Kevin Carson

Seu adolescente está sendo discipulado diariamente, dia e noite, por vozes que você não escolheu, pessoas que você não conhece e sistemas projetados não para guiar sua alma, mas para capturar sua atenção. Os adolescentes de hoje interagem continuamente com um ecossistema digital que inclui redes sociais, YouTube, jogos, inteligência artificial e acesso a vários aplicativos no celular. O dia todo, todos os dias, a compulsão para pegar o celular e assistir a mais um episódio de uma série é crescente. A estimulação constante do mundo digital pressiona diretamente seu coração. Esse ecossistema, frequentemente, molda a identidade, os desejos, os relacionamentos, as emoções, a visão de mundo e os hábitos do seu adolescente.
Atualmente, as famílias enfrentam algumas realidades um tanto diferentes daquelas enfrentadas pelas gerações anteriores. O que meus filhos enfrentam ao criar os próprios filhos eu não enfrentei ao criar os meus, e certamente meus pais também não. Reconheça isto: todo adolescente está sendo discipulado por alguém, na família ou na igreja, ou por um algoritmo. Para muitos, a triste realidade é que a tecnologia se tornou o principal ambiente de formação espiritual.
Embora os desafios atuais podem ser um pouco mais complexos, as responsabilidades permanecem. Os pais ainda precisam pastorear o coração dos filhos, os avós precisam conhecer as pressões, e os conselheiros precisam enxergar o potencial da tecnologia para tentar ao mal ou ser uma forma de escape da vida real.
Os adolescentes precisam adquirir uma visão bíblica da vida digital. A tecnologia não é inerentemente pecaminosa. No entanto, ela oferece oportunidades para pecar. Ela amplifica desejos já presentes no coração. Esta é uma séria ameaça para todas as pessoas, mas precisamos entender por que os adolescentes são especialmente vulneráveis. Eles enfrentam pressões crescentes como o reforço de dopamina proporcionado pela tecnologia, além de pressões relacionadas à identidade, e a FOMO[1], a solidão, o desejo de pertencimento e os mecanismos de fuga.
Desafios que as famílias enfrentam
A forma de as pessoas interagirem umas com as outras e com os diversos tipos de conteúdo nas redes sociais e tecnologias disponíveis atualmente revela o que está em seu coração. As plataformas digitais expõem a ira, revelam a cobiça, incentivam a inveja, alimentam o orgulho, facilitam a fuga da realidade e aumentam a comparação. Por meio delas, muitos violam os mandamentos de Cristo sobre o amor e unidade (Jo 13, 17). À medida que o engajamento aumenta, muitas vezes os mandamentos de Cristo se perdem, e os indivíduos deixam de demonstrá-los. Conforme isso acontece, o mundo percebe a impotência do evangelho. Os seguidores de Cristo abraçam cada vez mais a sabedoria do mundo. Contudo, visto que o problema, em última análise, é uma questão do coração revelada pela tecnologia, precisamos de algo mais do que regras. Precisamos de uma estrutura bíblica.
Princípios bíblicos para o discernimento digital
Antes de falarmos sobre o uso das redes sociais, é preciso destacar alguns princípios bíblicos que devem orientar nossa maneira de pensar e nossas ações. Três passagens específicas ajudam a formar uma base sólida para aproveitar as oportunidades do mundo digital para a glória de Deus. Conforme mencionado acima, os dois maiores mandamentos (Mt 22.37-39) oferecem um excelente ponto de partida. Antes de interagir, postar ou jogar, devemos começar com as perguntas: Isso demonstra amor a Deus? Isso demonstra amor ao meu próximo?
Ao fazemos essas duas perguntas que nos remetem ao amor a Deus e ao próximo, também precisamos estar seguros quanto à nossa identidade e nossa união com Cristo (Ef 2; Cl 3). Precisamos saber o que significa estar em Cristo em termos de união e identidade.
Nossa identidade está fundamentada em Cristo. Somos criação de Deus, ressuscitados com Cristo e filhos de Deus. Somos herdeiros com Cristo. Ele nos redimiu, santifica e jamais nos abandona. Na verdade, porém, é mais do que isso. Lembramos que união e identidade também implicam uma transformação em nosso coração e comportamento. Lembramos de ser honestos, de estar bem informados, atacar o problema e não a pessoa, e agir em vez de reagir (Ef 4; Cl 3). À medida que a Palavra de Cristo habita ricamente em nós, tudo o que fazemos, em palavras ou ações, nós o fazemos em nome de Cristo. Estabelecida esta base, podemos prosseguir.
Medidas práticas de proteção para famílias
A tecnologia não é inerentemente pecaminosa, mas deve ser usada com discernimento e sabedoria. As famílias podem começar com perguntas sábias: O tempo gasto em frente às telas é equilibrado? O YouTube ou os jogos on-line moldam a identidade do meu filho mais do que Cristo ou as Escrituras? Os relacionamentos reais estão sendo prejudicados? Os relacionamentos on-line estão expressando amabilidade?
- Monitorar a tecnologia com prestação de contas. Pratique a prestação de contas o quanto possível. Você pode usar programas de monitoramento, intervalos de tempo predefinidos para acesso à internet, permissões para o uso de aplicativos e verificações regulares do histórico. No entanto, lembre-se de não somente gerenciar os dispositivos, mas guiar corações.
- Promover a comunicação aberta. Converse com seus filhos. Ouça atentamente. Faça perguntas sobre a tecnologia e o uso que o adolescente faz dela. Seja honesto e aberto sobre suas próprias dificuldades. Por quê? Porque pais, avós e outros membros da igreja são chamados a pastorear corações, não apenas controlar telas.
- Ensinar aos adolescentes as limitações da IA e dos algoritmos. Eles precisam entender que a IA não tem alma, não foi feita à imagem de Deus e não possui emoções ou sentimentos. Em vez disso, ela responde às nossas perguntas por meio de algoritmos, sem sabedoria. Ela não é uma pessoa. A IA não tem experiência de vida, não tem amigos nem família. Ela não é um ser humano. Ela não pode substituir uma pessoa, por mais que o algoritmo procure fazer com que ela simule uma experiência humana.
- Ser um modelo na busca de ajuda com pessoas tementes a Deus. Enquanto pais, avós e líderes, sejam modelo de como e onde buscar a ajuda de outras pessoas. Expliquem ao adolescente a importância de conversar com adultos e amigos que o conhecem, o amam e convivem com ele. Os conselhos e as respostas que ouvirão, ainda que possam ser incompletos, serão superiores aos conselhos de uma inteligência artificial sem alma ou de um desconhecido na internet. Incentivem o adolescente a conversar com os pais ou um membro da família, com seu pastor, com um conselheiro bíblico ou uma pessoa madura espiritualmente em sua igreja. Esta é a realidade válida para todo adolescente: embora a inteligência artificial possa dar informações, ela não pode transmitir sabedoria e amor, ou oferecer prestação de contas. Deus criou pessoas, não máquinas, para cuidar da alma.
- Orar fervorosamente pelos adolescentes e com eles. Isso é fundamental. Permita que o adolescente ouça você se dirigir a Deus em favor dele. Por meio da sua oração, ensine-o a orar. Além disso, ajude-o a entender pelo que você está orando e o que você anseia ver na vida dele, de maneira que honre a Deus.
A tecnologia pode ser usada para o bem
Existem vários usos positivos da tecnologia. Jogar com outras pessoas pode ser um ponto de conexão. O YouTube pode proporcionar oportunidades de aprendizado valioso. As plataformas on-line podem ser lugares onde os adolescente podem receber encorajamento e compartilhar pedidos de oração. No entanto, essas oportunidades e benefícios são secundários em comparação com os relacionamentos e os pontos de conexão presenciais, e o encorajamento que pode ser obtido pelo convívio com aqueles que o adolescente interage pessoalmente no dia a dia.
Tecnologia! Neste momento, não podemos viver sem ela. No entanto, ela requer atenção redobrada no processo de formação espiritual dos nossos adolescentes. Como pais, avós, líderes e conselheiros, devemos interagir intencionalmente com eles, conversando sobre tudo o que a tecnologia envolve. Literalmente, a vida espiritual, intelectual, emocional, mental e física dos adolescente depende de oferecermos essa orientação.
A questão não é se seu adolescente está sendo discipulado. A questão é: quem está sendo o discipulador? Os pais? A igreja? Ou o algoritmo?
Perguntas para reflexão
- O que a sua vida digital revela sobre o que você mais ama?
- Se alguém tivesse a oportunidade de conhecer a Cristo somente através da sua presença digital, o que essa pessoa aprenderia?
- Será que outros cresceriam espiritualmente através do que que você posta na rede, ou passariam fome espiritualmente?
[1] FOMO refere-se à sigla para Fear of Missing Out, que em português significa “medo de ficar de fora”. É uma sensação de ansiedade e apreensão de que outras pessoas estão vivenciando experiências gratificantes ou felizes enquanto você não está presente, frequentemente impulsionada pelo uso intenso de redes sociais.
Kevin Carson atua como Diretor Executivo da Biblical Counseling Coalition (BCC). Sua paixão pelo aconselhamento bíblico centrado em Cristo e fundamentado nas Escrituras foi moldada por mais de 30 anos de ministério pastoral, ensino e aconselhamento, com um profundo compromisso em fortalecer o aconselhamento bíblico dentro e através da igreja local. Ele é um dos membros fundadores da BCC. Ele é pastor titular da Sonrise Baptist Church in Ozark, Missouri, função que exerce desde a fundação da igreja em 2002. Também leciona aconselhamento bíblico em cursos de graduação e pós-graduação desde 1999, e atuou como professor e chefe do Departamento de Aconselhamento Bíblico na Mission University, além de servir como professor adjunto e preletor em diversas instituições. Kevin Carson obteve seu Mestrado em Divindade pela Baptist Bible Graduate School e o Doutorado em Ministério pelo Westminster Theological Seminary, com formação doutoral sob a supervisão do corpo docente da Christian Counseling and Education Foundation (CCEF). É um conselheiro bíblico certificado pela Association of Certified Biblical Counselors (ACBC) e pela International Association of Biblical Counselors (IABC). Escreve regularmente em kevincarson.com.
Original do artigo: Shepherding Your Teen’s Heart in a Digital World
Artigo publicado pela Biblical Counseling Coalition
Traduzido e adaptado para o português com autorização.