Quando e como terminar um aconselhamento

Jeremy Pray


Já foi dito que os primeiros encontros de aconselhamento são as mais importantes – e eu concordo. No entanto, não é raro que um conselheiro inicie bem o processo, progrida bem, e mais adiante se pergunte: “Quando e como encerro esse aconselhamento?!?”. Ao refletir sobre os diferentes formatos nos quais essa pergunta costuma aparecer, não consigo deixar de sorrir. Aqui estão alguns deles: 
Eu acho que devo terminar, mas o aconselhado não pensa assim! O que fazer?” 
“O aconselhado acha que devemos terminar, mas eu não concordo! O que fazer?” 
“Eu sei que já deveria ter terminado, mas não sei como! O que fazer?” 
“Ele parece nem precisar de ‘aconselhamento’. O que fazer?” 
“Não acredito que algum dia ele deixará de precisar de aconselhamento! O que fazer?” 
Se você já se fez uma dessas perguntas em algum momento, ou está fazendo uma delas justamente agora, não se preocupe: você está em boa companhia.  

Para considerarmos o término de um aconselhamento formal, precisamos primeiro relembrar o propósito do aconselhamento bíblico. Como conselheiros bíblicos, nosso alvo não é simplesmente resolver problemas ou proporcionar alívio de sintomas e/ou situações indesejáveis. Nosso alvo é apresentar cada pessoa madura em Cristo (Cl 1.28).  

Categoricamente falando, isso significa duas coisas. Em primeiro lugar, devemos lidar amorosamente com a questão específica que trouxe a pessoa ao aconselhamento, ou seja, o problema que ela nos apresenta. Em segundo lugar, devemos ajudá-la a saber crescer em Cristo em todas as áreas da vida. Não perca este segundo ponto. Muitas pessoas querem que a pressão de sua situação de vida e a culpa do pecado sejam aliviadas – o que não é um desejo inerentemente pecaminoso –, mas o alvo da vida cristã não é somente não pecar como também não é somente encontrar alívio de uma situação. O alvo da vida cristã é tornar-se mais semelhante a Cristo (Rm 12.1) e andar no Espírito (Gl 5.16). Portanto, enquanto conselheiros, cabe-nos restaurar com mansidão diferentes aspectos da vida (Gl 6.1). Somente quando tivermos ministrado a Palavra de Deus de forma completa e habilidosa, é que será hora de começar a pensar sobre quando e como encerrar o aconselhamento.  

A propósito, isso não significa que aquele aconselhado nunca mais precisará de aconselhamento, que a santificação e o discipulado acabaram ou que você nunca mais poderá falar com ele. Em vez disso, significa simplesmente que ele não precisa mais de encontros formais e frequentes para tratar os problemas levantados.  

QUANDO devo terminar o aconselhamento? 
Gosto de usar uma prática mnemônica para ajudar a avaliar se um aconselhado está pronto para pararmos os encontros formais regulares. Não dê muita importância à frase em si – ela simplesmente ajuda a resumir algumas considerações. 

“Lembre-se, Deus aplica o aconselhamento do começo ao fim” 

1- Lembre-se – Lembre-se do motivo pelo qual o aconselhado buscou aconselhamento originalmente e verifique se todos os problemas de apresentação foram resolvidos direta ou indiretamente. Quanto mais os encontros começarem a se voltar para assuntos complementares, embora ainda relevantes, mais perto você estará do término do aconselhamento. 

2- Deus – Verifique se o aconselhado sabe o que Deus diz na Bíblia sobre suas lutas e consegue apontar capítulos e versículos que tratam dos problemas com que ele lida – especialmente as questões do coração. É preciso tratar o coração! 

3- Aplica – Se o aconselhado sabe que a Bíblia se aplica de modo prático à vida (Ef 4.22-24), se ele consegue articular um conhecimento teológico consistente, mas ainda não consegue conectar o conhecimento bíblico à sua vida diária, então ele não está pronto. Volte, e certifique-se de que ele saiba aplicar o conhecimento bíblico ao comportamento, mas também ao coração. Não dispense um aconselhado fariseu. 

4- Aconselhamento – O aconselhado já começou a aconselhar a si mesmo. Em outras palavras, ele assume a responsabilidade por seus erros, consegue diagnosticá-los biblicamente com precisão e sabe como encontrar soluções bíblicas por conta própria, sem a sua orientação.

5- Do começo ao fim – Considerando do começo ao fim o tempo que vocês passaram juntos, as mudanças podem ser identificadas. Isso significa que você não só pode listar e documentar as mudanças, mas também pode vê-las e concordar com elas.  

Esta estrutura não pretende ser uma lista rígida de verificação, mas seu propósito é oferecer categorias para você refletir ao determinar o momento de terminar o aconselhamento. No entanto, se o que vimos até aqui parece mais complicado do que você esperava, prove fazer o seguinte: em vez de se perguntar “Por quanto tempo mais este aconselhado precisa de mim como conselheiro?”, aprenda a se perguntar “Por quanto tempo este aconselhado conseguirá prosseguir bem sem os encontros comigo?”. A primeira pergunta se concentra no passado — o que aconteceu. A segunda olha para o futuro — como o aconselhado lidará com os desafios futuros. Um aconselhado maduro não só resolveu os problemas de ontem por seguir os seus conselhos, mas ele está preparado para os problemas de amanhã, porque agora conhece e confia em Cristo e na Sua Palavra.

COMO vou fazer para terminar o aconselhamento? 
Supondo que você considere que é hora de terminar o aconselhamento, deixe-me oferecer quatro estratégias para você considerar sobre como terminar bem:  

1- Faça gradualmente 
Avise. Avise com vários encontros de antecedência que o aconselhamento está se aproximando do fim. Não os surpreenda. 
Teste a independência. Aos poucos, seja menos específico nas atividades práticas que você atribui. Considere pedir que eles criem a própria tarefa e veja como se saem. 
Espace os encontros. Mude de encontros semanais para encontros quinzenais, e assim por diante.  

2- Deixe instruções 
Pense em oferecer um “plano de três meses para crescimento espiritual”. Resumindo, a ideia é dar ao seu aconselhado um plano por escrito para implementar as disciplinas da vida cristã. Em outras palavras, trabalhe com as seguintes questões:  
— Em que consistirá seu plano de leitura da Bíblia? 
— Quais livros, passagens e versículos memorizados serão mais úteis para sua caminhada com Cristo daqui para frente? 
— Como estruturar de maneira viável sua vida de oração? 
— Como você servirá a sua igreja local? 
— Quais são seus planos para comunhão com a igreja local, discipulado e participação em um pequeno grupo? 
— Quais cânticos, podcasts ou sermões você pode escutar e quando? 
— Que outros recursos você consultará para um aprendizado contínuo? 
Planos escritos podem parecer um exagero para alguns, mas acredite que, quando vier a tentação de voltar aos velhos hábitos, seu aconselhado apreciará ter um plano personalizado para consultar imediatamente. 

3- Trace um plano de acompanhamento 
Se possível, planeje conversar com ele algumas semanas depois do encerramento da sequência de encontros. Pode ser um novo encontro agendado ou uma simples conversa após o culto. Para aproveitar ao máximo o tempo, pergunte sobre o plano de crescimento espiritual que foi elaborado para os três meses.  

4- Conecte seu aconselhado à igreja local 
Este passo é essencial. O término dos encontros deve sempre consistir na transferência do aconselhado de um discipulado intensivo com o conselheiro para o pastoreio e discipulado contínuo na igreja. Na verdade, incentive seu aconselhado a buscar discipulado e pastoreio desde o início do processo de aconselhamento, para que você possa facilmente dispensá-lo sabendo que estará envolvido na vida de corpo da igreja. Isso significa encorajar seu aconselhado à prática dos meios comuns de graça como adoração corporativa, participação em um pequeno grupo, relacionamentos contínuos de discipulado e serviço, à medida que ele continua a crescer em semelhança a Cristo. Terminar os encontros de aconselhamento não é um simples encerramento, mas a transferência de alguém para algo — isto é, para a igreja. Pense em transferência, não em corte. 

Conclusão 
O encerramento um caso de aconselhamento é tão importante quanto o início. Quando bem-feito, não se trata de um abandono, mas de um ato de entrega a Deus, à Sua Palavra e à Sua igreja. Como conselheiros, nosso objetivo não é criar dependência de nós mesmos, mas equipar as pessoas para que dependam de Cristo. Deus pode confiar nossos aconselhados a nós por um período determinado, mas Ele é fiel em trazer outros crentes àquelas vidas para um discipulado contínuo, e somente Ele concede o crescimento em Seus filhos (1Co 3.6-9). Para que isso aconteça, que Deus ajude nossas igrejas a cuidarem bem daqueles a quem Ele ama profundamente.


Jeremy Pray atua como pastor de aconselhamento bíblico e copastor executivo na Igreja NorthCreek em Walnut Creek, Califórnia. Como membro da ACBC, ele também supervisiona o centro de treinamento da ACBC em NorthCreek.


Original: When and How to Graduate a Counselee
Artigo publicado originalmente em Association of Certified Biblical Counselors
Tradução e adaptação para o português de Conexão Conselho Bíblico com permissão.