Caroline Newheiser

Os conselheiros gostam de conversar. Às vezes, porém, dão o seu melhor quando permanecem em silêncio. Provavelmente, nossa ideia de aconselhamento são pessoas que conversam entre si. Podemos até nos sentir desconfortáveis com o silêncio. No entanto, considere esperar para falar, de modo a dar ao seu aconselhado algum tempo para pensar. Nos últimos anos, tenho sido mais intencional em inserir “pausas significativas” em meus encontros de aconselhamento. Uma conselheira em treinamento, que acompanhava meus encontros de aconselhamento, comentou a respeito disso. Ela disse que nunca havia pensado em esperar tanto tempo para que uma aconselhada respondesse, mas que agora procuraria colocar isso em prática nos próprios aconselhamentos. Sinto-me animada em poder compartilhar com vocês o que aprendi!
Aqui está uma descrição do que quero dizer com “silêncio” no aconselhamento. Não estou dizendo que os conselheiros não devam usar a Bíblia para compartilhar a verdade e/ou exortar. Acredito que meu aconselhamento seja uma aplicação de Tito 2.3-5. Devo “ensinar o que é bom… para que a palavra de Deus não seja difamada”. Ensinar as Escrituras é importante porque exalta a verdade de Deus. Busco dar destaque ao ensino no meu aconselhamento, ao mesmo tempo em que incluo momentos de espera para que a aconselhada reflita e se expresse.
Quero dar um exemplo de como o silêncio é usado em meus encontros de aconselhamento. Quando peço à aconselhada que leia uma passagem em voz alta ou quando leio alguns versículos para ela, permaneço em silêncio até que ela levante os olhos da página. Acredito que isso a ajude a absorver a verdade. Não sei exatamente o que ela está pensando enquanto olha para o texto bíblico. Ela pode estar lendo o entorno do texto para entender o contexto. Pode estar formulando uma resposta verbal. Pode estar pensando em como aplicar aqueles versículos à própria vida. Não quero interromper esse processo. Uma palavra de instrução ou uma pergunta de minha parte poderia mudar o rumo de seus pensamentos. Muitas vezes, vejo uma mulher levantar os olhos da Bíblia após uma reflexão silenciosa, pronta para compartilhar comigo uma percepção profunda. Ela pode dizer algo como: “Isso é exatamente aquilo de que necessito”. Ou: “Consigo ver como isso se aplica à minha vida!” Ou ainda: “É como se eu nunca tivesse visto esse versículo antes!” Os conselheiros devem estar prontos para ouvir e tardios para falar (Tg 1.19). Procure esperar um pouco para que a verdade se assente antes de fazer uma pergunta ou oferecer seus próprios pensamentos. Se você esperar, poderá ouvir a pessoa expressar exatamente a verdade que você esperava que ela percebesse.
Isso me leva ao ponto seguinte. O conselheiro obterá mais compreensão sobre o pensamento e a motivação da pessoa aconselhada se ele esperar para ensinar. Lembre-se de que o Espírito Santo é o principal mestre. Ele já está operando na vida daquela pessoa. Você não preferiria descobrir o que o Senhor já está fazendo? Pode ser difícil para a pessoa expressar seus pensamentos. Espere e, então, faça perguntas cuidadosas para entender o que ela está pensando. Você pode perguntar: “O que você está pensando?”, “O que Deus está dizendo nesses versículos?” ou “Quais palavras chamaram sua atenção no que acabamos de ler?” No meu ministério como treinadora de novas conselheiras, já ouvi o seguinte: “Eu achava que aconselhamento era como estudo bíblico ou pregação. Pensava que se constituísse principalmente de instrução”. Entendo que o aconselhamento envolve explorar aquilo em que a pessoa acredita e como ela aplica isso a si mesma. Assim, você terá um guia que leva às áreas onde há pontos fracos. Talvez ela entenda mal um aspecto da teologia, ou pode não compreender o significado de uma passagem bíblica. Quando você descobrir um ponto fraco, saberá o que enfatizar. Nossa vocação é orientada por Provérbios 20.5: “Os propósitos do coração humano são como águas profundas, mas quem é inteligente sabe como trazê-los à tona”.
Minha recomendação final vem de João 4.7-26. Jesus conduziu habilmente a mulher samaritana à verdade. Não sabemos quantas pausas ocorreram na conversa, mas temos um relato de como Jesus extraiu dela mesma a sua história e a levou a uma compreensão da verdade. Ele fez perguntas e esperou por suas respostas. Ele a conduziu em uma discussão sobre a verdadeira adoração e, por fim, revelou que Ele era o Messias prometido. Ele poderia simplesmente tê-la instruído, como fez em outras situações. Contudo, naquela interação, vemos um exemplo de como conduzir uma pessoa à compreensão da verdade bíblica por meio de perguntas, de uma escuta cuidadosa e da interação com seus pensamentos.
Encorajo você a considerar o valor de incluir o silêncio em seu aconselhamento. Dê tempo para que a pessoa que você está aconselhando pense e responda. Lembre-se de que você quer guiá-la à verdade. Descubra o que ela consegue perceber por conta própria. Em alguns momentos, as correções serão necessárias. Você precisará instruir aquelas pessoas que ainda são inexperientes na Palavra de Deus, pois elas têm se alimentado somente de leite. O autor de Hebreus se dirige a essas pessoas: “Quando já deviam ser mestres, levando em conta o tempo decorrido, vocês têm, novamente, necessidade de alguém que lhes ensine quais são os princípios elementares dos oráculos de Deus” (Hb 5.12).
Não negligencie o ensino. Acrescente a escuta, e você poderá se surpreender com o quanto é encorajador quando a pessoa que você está aconselhando, após refletir, consegue expressar aquilo que o próprio Espírito Santo está lhe ensinando.. Ela e você glorificarão ao Senhor diante daquilo que Ele está operando. Afinal, não oramos por aqueles que aconselhamos, pedindo que lhes seja concedido espírito de sabedoria e de revelação no pleno conhecimento de Cristo (cf. Ef 1.15-23)? Dê a quem você está aconselhando a oportunidade de pensar, especialmente se a pessoa precisa de tempo para processar seus pensamentos antes de falar.
Deixe espaço para a reflexão. Sinta-se confortável com o silêncio. Diminua o ritmo da sua agenda para cada encontro e descubra quais percepções já estão surgindo na mente da pessoa. Você pode se surpreender positivamente. Dê tempo para que a Palavra e o Espírito façam sua obra.
Perguntas para reflexão
1- Qual é a diferença entre fazer uma pausa para permitir que a pessoa reflita e ter boas habilidades de escuta?
2- Avalie seu aconselhamento à luz do equilíbrio entre ensinar e esperar. Que mudanças você precisa implementar?
Caroline Newheiser é conselheira certificada pela ACBC e possui mestrado em Aconselhamento Cristão pelo Reformed Theological Seminary-Charlotte. Seu marido, Jim Newheiser , foi pastor por mais de 34 anos, incluindo 6 anos na Arábia Saudita, antes de se mudar para Charlotte, onde é professor de aconselhamento bíblico. Caroline tem muitos anos de experiência aconselhando mulheres na igreja local e tem paixão por ajudar mulheres a enxergarem a vida por uma perspectiva bíblica.
Original do artigo: Counselor, Consider Becoming Comfortable with Silence
Artigo publicado pela Biblical Counseling Coalition.
Traduzido e adaptado para o português com autorização.