Os “benefícios” da falta de perdão

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Paul D. Tripp

Por que as pessoas não perdoam? Esta é uma pergunta muito boa. Se perdão é o caminho certo e mais benéfico, por que não é o mais popular? A triste realidade é que a recusa do perdão proporciona, por algum tempo, um senso de poder destruidor sobre as pessoas. Reter o erro que outros cometeram coloca-nos em posição superior nos relacionamentos. Mantemos um registro dos erros cometidos contra nós porque não somos motivados por aquilo que honra a Deus e é melhor para os outros, mas por aquilo que é conveniente para nós mesmos. Aqui estão alguns dos “benefícios” nefastos da falta de perdão.

1) A dívida confere-nos poder . Há poder em ter algo para lançar contra outra pessoa. Há poder em fazer pesar sobre outra pessoa seus erros e fracassos. Nos momentos em que queremos prevalecer, lançamos mão de algum mal cometido contra nós como trunfo no relacionamento.

2) A dívida confere-nos identidade. Agarrarmo-nos ao pecado, aos erros e fracassos de outras pessoas confere-nos um senso de superioridade com relação a elas. Permite-nos acreditar que somos mais justo e maduros. Caímos no hábito de buscar  nossa identidade não no chamado e encorajamento do Evangelho, mas na comparação com os outros. Este hábito favorece a justiça própria, que é a luta de cada pecador.

3) A dívida confere-nos um direito. A outra pessoa tem uma dívida para conosco por todos os erros que cometeu. Reter esses erros nos faz sentir merecedores de algo e, portanto, confortavelmente centrados em nós mesmos e exigentes para com aquela pessoa. “Depois de tudo que eu tive de suportar no relacionamento com você…”

4) A dívida é uma arma. Os pecados e erros que outra pessoa cometeu contra nós, e que ainda guardamos conosco, são como uma arma carregada. É uma grande tentação retirá-los e usá-los quando estamos com raiva. Quando alguém nos fere de alguma forma, é uma grande tentação também ferir, lembrando o quão má e imatura aquela pessoa é.

5) A dívida coloca-nos na posição de Deus. Trata-se do único lugar onde nunca devemos estar, mas é também uma posição na qual todos nós nos colocamos. Não nos cabe julgar aqueles que nos ofendem. Não somos nós que devemos administrar a punição. Não é nossa tarefa certificarmo-nos de que eles sintam a quantidade adequada de culpa por aquilo que fizeram. No entanto, a tentação de assumirmos o lugar de Deus, e atuarmos como juízes no trono, é grande.

Esse estilo de vida relacional é algo sórdido, impulsionado por um egoísmo abominável. É motivado por aquilo que queremos, aquilo que pensamos necessitar e sentimos. É alheio ao desejo de agradar a Deus nos relacionamentos, e certamente não tem nada a ver com o que significa amar uns aos outros em meio à luta para vivermos como Deus quer que vivamos neste mundo caído. Também revela uma cegueira assustadora. Colocamos o foco de tal forma nos erros dos outros que ficamos cegos para nós mesmos. Esquecemo-nos de quantas vezes nós falhamos, do quanto o pecado tinge tudo aquilo que  fazemos e do quanto nós mesmos precisamos desesperadamente da graça que nos é concedida diariamente, mas que não nos dispomos a oferecer aos outros. Este estilo de vida transforma as pessoas com quem convivemos em nossos adversários e transforma o ambiente em que vivemos numa zona de guerra.

Ainda assim, todos nós temos sido seduzidos pelo poder de não perdoar. Todos nós temos utilizado o pecado de outra pessoa contra ela. Todos nós já agimos como juízes. Todos nós já nos consideramos mais justos do que as pessoas ao nosso redor. Todos nós temos usado o poder da culpa para obter o que queremos e quando queremos e, com isso, não só causamos sérios danos aos nossos relacionamentos mais preciosos, mas também demonstramos  o quanto nós necessitamos de perdão.

Parece quase óbvio demais para ser dito, mas o perdão é um caminho muito melhor. A graça da nossa salvação é o argumento final para esta verdade. O perdão é a única forma de viver em relacionamento íntimo e continuado com outro pecador. O perdão é a única forma de lidar com os erros e fracassos que marcam diariamente nossos relacionamentos. Ele é a única forma de lidar com a dor e a decepção. O perdão é a única forma de ter a esperança e a confiança restauradas. É também a única forma de proteger o amor e reforçar a unidade que você construiu. O perdão é a único escape para não ser sequestrado pelo passado. Ele é a única forma de dar aos seus relacionamentos a bênção de um recomeço e um ponto de partida renovado. A graça de perdoar é mesmo o melhor caminho. É maravilhoso saber que você não foi apenas chamado para perdoar, mas também foi agraciado com tudo aquilo de que necessita para responder a este chamado.

Original

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