Tim St. John

Quando pessoas caminham pelo vale da sombra da morte por muito tempo, ou se sua vida é atingida por tempestades repentinas e devastadoras, sua história pode parecer definida inteiramente pela dor. O luto domina o coração, e elas clamam como Davi fez tantas vezes nos Salmos: “Até quando, SENHOR, te esquecerás de mim? Será para sempre?” (Sl 13.1a).
Devemos ser pacientes com aqueles que sofrem. As Escrituras nos chamam a chorar com os que choram e lamentar ao seu lado (Rm 12.15). Contudo, também devemos reconhecer como o inimigo procura usar o sofrimento para distorcer a narrativa redentora de Deus, reduzindo a vida de uma pessoa a uma única história de dor. É isso que nosso ministério de aconselhamento costuma descrever como uma “identidade de vítima”.
A identidade de vítima se forma quando alguém começa a interpretar toda a sua vida principalmente através da lente do que lhe foi feito, enquanto a obra redentora de Deus fica em segundo plano. O sofrimento torna-se a lente dominante através da qual tudo é interpretado. As conversas, frequentemente, retornam à mesma ferida. Afirmações como “É assim que eu sou agora”, “Ninguém consegue entender o que eu passei” ou “Nada jamais mudará para mim” não são meros lamentos, mas declarações de visão de mundo que moldam a forma de se ver daquela pessoa e como ela vê o seu futuro. O ressentimento se intensifica, a gratidão se torna difícil e cada nova decepção parece uma confirmação adicional de que sua história é definida pela perda.
A essa altura, a vida parece definida pelo sofrimento. As sombras da morte parecem engolir a luz. Pode haver vislumbres ocasionais de esperança, como uma estrela tênue cintilando na noite, mas o mundo parece escuro e sem direção na maior parte do tempo. Todo sofredor conhece a tentação de se sentir dominado pela dor, mas a identidade de vítima instala-se quando essa tentação se torna a principal forma pela qual a pessoa compreende a si mesma, seus relacionamentos e até mesmo seu relacionamento com Deus.
As Escrituras nunca minimizam o sofrimento. A Palavra de Deus dá voz à angústia real e ao lamento sincero. Contudo, a Bíblia também nos lembra que o sofrimento não tem a palavra final na vida do povo de Deus.
Removendo as traves dos nossos próprios olhos
Antes de falarmos sobre como cuidar de alguém com uma identidade de vítima, é preciso que os conselheiros comecem por uma análise sóbria do próprio coração. Jesus nos adverte sobre o perigo de querer remover um cisco do olho de outra pessoa enquanto ignoramos as traves no nosso próprio olho (Mt 7.3-5). Ao trabalhar com alguém que se sente definido pelo seu sofrimento, diferentes traves podem facilmente obstruir nossa visão.
1- Impaciência – Queremos que a mudança aconteça rapidamente. Queremos que as coisas se resolvam imediatamente, mas as pessoas, muitas vezes, superam a dor lentamente. Gálatas 6.2 nos chama a “levar as cargas uns dos outros”, o que exige paciência e perseverança. Não podemos pensar em simplesmente apertar um interruptor e fazer alguém ver a luz.
2- Amor a situações confortáveis – Caminhar com pessoas que sofrem pode ser emocionalmente exaustivo. No entanto, Jesus nunca se esquivou do processo lento e difícil de discipular pessoas que lutavam para confiar nEle. Mesmo quando seus discípulos o compreendiam mal, repetidamente, ou quando, no caminho para Jerusalém, discutiram sobre quem era o maior entre eles (Lc 22.24-27), Jesus os corrigia pacientemente e continuava a caminhar com eles. O trabalho lento de cuidar de almas desafiará inevitavelmente o nosso amor a situações confortáveis. Contudo, se você está começando a sentir o cansaço que o torna impaciente no aconselhamento, pode ser um sinal de que está carregado sozinho os fardos pesados. As Escrituras chamam a igreja a carregar os fardos em conjunto. Considere convidar outras pessoas para o processo de cuidado: discipuladores, líderes de pequenos grupos ou crentes maduros que possam orar, encorajar e caminhar ao lado da pessoa que sofre.
3- Amor ao controle de mudanças – Os conselheiros frequentemente sentem pressão para resolver a situação ou produzir mudanças visíveis. Quando a história de alguém está intrinsecamente ligada a anos de sofrimento, podemos nos sentir responsáveis por desvendar cada nó por conta própria. No entanto, a mudança espiritual, em última análise, pertence ao Senhor (1Co 3:6, 7). Nosso papel é apontar fielmente as pessoas para Cristo e caminhar com elas na verdade bíblica, não controlar o ritmo ou o resultado do seu crescimento.
4- Cinismo – Alguns conselheiros tornam-se céticos porque presenciaram exageros ou enganos em relatos de sofrimento. Isso de fato acontece. No entanto, o cinismo pode nos cegar para a dor genuína que muitas pessoas carregam. A postura oposta é a compaixão, a disposição de ouvir atentamente e levar a sério o sofrimento do outro. As Escrituras nos chamam cada um a ser “pronto para ouvir, mas seja tardio para falar e tardio para ficar irado” (Tg 1.19), abordando os outros com atenção paciente em vez de suspeita.
Se não examinarmos primeiro o nosso próprio coração, podemos correr o risco de tratar as pessoas como problemas a resolver em vez de almas a guiar.
Aconselhar alguém com uma identidade de vítima raramente significa acender todas as luzes de uma vez. Com maior frequência, trata-se de se manter na direção firme que aponta para Cristo, confiando que o Senhor iluminará gradualmente o caminho. Uma das minhas imagens favoritas quanto a isso encontra-se em Provérbios 4.18: “A vereda dos justos é como a luz do alvorecer, que vai brilhando mais e mais até ser dia claro”. Deus costuma agir dessa maneira na vida das pessoas que sofrem. A mudança é gradual. A escuridão não desaparece instantaneamente. Em vez disso, a luz vai se intensificando lentamente com o tempo. Com isso em mente, eu gostaria de sugerir etapas essenciais para cuidar de aconselhados cuja vida parece ser definida pelo sofrimento.
1. Ajude seus aconselhado a contar a verdade sobre as injustiças específicas que sofreram.
O primeiro passo é ajudar o aconselhado a reconhecer honestamente o sofrimento que vivenciou. Precisamos entender claramente quais comportamentos pecaminosos o feriram ou como os efeitos do pecado neste mundo o prejudicaram. Isso inclui dar nome os erros cometidos contra ele e reconhecer as consequências que esses pecados trouxeram para sua vida. A Bíblia nunca pede às vítimas do pecado de outros que finjam que nada aconteceu. Na verdade, Deus repetidamente chama o Seu povo a dizer a verdade. Uma vez que reconhecemos o que foi cometido contra nós, podemos começar a perceber quais sofrimentos precisam ser lamentados perante Deus, quais pecados precisam ser confrontados, quais limites bíblicos precisam ser estabelecidos e se é preciso envolver outras pessoas.
2. Ajude seus aconselhados a contar sua história como sofredores, pecadores e santos.
Embora seja essencial reconhecer o sofrimento, a história não pode terminar nesse ponto. Um dos perigos no aconselhamento é que podemos avançar tão lentamente pelo sofrimento de alguém que, sem querer, reforçamos uma identidade limitada, construída inteiramente em torno da vitimização. Devemos agir com paciência, mas se a conversa ficar constantemente revisitando a dor que o aconselhado sofreu, podemos, sem querer, reforçar a ideia de que o sofrimento é a característica definidora de sua vida.
As Escrituras nos dão uma visão mais completa. A história de todo cristão contém três realidades: sofredor, pecador e santo[1]. Toda aconselhado que chega até você é um sofredor, porque injustiças reais foram cometidas contra ele (Jo 16.33). É correto lamentar essas injustiças e ajudá-lo a dar passos em direção à esperança em Cristo. No entanto, ele também é pecador, como todo ser humano (1Jo 1.8). Isso não significa que o pecado pessoal causou seu sofrimento. Contudo, em meio ao sofrimento, as pessoas costumam enfrentar a tentação de responder de maneira pecaminosa e, às vezes, falham. Embora o sofrimento possa explicar grande parte de sua dor, não é a barreira definitiva para adorar a Deus. Nosso próprio coração pecaminoso nos afasta de Deus. Mais importante ainda, os crentes são santos se pertencem a Cristo: pessoas amadas, redimidas e adotadas por Deus (Ef 1.4-7).
3. Ajude seus aconselhados a identificar a obra graciosa de Deus
A graça de Deus pode operar até mesmo nos capítulos mais sombrios da história de uma pessoa. Ajudar alguém a enxergar esses momentos de graça, mesmo os pequenos, não é um exercício de procurar disfarçar a adversidade com um sorriso ou fazer limonada com os limões que Deus lhe deu. Isso seria minimizar o sofrimento. Em vez disso, direcionar a atenção do aconselhado para a graça que Deus continua a lhe conceder ajuda-o a ver uma história mais real de sua vida. Quando a história completa inclui gratidão pela graça de Deus, sempre presente, o aperto do desespero começa a ceder.
Enquanto conselheiro, reconheça a graça de Deus
O inimigo estrategicamente tenta os conselheiros a ignorarem a obra lenta e santificadora da graça presente naqueles que aconselham. Amamos presenciar aqueles momentos óbvios e dramáticos de mudança em vidas que Deus às vezes proporciona. No entanto, com muito mais frequência, Sua graça se manifesta como maná no deserto, pequenas provisões diárias que exigem paciência para serem percebidas.
Se não estivermos dispostos a desacelerar e saborear esses momentos, podemos perder de vista a própria graça divina que estamos procurando ajudar o aconselhado a enxergar. Portanto, desacelere com aqueles que se sentem perdidos na escuridão. Sente-se com eles tempo suficiente para perceber a tênue luz de uma estrela cadente, e quando essa luz aparecer, conecte gentilmente essa esperança ao nosso Senhor Jesus Cristo. À medida que Ele se torna o centro, Ele os ajuda a contar uma história transformada.
Perguntas para reflexão
1- Ao acompanhar alguém que está sofrendo, com quais “traves” (impaciência, amor a situações confortáveis e ao controle de mudanças, cinismo) você tem mais dificuldade?
2- O que significa, na prática, ver a si mesmo e aos outros como sofredor, pecador e santo?
[1] Este paradigma foi introduzido pela primeira vez por Michael Emlet. Você pode aprender mais sobre esta visão de identidade bíblica em seu livro: Santos, Sofredores e Pecadores (Editora Peregrino).
Timothy St. John, é formado pelo The Masters’ Seminary e atua como pastor de aconselhamento na Lighthouse Community Church em Torrance, Califórnia. Sua paixão é ver a graça do aconselhamento centrado no Evangelho crescer e prosperar nas igrejas locais. Ele faz parte do conselho editorial da rede SOLA e é palestrante frequente em conferências e retiros. Ele é autor de After Church Hurt: Healing in the Care of the Good Shepherd e do livreto Uncovering Domestic Abuse .
Original do artigo: Counseling the Victim Identity
Artigo publicado pela Biblical Counseling Coalition
Traduzido e adaptado para o português com autorização.