
Keith Christensen
“Eu não sou Deus” é uma verdade que pode nos salvar da ira pecaminosa.[1] É a verdade que José expressou no clímax de sua história no livro de Gênesis, quando seus irmãos temiam que ele pudesse ficar irado: “Não tenham medo; será que eu estou no lugar de Deus?” (Gn 50.19).
De maneira parecida, no Novo Testamento, Tiago pergunta àqueles que estavam envolvidos em conflitos acirrados: “Um só é Legislador e Juiz, aquele que pode salvar e fazer perecer. Mas quem é você para julgar o seu próximo?” (Tg 4.12). É a mesma pergunta essencial que José fez, somente que de forma mais abrangente: “Você está no lugar de Deus? Você é o Único Legislador, Juiz, Salvador e Destruidor?”
Existem muitas maneiras pelas quais a verdade “Eu não sou Deus” se opõe diretamente à ira pecaminosa. Será proveitoso você estudar e meditar longamente, em oração, sobre essas conexões. Aqui, vou me limitar a algumas considerações baseadas nas quatro categorias apresentadas em Tiago 4.12.
1. Por eu não ser Deus, eu não sou o Legislador.
A ira é a nossa resposta emocional ligada à justiça, a nossa resposta natural a um mal ou injustiça percebidos. É o forte desagrado que sentimos sempre que fazemos um julgamento moral negativo sobre algo que para nós é importante – ou seja, acreditamos que algo esteja “errado”, moralmente falando. No entanto, quando estamos pecaminosamente irados, muitas vezes é simplesmente porque alguém não fez o que queríamos, ou atrapalhou o que queríamos alcançar (Tg 4.1). Por que isso desencadearia a nossa resposta emocional de perceber o mal, a injustiça ou o erro moral?
Isso acontece porque, enquanto pecadores orgulhosos, nós nos colocamos no lugar de Deus, agindo como se fosse errado não conseguirmos o que queremos, como se nossa vontade fosse a lei que determina o que é bom e o que é mau para os outros. Não é assim. A vontade de Deus é o define o que é certo e o que é errado.[2] Se nos irritamos porque nossos desejos não são atendidos, estamos tratando nossos anseios e expectativas como se fossem a vontade de um deus ao qual os outros devem se curvar, sob pena de serem julgados como malfeitores ou perpetradores de injustiça.
Quando estiver irado, lembre-se disso: você não é o Legislador, então não há nada de errado, do ponto de vista moral, em outras pessoas não cumprirem a sua vontade. Não há nada de objetivamente injusto ou desleal nisso. Só existe Alguém que dá a Lei que define o bem e a justiça, e você não é esta Pessoa.
2. Por eu não ser Deus, eu não sou o Juiz.
O Legislador estabelece o padrão que define o que é ilícito, mas é o Juiz quem aplica esse padrão para determinar se uma pessoa realmente agiu de forma errada em uma situação específica.
Não me interpretem mal: Deus não quer que suspendamos todo e qualquer julgamento moral sobre os outros, como se devêssemos ser agnósticos ou relativistas em relação à nossa visão sobre eles. Na verdade, não conseguiríamos parar de fazer julgamentos morais mesmo se tentássemos, porque Deus nos criou seres morais, à Sua imagem. Em vez disso, ao fazermos nossas avaliações morais, devemos não somente ter o cuidado de usar os padrões de Deus – já que Ele é o Legislador –, mas também reconhecer as limitações do que podemos julgar legitimamente. Simplificando: não podemos ver e saber o que Deus vê e sabe.
Descobri que a ira ou a amargura pecaminosa, muitas vezes, é alimentada por suposições sobre o que as outras pessoas devem estar pensando, ou o que deve estar motivando suas ações, ou o que elas devem estar fazendo quando não estamos observando. No entanto, não o podemos saber, pois não somos oniscientes e não podemos ver o coração. Devemos deixar Deus ser Deus, o único Juiz perante quem todos os corações são expostos.
Quando estiver irado, controle o seu coração: “Não julguem nada antes do tempo, até que venha o Senhor, o qual não somente trará à plena luz as coisas ocultas das trevas, mas também manifestará os desígnios dos corações. E então cada um receberá o seu louvor da parte de Deus. [ou condenação]” (1Co 4.5).
3. Por eu não ser Deus, eu não sou o Destruidor/Punidor.
A ira pecaminosa busca, muitas vezes, vingança. No entanto, quando buscamos vingança pessoal, estamos nos colocando no lugar de Deus. “Meus amados, não façam justiça com as próprias mãos, mas deem lugar à ira de Deus, pois está escrito: ‘A mim pertence a vingança; eu é que retribuirei, diz o Senhor’” (Rm 12.19). A retribuição aos malfeitores é tarefa de Deus. Deixe-a com Ele e confie que Ele fará um bom trabalho; o Juiz de toda a terra fará justiça (Gn 18.25).
Como não somos Deus, costumamos falhar no agir com justiça quando procuramos nos vingar dos erros cometidos contra nós. Tiago afirma isso diretamente: “a ira humana não produz a justiça de Deus” (Tg 1.20). Podemos pensar que estamos fazendo justiça e “corrigindo as coisas” quando damos vazão à nossa ira vingativa, mas a nossa ira pecaminosa geralmente agrava a situação.[3]
Em outras palavras, quando agimos movidos pela ira pecaminosa, para punir, não destruímos o mal e realizamos o bem. Acabamos fazendo coisas más e destruindo coisas boas ou, no mínimo, pioramos a situação.
Quando estiver irado, lembre-se disso: agir como vingador não é seu direito, e você não vai consertar as coisas… porque você não é Deus.
4. Por eu não ser Deus, eu não sou o Salvador.
Não cabe a nós decidir o que os outros devem fazer para receber misericórdia em vez de ira. Deus é o Salvador, e Deus, nosso Salvador, diz que todos os que se arrependem recebem misericórdia por causa de Cristo. Assim, Cristo nos diz: “Se o seu irmão pecar, repreenda-o; se ele se arrepender, perdoe-lhe. Se pecar contra você sete vezes num dia e sete vezes vier para lhe dizer: “Estou arrependido”, perdoe-lhe” (Lc 17.3, 4). Mateus 18 esclarece que devemos perdoar de coração — em vez de nos apegarmos à ira pecaminosa — ou então devemos esperar enfrentar a Sua ira, em vez de encontrarmos a Sua salvação (Mt 18.34, 35).
Precisamos lembrar que todo pecado é, antes de tudo, contra Deus, portanto, o resgate de Sua justa ira é a salvação definitiva de que todos precisamos. Ele providenciou um caminho, enviando Cristo para fazer propiciação pelos nossos pecados. O sacrifício de Cristo na cruz satisfez a ira de Deus, para que pudéssemos ser perdoados de nossos pecados, como um dom gratuito da graça.
Quando estiver irado, lembre-se disso: você não é o Salvador, Deus é o Salvador — e que Salvador Ele é! Portanto, devemos ser misericordiosos, assim como Ele foi misericordioso em Cristo. Podemos ter a misericórdia de Deus, apesar de nosso coração pecaminoso, por causa de Cristo. Orgulhosamente, nós nos colocamos no lugar de Deus em nossa ira, mas Cristo, na cruz, colocou-se humildemente no lugar dos pecadores irados.
Quando estiver irado, lembre-se do evangelho. Incline-se diante da cruz de Jesus, o Salvador humilde. Incline-se em humildade sob esta bendita verdade: Eu não sou Deus. Se você se humilhar dessa maneira, arrancará as raízes da sua ira pecaminosa e abrirá as mãos para receber a graça de Deus (Tg 4.6). Por esta graça, conquistada por Cristo, Deus o perdoará pela sua ira que o faz se sentir como Deus e o fortalecerá para ser mais parecido a Ele: misericordioso, paciente, tardio para se irar e disposto a perdoar. Não podemos ocupar o lugar de Deus, mas por meio do evangelho, podemos crescer e compartilhar do coração de Deus.
[1] Esta é uma das “5 Verdades Importantes para Vencer a Ira” do Dr. Jim Newheiser. Elas podem ser encontradas em seu livreto Minha ira está fora de controle (Editora Peregrino, 2019).
[2] Assim, para que a ira seja justa, ela deve ser provocada por um pecado real, definido pela Lei de Deus nas Escrituras. Para este e outros critérios da ira justa, veja o livro de Robert Jones Ira: arrancado o mal pela raiz (Editora Nutra, 2010).
[3] Alguns capítulos depois de Tiago nos dizer que “a ira humana não produz a justiça de Deus”, ele nos diz o que, de fato, produz justiça. De forma um tanto contraintuitiva, é o oposto da nossa ira pecaminosa: “Ora, é em paz que se semeia o fruto da justiça, para os que promovem a paz” (Tg 3.18).
Keith Christensen possui certificação da ACBC e atua como pastor na Christ Fellowship Bible Church em Fort Worth, Texas.
Original: Remind Your Angry Heart: You’re Not God
Artigo publicado originalmente em Association of Certified Biblical Counselors
Tradução e adaptação para o português de Conexão Conselho Bíblico com permissão.