Empatia: virtude do conselheiro

Joe Hussung


Empatia tornou-se um chavão no meio evangélico nos últimos anos. Ainda assim, no aconselhamento, a empatia deve ser vista como uma virtude inegociável para o conselheiro.[1] Sem empatia, a tarefa de aconselhar, seja no contexto pastoral, seja nos contextos paraeclesiástico ou leigo, não pode ser completada. A razão pela qual ela é essencial não é porque devemos comprar um slogan atual ou dobrar os joelhos para uma era em constante mudança, mas porque a palavra empatia fala à realidade bíblica do nosso desejo de entender e de nos conectar emocionalmente com aqueles a quem Deus nos chama para aconselhar.[2]  Quando entendida por meio de uma lente bíblica centrada em Cristo, a empatia é um termo que pode englobar nossa disposição de buscar entender o aconselhado e de ser tocado por sua história, para que possamos ajudá-lo em seu sofrimento. Quero destacar brevemente três maneiras pelas quais a virtude da empatia nos ajuda a cuidar de pessoas como Cristo cuidou. Veremos em Mateus 9.36 como o cuidado de Cristo pelas multidões nos mostra a importância e o propósito da empatia para o conselheiro.

Ao ver as multidões, Jesus se compadeceu delas, porque estavam aflitas e exaustas como ovelhas que não têm pastor. (Mt 9.36)

Empatia: a compreensão do sofrimento das pessoas
Em primeiro lugar, a empatia fala da nossa habilidade e desejo de entender as pessoas e seu sofrimento. Vemos a compreensão de Jesus quando Ele olhou para as multidões. Ele entendeu o quanto elas estavam sofrendo e por que estavam sofrendo. Este é um exemplo perfeito da habilidade de Jesus de diagnosticar os problemas das pessoas. À primeira vista, Ele pôde ver que elas estavam sofrendo, como era esse sofrimento (angústia e desânimo) e a razão por que elas estavam sofrendo (eram ovelhas sem pastor). Em vários lugares nas Escrituras como, por exemplo, Lucas 6:36, somos chamados a nos juntar a Ele neste tipo de atuação: “Sede misericordiosos, como também é misericordioso vosso Pai”.

Outra passagem que fala sobre a necessidade de entender aqueles com quem nos importamos é 1Tessalonicenses 5.14: “Também exortamos vocês, irmãos, a que admoestem os que vivem de forma desordenada, consolem os desanimados, amparem os fracos e sejam pacientes com todos”. Nesta passagem, Paulo nos encoraja a ajudar de diferentes maneiras, dependendo de como as pessoas estão sofrendo ou pecando. Elas estão desanimadas ou estão muito focadas em si mesmas? Elas são fracas ou são indulgentes quanto a um hábito pecaminoso? Esta passagem pressupõe que devemos conhecer e ser capazes de diagnosticar bem os problemas para saber como tratá-los, porque seria cruel repreender os desanimados ou confortar os ociosos. Considere a leitura sábia que David Powlison fez de 1Tessalonicenses 5.14:

Paulo nos ensina a entender nossos irmãos e irmãs em termos das lutas específicas de cada um, para então responder apropriadamente. Ele nunca diz: “Repreenda os desanimados”. Reconhecer seus erros pessoais não é o primeiro passo. Se você começa por repreendê-los, você somente os desencoraja ainda mais.[3]

Devemos procurar entender o problema específico de cada aconselhado antes de decidir o que falar e como falar. Grande parte da eficácia do conselheiro aumenta ou diminui de acordo com esse entendimento e uma “flexibilidade sábia e oportuna”,[4] como disse Powlison. Como fazemos isso?

Empatia: um ponto de partida humilde e indagativo
Em segundo lugar, a empatia fala que devemos iniciar com uma postura de humildade. Começamos abraçando o fato de que não somos Jesus. Não sabemos instintivamente o que está errado com nossos aconselhados. Jesus, como Deus encarnado, não precisava interagir com as pessoas para conhecê-las bem. No entanto, Ele o fez muitas vezes, o que é uma lição para nós. Ele, como Deus criador, conhecia as pessoas mais intimamente do que elas mesmas se conheciam. Não é assim conosco. Devemos nos sentar e ouvir a história do aconselhado, fazer boas perguntas e ajudar essa pessoa a expor o estado do seu coração ao longo de sua história. Portanto, nosso desejo de buscar entendimento deve andar lado a lado com a humildade.

Para sabermos como ajudar nos estágios iniciais do aconselhamento, a humildade é necessária por causa da nossa falta de conhecimento do conteúdo e do contexto da história do aconselhado. Sim, ele pode nos relatar um problema de apresentação e alguns pontos importantes do que estava acontecendo antes de buscar aconselhamento, mas até que nos envolvamos realmente com sua história, não podemos ter ideia de como é o mundo em que ele vive. Portanto, em nossa busca de cuidar como Cristo cuidou, devemos reconhecer, em primeiro lugar, que não somos Cristo e, então, abordar a história do aconselhado com humildade.

Essa humildade deve nos levar inicialmente à indagação. Enquanto estamos ouvindo, é fácil proceder com julgamento[5] em vez de permanecer indagativos. Certamente, precisaremos ajudar a pessoa a fazer julgamentos, alguns baseados em mandamentos bíblicos e outros baseados em sabedoria bíblica, mas um bom aconselhamento procede de forma indagativa. Devemos ter o desejo de entender o contexto de sua história o quanto possível, porque o axioma “o contexto é rei” opera tanto em nossa abordagem das Escrituras quanto na abordagem da história do aconselhado. Jesus pode saltar diretamente do olhar para o julgar e o ajudar, mas nós devemos esperar, ser pacientes e permanecer humildes e indagativos antes de darmos esse salto para julgar e ajudar.

Empatia: uma conexão emocional com as pessoas
Em terceiro lugar, a empatia fala da capacidade de conectar-se emocionalmente com a história do aconselhado. Ouvir a história das pessoas é um esforço confuso, cheio de emoções e dificuldades. Honestamente, porém, é justamente isso que faz com que valha a pena. O objetivo de ouvir e extrair uma história não é uma compreensão fria e racional, mas uma oportunidade de ser tocado por aquela história. As emoções devem ser compartilhadas e retribuídas.[6] Minha dor deve, de alguma forma, provocar dor em você. Minha alegria deve, de alguma forma, provocar alegria em você. Romanos 12.15 nos informa sobre isso: “Alegrem-se com os que se alegram e chorem com os que choram”. Esta não é uma mera ordem que recebemos, mas conectar-se emocionalmente com as pessoas é o padrão da compaixão de Jesus. Lembre-se de que Mateus 9.36, diz que “Jesus se compadeceu” das multidões. A palavra original grega pode ser traduzida de outra forma, dizendo que Jesus foi “movido de compaixão”. Isso quer dizer que Jesus se conectou com a dor das pessoas ao se comover emocionalmente diante da dor que elas provavam, e nós devemos fazer o mesmo.

Empatia: um caminho em direção ao alívio do sofrimento
Por fim, mantendo nosso foco em Jesus, em Mateus 9, devemos fazer a seguinte pergunta: “O que Jesus fez com esse entendimento e emoção?” Ele agiu. Ele viu aquelas multidões, Ele entendeu sua história e foi emocionalmente tocado por aquelas pessoas. Em seguida, Ele agiu para aliviar o sofrimento em que estavam. Se você olhar para o contexto de Mateus 9, esta declaração serve como um ponto de articulação entre duas partes do ministério de Jesus. Antes desta passagem, vemos Jesus indo para as aldeias e curando as pessoas; depois desta passagem, vemos Jesus pregando e enviando Seus discípulos para pregar o evangelho. Esta declaração de que Jesus moveu-se à compaixão deve ser entendida como uma expressão que resume o Seu coração para com as pessoas, nãoso curando fisicamente, mas também pregando o evangelho.

À medida que conhecemos as pessoas, a empatia não é suficiente; ela é essencial e inegociável, mas deve nos mover à ação e à ajuda. Em algum momento, precisaremos abrir nossos lábios e a Bíblia, e levar às pessoas a sabedoria de Deus. Foi assim que Jesus ofereceu ajuda para o sofrimento das pessoas, e nós devemos fazer o mesmo.

O nosso aconselhamento deve ser marcado por um desejo profundo de entender os aconselhados, de nos conectarmos emocionalmente com sua história e permitir que esse entendimento e conexão nos levem a ajudá-los com sabedoria bíblica. Dessa forma, minha oração é que o nosso aconselhamento seja sempre marcado pela empatia e compaixão que seguem o exemplo de Jesus.

Perguntas para reflexão 
1- O que mais o motiva ao ver a maneira de Jesus ministrar às multidões?
2- Seu aconselhamento é marcado por empatia e compaixão? Nesse processo, o que é mais fácil para você? O que é mais difícil?
3- Como você pode crescer nessa área?


[1] Por virtude, quero simplesmente dizer que a empatia deve representar um conjunto de realidades do coração como o desejo de compreender, a humildade e a gentileza, bem como outras que resultam em sabedoria para um bom aconselhamento.
[2] Veja a série de quatro partes Empathy, em rpmministries.com, e minha tese de doutorado, A Biblical Examination of Empathy and Its Implications on the Ministry of God’s Word, defendida em The Southern Baptist Theological Seminary, 2023.
[3] POWLISON, David. Familial counseling: the paradigm for counselor-counselee relationships in 1Thessalonians 5. The Journal of Biblical Counseling, v. 25, n. 1, 2007, p. 11.
[4] Ibid.
[5] Por julgamento, quero dizer duas coisas. Em primeiro lugar, quero dizer que não devemos ser “julgadores”. Em nenhum momento do processo de aconselhamento devemos ser críticos ou condescendentes. Em segundo lugar, também quero dizer que devemos ser lentos no julgar o quanto as escolhas que eles fizeram foram boas ou más. Existem, é verdade, algumas escolhas que são erradas à primeira vista. No entanto, pelo menos parte da história do aconselhado, se não a maior parte, diz respeito a sabedoria no fazer escolhas, o que deve levar em consideração o contexto. Mesmo estando diante de um aconselhado que fez escolhas claramente erradas, a paciência e a humildade são atributos-chave para o conselheiro.
[6] GROVES, Alasdair; SMITH, Winston. Organize suas emoções. São José dos Campos, SP: Fiel, 2023, p. 75.


Joe Hussung faz parte da equipe de conselheiros de Fieldstone Counseling. Ele tem um MDiv em Ministério Cristão e DMin em Aconselhamento Bíblico pelo The Southern Baptist Theological Seminary.


Original do artigo: Empathy: The Counselor’s Virtue
Artigo publicado pela Biblical Counseling Coalition.  Traduzido com autorização.