Deixando para trás o comportamento alimentar emocional

Caminhando pela fé em vez de sentimentos

Shannon Kay McCoy


José nunca se considerou alguém que lutava contra a compulsão alimentar. Ele era um marido fiel, diácono em sua igreja e um colega de trabalho confiável. Aos domingos de manhã, cumprimentava as pessoas na porta da igreja com um sorriso caloroso e um aperto de mão firme. Tarde da noite, porém, quando a casa estava silenciosa e as luzes apagadas, José, frequentemente, achava-se parado em frente à geladeira aberta, comendo sem pensar, mesmo tendo jantado apenas algumas horas antes.

Às vezes, isso acontecia depois de um dia estressante no trabalho, uma conversa difícil com a esposa ou mais uma discussão com o filho adolescente. Outras vezes, era simplesmente tédio. Comer sem pensar lhe dava algo para fazer com as mãos e a mente. Ele não era dado à bebida alcoólica, à jogatina nem à pornografia. Ele apenas “beliscava” à noite.

A princípio, parecia algo inofensivo. Com o tempo, porém, José começou a se ver preso em um ciclo perturbador: estômago pesado, mente lenta e aquela voz interior acusadora que diz: “Você fala em confiar em Deus, mas não consegue nem mesmo controlar o que come”. Ele sabia que seu problema era mais do que falta de disciplina ou uma forma de passar o tempo. A comida era o lugar para onde ele corria em busca de refúgio das pressões e emoções com que não sabia lidar.

A experiência de José é mais comum do que gostamos de admitir. Muitos lutam silenciosamente com padrões parecidos. Comer por razões emocionais é frequentemente reduzido a uma questão de autocontrole ou apetite, em vez de ser visto como um problema do coração, como o lugar onde buscamos conforto, refúgio e satisfação na em vez de ir a Deus.

Entendendo a essência por trás do comportamento alimentar emocional
A Palavra de Deus ensina que o coração é a fonte da vida, moldando nossos pensamentos e ações. Provérbios 4.23 aconselha: “De tudo o que se deve guardar, guarde bem o seu coração, porque dele procedem as fontes da vida”. Quando comemos em resposta ao estresse, à solidão, ao tédio ou à ansiedade, revelamos aquilo em que confiamos para suprir nossas necessidades. A comida se torna um consolo falso — temporário, insatisfatório e incapaz de prover o que o coração precisa realmente receber, e que só Deus pode lhe dar.  Comer por razões emocionais é como cavar cisternas rachadas que não retêm água. Em Jeremias 2.13, o profeta declara: “Porque o meu povo cometeu dois males: abandonaram a mim, a fonte de água viva, e cavaram cisternas, cisternas rachadas, que não retêm as águas”. Em vez de bebermos da fonte viva de Deus, recorremos muitas vezes a substitutos que prometem alívio, mas que não conseguem satisfazer verdadeiramente.

Caminhando pela fé, não pelos sentimentos.
Quando as emoções são intensas ou as circunstâncias parecem incertas, as comidas saborosas ou os doces podem facilmente se tornar um refúgio. No entanto, as Escrituras nos convidam a trilhar um caminho diferente, moldado não pelos nossos sentimentos, mas pela fé em Deus. A vida cristã é um chamado a andar “por fé e não pelo que vemos” (2Co 5.7).

Andar pelo que vemos significa responder ao que parece urgente no momento. Baseia-se no que é imediato, tangível e razoável, muitas vezes levando ao medo ou à dúvida quando as circunstâncias parecem incertas ou avassaladoras. No entanto, andar pela fé significa escolher confiar no caráter, nas promessas e na provisão de Deus, mesmo quando nossas emoções ou circunstâncias sugerem o contrário.

Quando aplicada ao comportamento alimentar emocional, a fé nos convida a parar e lembrar que a comida não pode satisfazer os anseios mais profundos da alma. Em vez de reagir automaticamente ao estresse, ao tédio ou ao desânimo, a fé redireciona o coração para Cristo como nosso verdadeiro consolo e refúgio. Como nos lembra o Salmo 107.9 (NVI), Deus “sacia o sedento e satisfaz plenamente o faminto​”. O comportamento alimentar emocional é uma tentativa de lidar com a vida sem Deus, enquanto o andar pela fé convida-nos a depender Dele em meio à luta.

Redirecionando o coração para Cristo
Vencer o consumo compulsivo de alimentos não se resume a mudar hábitos alimentares ou eliminar ​​da geladeira os alimentos não saudáveis. No fundo, a luta consiste em aprender a direcionar o coração para Cristo quando a angústia emocional surge. O objetivo não é medir o sucesso ou o fracasso por um histórico perfeito de hábitos alimentares, mas, sim, cultivar uma dependência mais profunda de Cristo nos momentos de fraqueza. Diversas medidas práticas podem ajudar a lidar com desejos desordenados de comida e a andar pela fé.

1. Reconheça honestamente diante de Deus as suas emoções.
Em vez de esconder ou ignorar as emoções difíceis, e recorrer imediatamente à comida, podemos aprender a apresentar nosso coração honestamente ao Senhor. Estresse, solidão, frustração e até mesmo o tédio podem se tornar convites à oração, em vez de gatilhos para o comportamento alimentar emocional. O Salmo 62.8 nos convida: “Confie nele em todo tempo, ó povo; derrame diante dele o seu coração. Deus é o nosso refúgio”. Deus não nos pede para esconder nossas emoções, mas nos convida a apresentá-las a Ele.

2. Identifique padrões de comportamento e gatilhos
Comer por razões emocionais costuma seguir padrões previsíveis. Muitas pessoas percebem que o desejo de comer surge quando estão com muita fome, muito iradas, em profunda solidão ou muito cansadas. Reconhecer esses padrões nos ajuda a proteger nosso coração e a nos preparar para momentos de vulnerabilidade. Em 1Coríntios 10.13 temos esta promessa: “Não sobreveio a vocês nenhuma tentação que não fosse humana; mas Deus é fiel e não permitirá que vocês sejam tentados além do que podem suportar; pelo contrário, juntamente com a tentação proverá livramento, para que vocês a possam suportar”. Ao tomarmos consciência dos nossos gatilhos, podemos começar a procurar o “livramento” que Deus fielmente nos oferece.

3. Aperte a tecla “pause” e ore
Uma das maneiras mais práticas de interromper o processo diante da geladeira é criar uma pausa entre a emoção e a resposta. Em vez de reagir automaticamente, podemos apresentar nossa luta a Deus. Nessa pausa, podemos nos fazer uma pergunta simples: O que eu realmente busco agora? Recorrer à oração ajuda a redirecionar o coração para Deus, em vez de buscar alívio imediato. Provérbios 4.23 nos lembra: “De tudo o que se deve guardar, guarde bem o seu coração, porque dele procedem as fontes da vida”. Guardar o coração, muitas vezes, começa com a desaceleração, o tempo suficiente para apresentar nossas lutas a Deus.

4. Repense a alimentação enquanto mordomia em vez de salvação
A comida é uma boa dádiva de Deus, destinada a nutrir o corpo e a ser recebida com gratidão. O problema surge quando ela começa a carregar um peso emocional para o qual nunca foi concebida. Eclesiastes 9.7 nos lembra que a comida deve ser apreciada como parte da provisão de Deus: “Portanto, vá e coma com alegria o seu pão e beba com prazer o seu vinho, pois Deus já se agradou do que você faz”. A comida serve ao corpo, mas não pode satisfazer o coração. Somente Cristo pode preencher esse papel.

5. Abrace a transformação como um processo
Raramente o comportamento alimentar emocional é vencido da noite para o dia. Muitos se desanimam ao tropeçar, mas as Escrituras nos lembram que a mudança espiritual é um processo guiado pela obra fiel de Deus. Em Filipenses 1.6, Paulo oferece uma firme esperança: “Estou certo de que aquele que começou boa obra em vocês há de completá-la até o Dia de Cristo Jesus”. A transformação não depende de uma disciplina impecável, mas de uma crescente dependência da graça de Deus.

À medida que aprendemos a redirecionar nossa fome emocional, buscando a Cristo em vez de buscar a comida, nosso coração descobre gradualmente que o conforto que antes procurávamos em alívio temporário é satisfeito de forma muito mais profunda e fiel naquilo que Cristo oferece.

Perguntas para reflexão
1- Que passo prático poderia ajudá-lo a parar e se voltar para o Senhor na próxima vez que sentir fome emocional? Como a oração ou uma reflexão sincera nas Escrituras poderiam ajudá-lo, naquele momento, a caminhar pela fé em vez de pelos sentimentos?
2- Em que situações você sente com mais frequência a tentação de comer por razões emocionais?
3- O que você acredita que a comida lhe proporcionará nesses momentos? Como esses desejos podem revelar uma aspiração mais profunda que somente Cristo pode verdadeiramente satisfazer (Sl 107.9)?


Shannon Kat McCoy é conselheira bíblica em sua igreja, no sul da Califórnia. Ela possui mestrado em Aconselhamento Bíblico pelo The Master’s College em Santa Clarita, Califórnia, e é certificada pela ACBC. É palestrante em retiros e conferências, autora do livro “Sou um escravo da comida” (Editora Peregrino) e coautora de “Mulheres aconselhando mulheres (Nutra Publicações)”. Shannon escreve artigos para a Biblical Counseling Coalition e para o Institute for Biblical Counseling and Discipleship.


Original do artigo: Overcoming Emotional Eating: Walking by Faith Instead of Feelings
Artigo publicado pela Biblical Counseling Coalition
Traduzido e adaptado para o português com autorização.