Aconselhamento bíblico: seis etapas rumo ao futuro

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David Powlison

Devemos ser bons no aconselhamento − gentis, habilidosos, atentos. Devemos fazer o melhor − de forma cuidadosa, proveitosa, prática. Com demasiada frequência, porém, temos sido medíocres e tolos, rígidos ou ineptos. A resposta pronta, o julgamento instantâneo, o estilo rápido e a solução fácil caracterizam-nos  muitas vezes. Onde está a paciência bondosa? Onde está a preocupação de sondar e pensar com afinco? Onde está a honestidade clara e pertinente? Onde está a flexibilidade da sabedoria aplicada sob medida? Onde está o desenrolar do processo? Onde está a bondade de Jesus encarnada em pessoas misericordiosas, humildes, sensatas? Tem misericórdia de nós, Pai das misericórdias.

The Biblical Counseling Movement After Adams [O Movimento de Aconselhamento Bíblico Depois de Adams], de autoria de Heath Lambert,  é um bom livro sobre a tentativa do povo de Deus de se tornar capaz no aconselhamento. Lambert propõe alguns passos desejáveis na continuidade do desenvolvimento da nossa sabedoria corporativa. Há mais capítulos a serem escritos nessa história. Para onde vamos? Como podemos ir adiante na direção certa?

Nossa trajetória para o futuro é a parte mais importante do movimento do aconselhamento bíblico. Percorrendo o livro de Lambert, posso identificar uma progressão de seis etapas no desenvolvimento de nossa sabedoria coletiva. Elas representam o processo pelo qual cada um de nós passa no despertamento e amadurecimento para o amor sábio que marca um bom aconselhamento. Estas etapas também descrevem o processo pelo qual todos nós passaremos à medida que crescermos juntos.

Etapa 1: Cada um de nós precisa ouvir – alguns pela primeira vez – que a igreja tem um chamado singular e significativo para o aconselhamento.

Deus interpreta os conflitos pessoais e os problemas circunstanciais por meio de um conjunto de lentes muito diferentes daquelas usadas pelos demais modelos de aconselhamento. Ele nos engaja com um conjunto de intenções também muito diferentes daquelas dos demais modelos de aconselhamento. Como Seus filhos, devemos aconselhar de acordo com Sua maneira de ver e proceder. A realização dessa visão pode parecer distante. Atualmente, a sua igreja local pode ter um ministério deficiente na área de aconselhamento, pode ter-se desviado da visão ou ainda abdicado inteiramente da tarefa. Mas à medida que você se dá conta de que o Maravilhoso Conselheiro pretende formar a Sua Igreja para que seja um povo de conselheiros capazes − e cada vez melhores conselheiros − isso o faz parar e pensar. Até sabermos que algo pode existir, não somos capazes de nos imaginar como participantes. A participação torna-se uma possibilidade quando algo começa a surgir no horizonte. Espero que você ouça o chamado.

Etapa 2: Precisamos concordar que se trata de uma visão desejável.

A Igreja não apenas pode se tornar capaz no aconselhamento, mas também deve se tornar sábia e frutífera no ministério de aconselhamento. Deus nos chama ao crescimento nessa área ministerial. Talvez você queira ler Efésios 3.14-5.02 tendo em mente esta pergunta: “Quais as implicações deste texto para o ministério de aconselhamento mútuo?”. Cada uma das frases tem implicações. Ouvir que é possível aconselhar com a sabedoria bíblica, e que Deus deseja que o façamos, leva-nos ao assentimento e compromisso. Espero que você diga: “Sim, isso deve ser assim. Talvez eu ainda não entenda exatamente como será, mas concordo que deve acontecer”.

Etapa 3: Precisamos abraçar pessoalmente e encarnar a visão.

Este é o passo decisivo, sine qua non. A Bíblia o ensina a entender tanto as lutas mais profundas como os melhores dons. Deus mostra como enfrentar os problemas mais pesados e como responder às maiores bênçãos. Creio que o entendimento do Senhor a respeito dos meus pecados e tristezas, dos bens e alegrias é a verdadeira compreensão. Acredito que o caminho do Senhor para engajar pessoas quebradas em um mundo caído é o único engajamento de amor verdadeiro. Eu levo isso a sério. À medida que levamos isso a sério, entramos na dinâmica viva de transformação retratada em Salmos, Provérbios, nos livros proféticos e históricos, nos Evangelhos e nas epístolas. Você entra pessoalmente no processo de aconselhamento de Deus. Você se torna Seu discípulo, aprende Seus caminhos. Você se junta os santos sábios de todas as épocas.

Você se apropria da perspectiva de Deus. Você passa a viver cada vez mais na verdade, deixando para trás a terra das sombras, abandonando a realidade virtual. Seja qual for a configuração e a gravidade de seus problemas pessoais, você passa a compreender a si mesmo sob uma nova luz. Não estou comprometido com o aconselhamento bíblico porque é uma teoria que casualmente achei persuasiva ou porque um versículo fascinante da Bíblia me despertou. Estou comprometido porque Deus diz a verdade a meu respeito, a respeito do meu mundo e do Pai, Salvador e Amigo que me levou a sério e me se comprometeu comigo. E passo a  compreender todos os demais seres humanos — você, meu companheiro de lutas, meu irmão ou irmã − sob a mesma luz pela qual passei a entender a mim mesmo.

Abraçar pessoalmente a visão e encarná-la não são esquisitices únicas do aconselhamento bíblico. Há algo de essencialmente autobiográfico em cada modelo de aconselhamento até aqui proposto − Freud, Adler, Jung, Wolpe, Rogers, Frankl, Gestalt, Glasser, a biopsiquiatria, MFT [terapia multifamiliar], CBT [terapia comportamental cognitiva], ACT [terapia de aceitação e compromisso], DBT [terapia comportamental dialética], EFT [terapia de libertação emocional] − ou qualquer outra combinação eclética. Cada teoria e prática revela a fé central de seu autor. E qualquer teoria ABC ou terapia XYZ, que for inventada daqui para o futuro, anunciará algo essencialmente autobiográfico. Ela oferecerá alguma forma de interpretar e depois reconfigurar a humanidade de acordo com a posição pessoal do autor. Se esse entendimento não for fiel às Escrituras e a Cristo − a palavra escrita e o Verbo encarnado − então será falso para com as pessoas. Mediante o meu compromisso com o aconselhamento bíblico, dou testemunho de como entendo a vida e como vivo. Espero que você atenda ao chamado para o aconselhamento sábio como uma expressão decorrente do seu chamado para viver em Cristo.

Etapa 4: Precisamos de ensino, treinamento, mentoriamento, prática e supervisão.

A maturidade envolve sempre um processo educacional, um discipulado. Você lê, conversa com os outros, frequenta aulas, experimenta na prática, recebe feedback. Se você for humilde, crescerá em sabedoria. Sua compreensão crescerá em extensão e profundidade. Sua habilidade para amar ganhará maior relevância e flexibilidade. Raramente crescemos no entendimento de alguma área sem uma dedicação consciente. Alguns começarão a ler bons artigos ou livros. Alguns formarão grupos de discussão. Outros entrarão em um programa de pós-graduação para o estudo sistemático do aconselhamento bíblico. Outros ainda participarão de treinamento em sua igreja local. Espero que você procure o tipo de aprendizagem apropriada à singularidade com que Deus o criou e trabalha em sua vida.

Etapa 5: Precisamos nos tornar bons no aconselhamento.

Excelentes, na verdade. Você pode abraçar com entusiasmo o aconselhamento bíblico enquanto conceito e até mesmo fazer um curso para aprender mais, mas ainda permanecer inepto. Talvez o sinônimo mais preciso para aconselhamento seja amor sábio. O amor sábio faz uma enorme diferença na vida de outras pessoas. Tanto o ato de dar como o de receber amor sábio fazem uma enorme diferença em sua vida. O cuidado genuíno, uma pergunta perspicaz, a compaixão e a compreensão, a verdade de Deus no momento oportuno, a ajuda prática, a paciência no processo − todos este dão vida.

O resultado final: você deve se tornar mais capaz de ajudar as pessoas. Aqui está um paradoxo divino. Qualquer transformação genuína em vidas é obra direta do Doador de vida, o Pastor, o Pai. Ao mesmo tempo, o Deus vivo nos usa de bom grado para darmos vida uns aos outros, para pastorearmos uns aos outros, para cuidarmos uns dos outros, protegermos e encorajarmos. Habilidade requer tempo e experiência. Habilidade exige a humildade de um homem ou uma mulher que aprende continuamente. Habilidade dá fruto. Ela adoça e ilumina a vida de outras pessoas. Espero que você persiga o alvo de se tornar bom no aconselhamento.

Etapa 6: Precisamos desenvolver líderes.

A sabedoria no aconselhamento é uma habilidade comunicável. Ela deve ser transmitida a outros, disseminada ao nosso redor, passada de geração em geração, desenvolvida. Três tipos de líderes se levantarão.

Alguns se tornarão líderes por sua habilidade no ensino. Eles são capazes de esmiuçar um processo complexo nas partes que o compõem. Eles têm sensibilidade no ensino das escalas e acordes necessários para aprender a tocar uma bela música. Também possuem algumas das muita habilidades secundárias: avaliar com precisão, selecionar bons candidatos, dar treinamento prático e atuar como mentor, supervisionar de forma perspicaz, treinar com cuidado. Liderança diz respeito não apenas à capacidade de aconselhar alguém que luta, mas também à capacidade de ajudar alguém a aprender a aconselhar aqueles que lutam. Ela reproduz habilidade. Não é fato garantido que a habilidade de praticar (quinta etapa) resulte na habilidade de ensinar (sexta etapa). Pense em um craque do basquete que rotineiramente finaliza todos seus arremessos. O que dizer se você pedir que ele lhe ensine a arte do arremesso e ele responder: “Eu só lanço a bola e ela cai dentro da cesta”. Ele pode estar no Hall da Fama como jogador, mas nunca será um treinador. Deus quer chamá-lo para treinar outros?

Outros se tornarão líderes pela sua capacidade de contribuir para o progresso intelectual. A sabedoria bíblica deve ser sempre afiada e desenvolvida − ela se mantém atualizada investindo em novos problemas, indo ao encontro de novos desafios, interagindo com novos vizinhos e identificando novas necessidades para podermos crescer ainda mais em sabedoria. É uma ajuda para todos nós quando alguém consegue traduzir as palavras desconhecidas em verdades familiares e apontar implicações inesperadas. É uma ajuda para todos nós quando alguém se levanta, reflete sobre aquilo que todos nós estamos fazendo e, em seguida, aponta os nossos pontos fortes e também as nossas fraquezas. Estagnar ou cair na rotina é muito fácil para qualquer um de nós. Precisamos estar atualizados para ampliar o alcance e a profundidade do que entendemos ser verdadeiro. Deus quer chamá-lo para contribuir no trabalho de pesquisa e desenvolvimento que mantém o ministério relevante para a atualidade? Ele quer chamá-lo para sair à frente de forma que todos nós nos tornemos mais fieis ao Deus que fala e age?

Outros ainda se tornarão líderes por seu talento como empreendedores e gestores. O aconselhamento precisa de um lar. O cuidado e a cura das almas exige estrutura organizacional, desenvolvimento institucional, divulgação, pessoal de apoio, sustento financeiro. Qualquer ministério custa tempo e dinheiro, e acontece em um contexto. Os líderes com talento para  impulsionar e administrar o ministério são capazes de criar, manter e recriar estruturas adequadas e sistemas de apoio para que as habilidades de aconselhamento sejam melhor utilizadas. Deus quer chamá-lo para ajudar a construir igrejas saudáveis ou ministérios paraeclesiáticos saudáveis para que o corpo de Cristo leve o melhor do bom aconselhamento às pessoas necessitadas?

Acima de tudo, que cada um de nós viva de acordo com a verdade de Deus, tornando-se bom na prática de receber o amor sábio (terceira etapa). Que possamos, então, crescer em direção ao amor sábio que ajuda o próximo (quinta etapa).

Fonte: The Gospel Coalition
Original: The Future of Biblical Counseling
Texto adaptado do prefácio de O Movimento de Aconselhamento Bíblico Depois de Adams.  Heath Lambert, Editora Crossway.

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