Narcisismo. A Bíblia fala sobre isso?


Josiah Falukos

O narcisismo tornou-se uma palavra comum em nossa cultura. No entanto, é um termo carregado de significado e, por vezes, mal compreendido. Embora seja comum ouvir alguém dizer “Ele é narcisista” ou “Ela é narcisista”, a história e as implicações desse termo muitas vezes se perdem. A terminologia remonta à Grécia Antiga, originando-se com o mito de Narciso. Hoje, a linguagem do narcisismo foi amplamente absorvida por conceitos psicológicos e terapêuticos. O caso mais notável é como o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM) descreve e define o narcisismo. Enquanto alguns psicólogos afirmam que o narcisismo é um traço de personalidade presente em todos, em diferentes graus de gravidade,[1] este artigo se concentrará mais especificamente no que o DSM denomina “transtorno de personalidade narcisista” ou TPN. Esse diagnóstico psiquiátrico é reservado para aqueles que exibem graus acentuados de tendências narcisistas, de acordo com a descrição e os critérios do DSM.

Descrição terapêutica do Transtorno de Personalidade Narcisista (TPN)
Para ter uma boa ideia de como o TPN é compreendido, considere a seguinte definição e os critérios do DSM, também chamado de “bíblia da psiquiatria”, usado para categorizar e definir doenças mentais. O TPN é definido como: “Um padrão difuso de grandiosidade (em fantasia ou comportamento), necessidade de admiração e falta de empatia que surge no início da vida adulta e está presente em vários contextos, conforme indicado por cinco (ou mais) dos seguintes critérios”.[2] Em seguida dessa definição, o DSM lista nove critérios que se concentram em uma consideração e autoestima excessivas ou uma falta de consideração e desinteresse pelos outros.[3]

Sendo assim, o que sabemos até agora? Alguns psicólogos consideram o narcisismo um traço de personalidade normal que todos exibem em maior ou menor grau, mas um grau elevado desse traço é o ingrediente básico para TPN. Tendo esse conhecimento, vamos considerar como pensar sobre o TPN a partir de uma perspectiva bíblica.

A resposta teológica: o cerne da questão
A Bíblia fala sobre o narcisismo? Não nesses termos, mas ao considerar os nove critérios do TPN, no centro dessa descrição está uma palavra: orgulho. Embora o TPN identifique um problema, ele não o compreende segundo a sabedoria de Deus revelada nas Escrituras (Sl 19.7). Identificamos aqui duas maneiras principais pelas quais o TPN se afasta de uma cosmovisão bíblica em sua descrição do conceito de narcisismo.

Primeiramente, uma visão psicológica do TPN não utiliza a linguagem bíblica do orgulho. Além de ser uma síntese útil e precisa desse conceito em uma única palavra, orgulho também exige responsabilidade moral e prestação de contas do indivíduo. Se alguém tem um problema de orgulho, essa pessoa tem um problema de pecado. A tentativa de descrever o narcisismo separadamente do conceito de pecado é, em última análise, contrária à Bíblia e inútil, porque dá a impressão de que a pessoa sofre de um transtorno que a impede de obedecer aos mandamentos de Deus. Isso deixa o indivíduo com a ilusão de que não precisa prestar contas a Deus. No entanto, as Escrituras advertem repetidamente que cada pessoa comparecerá perante o Senhor no dia do julgamento e receberá uma justa avaliação por como viveu seus dias (2Co 5.10; Ap 20.12). Como conselheiros bíblicos, devemos lembrar que a pessoa sentada diante de nós tem uma alma eterna e é moralmente culpável perante um Deus santo.

A segunda grande diferença entre o TPN e a descrição bíblica do problema reside na definição da essência da questão. Isso é crucial, pois sua maneira de ver o problema determinará a direção que você tomará na busca por uma solução. Se o TPN for, em sua raiz, um “transtorno de personalidade”, de acordo com o que afirma o DSM, a solução terá como propósito tornar a pessoa mais socialmente adaptável e aceitável aos olhos dos outros. Se o “narcisismo” for, em sua raiz, uma questão de orgulho, conforme descreve a Palavra de Deus, a questão fundamental é o pecado – tanto o pecado original, por estarmos em Adão (Gn 3.6, 7; Rm 5.12), quanto o pecado pessoal do indivíduo (cf. Tg 4.6). Essa distinção é crucial, pois, ao identificar corretamente a raiz do problema, é possível oferecer a ajuda correta.

A resposta teológica: um pouco de Nabucodonosor
Reconhecer o “narcisismo” como uma manifestação do pecado de orgulho permite ao conselheiro compreender a natureza do problema a partir de uma perspectiva bíblica. O homem orgulhoso construiu, na imaginação do seu coração, um reino inviolável, com ele próprio sentado no trono. Como o rei Nabucodonosor (Dn 4.28-30), ele se deleita em tudo o que tem e em tudo o que é. Contudo, ele não compreende que nada na vida lhe foi concedido sem a mão de Deus, e arrogantemente atribui a si mesmo toda grandeza ou sucesso. Quando Nabucodonosor se encheu de orgulho, Deus o humilhou, tirando-lhe o reino, expulsando-o da sociedade e fazendo-o viver com os animais (Dn 4.31, 32). Que as palavras do rei Nabucodonosor, após ser humilhado perante Deus, ressoem como um alerta sóbrio para o homem orgulhoso: “Agora eu, Nabucodonosor, louvo, engrandeço e glorifico o Rei do céu, porque todas as suas obras são verdadeiras, e os seus caminhos são justos. Ele tem poder para humilhar os orgulhosos” (Dn 4.37 – grifo do autor).

Plano para o aconselhamento
Embora cada caso de aconselhamento seja diferente, existe uma trajetória geral a seguir ao lidar com uma pessoa profundamente orgulhosa. O primeiro passo no aconselhamento é o mesmo que damos em qualquer outro caso: coletar informações. Durante essa etapa, seja específico e tome cuidado para não fazer perguntas vagas como “O que você faz quando as coisas não saem como você quer?”. Uma pessoa profundamente orgulhosa, geralmente, não está disposta a admitir ou revelar quaisquer problemas, portanto, peça exemplos e detalhes específicos das situações da vida real.

O segundo passo é ir diretamente ao evangelho. Os conselheiros bíblicos devem lembrar que é impossível mudar um coração orgulhoso, e nenhuma habilidade ou técnica conseguirá fazê-lo. Somente o Espírito Santo pode tomar um coração orgulhoso e substituí-lo por um coração capaz e disposto a andar em amor para com Deus e o próximo (Ez 36.26, 27; Fp 2.3-5; Gl 5.16; 1Jo 4.7). Portanto, aponte o aconselhado para a verdadeira solução do Evangelho, mesmo que ele se recuse a ouvir.

O terceiro passo neste plano de aconselhamento é estabelecer claramente o objetivo do aconselhamento e dar esperança. O homem orgulhoso precisa ouvir que o objetivo do aconselhamento não tem nada a ver com ele se sentir melhor ou parecer melhor diante dos outros, mas sim com viver de uma maneira que glorifique o Pai (1Co 10:31; 2Co .9). Além disso, ele precisa da esperança que Deus providenciou por meio das Escrituras, que contêm tudo o que ele precisa para viver uma vida justa à semelhança de Cristo (2Pe 1.3). Uma possível identificação como narcisista que ele tenha recebido não deve servir como licença para desobedecer a Cristo. Em vez disso, devemos ver o orgulho como uma questão de pecado que destaca a necessidade da expiação de Cristo. Em Sua vida, Cristo nos deu o exemplo de humildade (Fp 2.4-9) e, em Sua morte e ressurreição, venceu o pecado, tornando possível que sigamos Seus passos no poder do Espírito (1Jo 4.10, 19).

Indícios da mudança bíblica
À medida que o aconselhamento progride, há pelo menos quatro sinais de que uma mudança bíblica está ocorrendo.
Primeiro – o aconselhado consegue se engajar com o objetivo do aconselhamento bíblico — a mudança bíblica para a glória de Deus. Se o aconselhado se compromete com o objetivo de glorificar o Pai, isso pode ser um indício significativo de que uma mudança de coração está acontecendo.
Segundo – o aconselhado consegue articular o que significa humildade semelhante à de Cristo, de acordo com Filipenses 2.4-11. Embora a compreensão intelectual não seja sinônimo de um coração transformado, é, sem dúvida, um progresso promissor se o aconselhado demonstrar uma verdadeira compreensão da humildade de Cristo.
Terceiro – o aconselhado se arrependeu de seus pecados. O arrependimento deve envolver o abandono do pecado e a busca pelo Senhor. A solução de Deus para o pecado — o Evangelho de Jesus Cristo — sempre exige que o homem pecador abandone sua busca pelo pecado e se volte para Cristo.
Quarto – o aconselhado se comprometeu a obedecer à lei de Cristo. O apóstolo João resume essa lei como crer em Cristo e amar os santos (1Jo 3.23). O homem orgulhoso se humilha ao reconhecer que há um Rei sentado no trono, mas que esse Rei é Cristo, não ele mesmo. Isso se demonstra na prática quando ele se compromete a obedecer à lei de Cristo em vez de servir à sua própria lei.

Conclusão
O diagnóstico de transtorno de personalidade narcisista reconhece corretamente que a personalidade de uma pessoa orgulhosa está transtornada, desordenada. Contudo, ele falha em reconhecer adequadamente que a raiz desse problema é o orgulho. Além disso, mesmo casos de intervenção terapêutica considerados bem-sucedidos acabam por não ajudar o narcisista à luz da eternidade, pois somente o Espírito Santo pode transformar um coração orgulhoso. Por isso, o sucesso no aconselhamento bíblico não deve ser medido pelo ensino de como o narcisista deve ser mais gentil ou agir de maneira socialmente aceitável. O objetivo do aconselhamento é alertar o orgulhoso sobre o fim de sua jornada, apresentar Cristo como sua única esperança na vida e na morte, e suplicar que ele se humilhe sob a poderosa mão de Deus (1Pe 5.6).


[1] CAMPBELL, W. Keith;  CRIST, Carolyn. The New science on narcissism. PsychologyToday. 4 dez. 2020. Disponível em: https://www.psychologytoday.com/us/blog/the-author-speaks/202012/the-new-science-narcissism. Acesso em 17 jan. 2026. Tradução nossa.
[2] AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais: DSM-5-TR. 5. ed. rev. Porto Alegre: Artmed, 2023, p. 670.
[3] 1. Tem uma sensação grandiosa da própria importância (p. ex., exagera conquistas e talentos, espera ser reconhecido como superior sem que tenha as conquistas correspondentes).
2. É preocupado com fantasias de sucesso ilimitado, poder, brilho, beleza ou amor ideal.
3. Acredita ser “especial” e único e que pode ser somente compreendido por, ou associado a outras pessoas (ou instituições) especiais ou com condição elevada.
4. Demanda admiração excessiva.
5. Apresenta um sentimento de possuir direitos (i.e., expectativas irracionais de tratamento especialmente favorável ou que estejam automaticamente de acordo com as próprias expectativas).
6. É explorador em relações interpessoais (i.e., tira vantagem de outros para atingir os próprios fins).
7. Carece de empatia: reluta em reconhecer ou identificar-se com os sentimentos e as necessidades dos outros.
8. É frequentemente invejoso em relação aos outros ou acredita que os outros o invejam.
9. Demonstra comportamentos ou atitudes arrogantes e insolentes.


Josiah Falukos é conselheiro bíblico certificado pela ACBC e atua como gerente da livraria da ACBC. Ele possui bacharelado em Estudos Bíblicos, com especialização em Ciência da Computação, e mestrado em Aconselhamento Bíblico.


Original: Does the Bible Speak to Narcissism?
Artigo publicado originalmente em Association of Certified Biblical Counselors
Tradução e adaptação para o português de Conexão Conselho Bíblico com permissão.