua igreja local em Littleton, Colorado.
Original: Homework for Counselees Struggling with OCD
Artigo publicado originalmente em Association of Certified Biblical Counselors
Tradução e adaptação de Conexão Conselho Bíblico com permissão.