Heath Wilson

O chamado para ajudar a plantar uma igreja é um dos mais empolgantes e desafiadores que Deus pode fazer. Seja um jovem chamado para pastorear, uma mulher chamada para auxiliar e apoiar, ou uma família chamada a deixar tudo para investir em uma nova comunidade, o plantio de igrejas é um chamado maravilhosamente desafiador. No entanto, o antigo e verdadeiro ditado “Deus capacita os chamados” serve como uma grande fonte de encorajamento para aqueles que desejam se dedicar à boa obra de plantar igrejas em regiões nas quais ainda não há igrejas saudáveis.
Muitas igrejas locais já estabelecidas e organizações paraeclesiásticas fazem de sua missão capacitar os chamados, e muitas delas fazem um excelente trabalho ao lançar a visão, oferecer treinamento e fornecer apoio contínuo aos missionários e suas famílias. Muitas organizações, trabalhando em parceria com igrejas, são usadas por Deus para ensinar aos plantadores de igreja a “arte” de compreender as regiões, envolver-se nas comunidades e lançar amplamente a semente do Evangelho. Essas habilidades — e muitas outras — são de grande utilidade prática no plantio de igrejas, seja no próprio país, seja ao redor do mundo.
Embora muitas dessas ferramentas – por exemplo, habilidades administrativas, conhecimento da vizinhança, busca de um local de reunião, entre outras – sejam necessárias no caixa de ferramentas do plantador de igrejas, o aconselhamento bíblico talvez não venha à mente como um instrumento essencial, digno de atenção e consideração. Contudo, um novo plantador de igrejas comete um grande erro se não incorporar o aconselhamento bíblico à cultura desse novo trabalho. Na verdade, ele não está apenas prejudicando a si mesmo e sua futura igreja; está privando sua igreja de uma das maiores ferramentas de disponíveis junto ao discipulado: o aconselhamento pela Palavra!
Muitos consideram o apóstolo Paulo o maior plantador de igrejas da história. Em seu discurso final aos presbíteros da igreja em Éfeso (Atos 20.17-38), somos informados sobre o tipo de ministério que Paulo exerceu — um ministério de admoestação. O versículo 31 diz: “Portanto, vigiem, lembrando que, durante três anos, noite e dia, não cessei de admoestar, com lágrimas, cada um de vocês”. O termo grego traduzido como “admoestar”, νουθετέω (noutheteó), significa advertir, corrigir ou instruir. Nouthesia é o termo que inspirou Jay Adams, fundador do movimento moderno de aconselhamento bíblico, a cunhar o termo aconselhamento noutético, que ele descreve como uma confrontação amorosa, movida por profunda preocupação, para ajudar pessoas a fazerem as mudanças que Deus requer.
Hoje podemos dizer que aquilo que conhecemos como aconselhamento bíblico foi um elemento essencial do tempo de Paulo em Éfeso, especialmente em seu ministério àquela igreja. Ele praticou esse tipo de aconselhamento continuamente, “noite e dia”. Se você deseja plantar uma igreja como Paulo plantou, o ministério da Palavra deve ser central na vida da igreja — tanto no aspecto público (a pregação) quanto no particular (o aconselhamento).
O aconselhamento bíblico é a aplicação intensiva das Escrituras aos problemas que as pessoas enfrentam, com o propósito distinto de glorificar a Deus e ajudar os santos a progredirem em sua santificação. O aconselhamento bíblico leva a sério as palavras do apóstolo Paulo em 2Timóteo 3.16, 17: “Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça, a fim de que o servo de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra”. Essa passagem reforça a confiança dos pastores enquanto proclamam a Palavra nos púlpitos. Assim como os pastores, os conselheiros bíblicos também ensinam a Palavra com confiança — ainda que em um ambiente diferente do da pregação. Por causa da convicção comum no poder de Deus e em Sua Palavra para transformar vidas, tanto pastores quanto conselheiros bíblicos dependem em oração do Espírito Santo para ministrar a Palavra de Deus — autoritativa e suficiente — às almas, seja no ambiente de aconselhamento ou nos bancos da igreja. Portanto, se você vai plantar uma igreja que prega a Palavra, por que não também aconselhar pela Palavra? Se a Palavra é suficiente para lidar com as preocupações das pessoas a partir do púlpito, por que não seria suficiente para lidar com as mesmas preocupações no ambiente de aconselhamento?
As palavras de Pedro em 2Pedro 1.3 solidificam a convicção de que a Bíblia é suficiente para ajudar as pessoas com os problemas da vida: “Pelo poder de Deus nos foram concedidas todas as coisas que conduzem à vida e à piedade, pelo pleno conhecimento daquele que nos chamou […]”. Os escritos de Pedro nos lembram que Deus concedeu aos seus filhos tudo o que é necessário para a vida e a piedade, por meio do conhecimento de Jesus Cristo. Esse conhecimento nos vem pela Palavra inspirada de Deus!
Tendo estabelecido brevemente a suficiência e a instrumentalidade das Escrituras no aconselhamento, deixo um apelo aos plantadores de igrejas: “Certifiquem-se de que vocês e suas equipes de plantio estejam preparados para aconselhar as pessoas nos problemas da vida usando a Bíblia”. Nenhuma igreja saudável enviaria um missionário que não soubesse “pregar a Palavra”; da mesma forma, não deveriam enviar alguém que não soubesse “aconselhar pela Palavra”. A seguir, apresento brevemente algumas razões pelas quais os plantadores de igrejas devem dedicar tempo para se preparar no aconselhamento bíblico.
Em primeiro lugar, o aconselhamento bíblico demonstra a eficácia e a utilidade da Palavra de Deus diante dos problemas humanos (Sl 19.7-11). Embora a Bíblia tenha sido escrita para nós, e não a nós como público original, ela trata de nossos problemas de modo muito mais profundo, abrangente e verdadeiro do que qualquer outra metodologia de aconselhamento, porque ela é a Palavra do Deus Vivo. As novas ovelhas de um novo rebanho precisam saber que o Pastor fala com elas hoje; Ele fala em meio às Suas dores mais profundas e situações mais confusas (Jo 10.14-28; Sl 23; Hb 13.20, 21). O aconselhamento bíblico demonstra o poder da Palavra de Deus para trazer esperança e mudança em meio aos nossos problemas, como diz o salmista: “O que me consola na minha angústia é isto: que a tua palavra me vivifica” (Sl 119.50).
Em segundo lugar, o aconselhamento bíblico melhora sua pregação. Seria estranho encontrar um plantador de igrejas que não ama pregar. A pregação bíblica é uma prática ordenada à igreja. Enquanto o mundo oferece palestras e conferências, o povo de Deus prega e ouve a pregação da Palavra de Deus. O aconselhamento bíblico, embora distinto da pregação, compartilha com ela muitos elementos — principalmente o conteúdo (a Bíblia), o público (o povo de Deus), o meio (compreensão e aplicação da Bíblia) e o objetivo (crescimento espiritual). O aconselhamento bíblico requer que se pense de modo específico sobre como as passagens bíblicas se aplicam e como a transformação espiritual realmente ocorre. Como uma pessoa muda? O conselheiro bíblico deve lidar com essa questão e respondê-la, ajudando o aconselhado a aplicar a Palavra de Deus à sua vida de forma correta e concreta (Efésios 4.20-32). Se um pastor quer pregar visando a transformação de seus ouvintes, o aconselhamento bíblico o treinará e ajudará a crescer nisso.
Em terceiro lugar, o aconselhamento bíblico ajuda a produzir discípulos maduros. Deus é quem nos amadurece na fé, mas Ele faz isso principalmente por meio das Escrituras (Jo 17.17). Todas as igrejas precisam de crentes maduros, dispostos e desejosos de servir e fazer discípulos. Que plantador de igrejas não precisa de mais homens e mulheres preparados para servir? Que plantador não precisa de mais pessoas para ajudar a carregar o peso do discipulado (Gl 6.1-5)? Que plantador não precisa de membros que sirvam ao corpo de forma altruísta e sacrificial (Fp 2.1-5)? Se você quer cristãos maduros em sua congregação, ajude-os a crescer à semelhança de Cristo em seus problemas por meio da aplicação pessoal e específica das Escrituras no aconselhamento.
Em quarto lugar, o aconselhamento bíblico oferece à sua comunidade um meio adicional de missão. Questões de saúde mental tornaram-se cada vez mais presentes em nossa cultura terapêutica nos últimos anos. Consequentemente, à medida que cresce a demanda por cuidados psicológicos, também cresce o número de profissionais — porém, seus conselhos muitas vezes são contrários à Bíblia (Cl 2.8, 23; 1Co 2.14-16). Embora existam muitas teorias e metodologias de aconselhamento, apenas as verdades enraizadas nas Escrituras conseguem alcançar a profundidade do coração humano, capacitando-o sobrenaturalmente a amar a Cristo acima de tudo. Se você quer espalhar a luz Cristo, plante uma igreja que aconselhe biblicamente.
Querido missionário e plantador de igrejas, certifique-se de que você e sua equipe estejam preparados para cuidar do futuro rebanho aprendendo a aconselhar pela Palavra. Hoje, isso não é difícil. Há vários cursos e conferência de aconselhamento bíblico para guiá-lo por um processo de preparo que certamente o desafiará no conteúdo teológico e na pratica, capacitando-o para usar com mais competências a Palavra de Deus. Pregue a Palavra – sim! Plante igrejas ao redor da Palavra – sim! Mas também leve a sério preparar-se para o aconselhamento bíblico. Aconselhe pela Palavra!
Heath Wilson tem mais de dez anos de experiência no ministério pastoral, tanto nos Estados Unidos quanto no exterior. É certificado pela ACBC. Além de ser responsável pela área de aconselhamento na Hillcrest Baptist Church, em Pensacola (FL), ele também leciona como professor adjunto no departamento de Aconselhamento Bíblico do Midwestern Baptist Theological Seminary, onde também está cursando o doutorado (Ph.D.) em Aconselhamento Bíblico.
Original: Are You Planting a Church Without Biblical Counseling?
Artigo publicado originalmente em Association of Certified Biblical Counselors
Tradução e adaptação para o português de Conexão Conselho Bíblico com permissão.