Quem disse que a medicina e a medicação são desprezíveis?

Heath Lambert

Aconselhamento e medicação
Os conselheiros que se identificam com o aconselhamento bíblico tcostumam ser vistos como pessoas contrárias ao uso de medicamentos psiquiátricos. Visto que a próxima conferência anual da Association of Certified Biblical Counselors (ACBC) tem como tema a doença mental, temos escrito vários artigos sobre medicação e doença mental ao longo do ano do ano de 2014.[1]  Cada vez que escrevo sobre aconselhamento e questões médicas, deixo claro que o cuidado físico com o corpo é importante, e que os conselheiros não devem atuar como médicos e levar as pessoas a parar de fazer uso dos medicamentos que lhes foram prescritos. Apesar desses esclarecimentos, as pessoas costumam acusar-me e acusar outros conselheiros bíblicos também, dizendo que somos contrários à medicina e à medicação.

Quem odeia a medicina e a medicação pode, por favor, levantar-se?
Esse quadro faz com eu me pergunte qual a origem dessa acusação. Quem está dizendo que a medicina e a medicação não são importantes? Alguém deve estar fazendo isso. Na verdade, alguém me disse durante uma conversa recente: “Bem, você pode não estar dizendo isso, mas outros conselheiros bíblicos estão”. Quando indaguei sobre a identidade desses outros conselheiros bíblicos nenhum nome foi mencionado.

Isso me fez pensar sobre os líderes no aconselhamento bíblico e suas declarações a respeito desse assunto. Acredito que qualquer avaliação objetiva do aconselhamento bíblico como movimento apontaria para quatro grandes líderes no desenvolvimento do nosso modelo de aconselhamento: Jay Adams e Wayne Mack, que tiveram um papel fundamental como iniciadores do atual movimento, e David Powlison e Ed Welch, que desenvolveram significativamente o movimento nos últimos anos. Cada pessoa que hoje abraça e pratica o aconselhamento bíblico aprendeu sobre o aconselhamento com pelo menos um desses quatro homens.

O que eu fiz, então, foi partir em busca de declarações sobre aconselhamento e questões médicas vindas do ensino desses quatro homens. Aqui está um breve e incrível resumo do que eu encontrei.

Jay Adams
Em Conselheiro capaz, o primeiro livro de Jay Adams sobre aconselhamento, ele apoiou claramente a presença da doença e a necessidade de médicos, incluindo psiquiatras, para o cuidado das pessoas que precisam de ajuda. Em What about nouthetic counseling?, um livro escrito alguns anos depois de Conselheiro Capaz, Adams disse o seguinte:

Está perfeitamente claro que […] as doenças podem afetar e de fato afetam o comportamento. Em tais casos, devemos buscar e recomendar a ajuda médica, e nos manter em oração.

Wayne Mack
Em Counseling: how to counsel biblically, Wayne Mack diz o seguinte sobre o aconselhamento e as questões médicas:

Às vezes, a doença pode ser causada pelo pecado pessoal (Sl 32. 3, 4; 38. 3; Pv 14.30; 1Co 11.30). No entanto, a doença que não é causada pelo pecado pessoal também pode ser um fator importante nas lutas e tentações que os nossos aconselhados enfrentam. Por exemplo, doenças como viroses, hepatite, mononucleose, diabetes e hipotireoidismo estão associadas à depressão. Em muitos casos, quando os cristãos são afetados por uma dessas condições clínicas, os sintomas de depressão pode ser simplesmente uma consequência do cansaço e desconforto causado pela doença. Não devemos, portanto, presumir que todos os casos de depressão sejam resultado direto do pecado pessoal. A depressão poderia ser aliviada ou eliminada com um simples diagnóstico e tratamento correto de um problema clínico.

Ele prossegue e acrescenta:

Não é o nosso papel como conselheiros bíblicos prescrever medicamentos nem retirar os medicamentos que foram receitados aos aconselhados.

Ed Welch
O livro de Ed Welch Blame it on the brain é um esforço maravilhoso de reafirmar o ensino bíblico de que os seres humanos são constituídos por corpo e alma. Ele desenvolve, de capítulo em capítulo, uma análise cuidadosa que enfatiza a importância do corpo, a importância da alma e a importância de cuidar de cada um deles. A questão central do livro é ajudar os cristãos a perceberem a diferença entre as questões espirituais, os problemas físicos e a combinação de ambos, para que possam ajudar as pessoas de forma mais efetiva.

Ed Welch diz:

Visto que tratamos os problemas físicos e os problemas espirituais de maneiras diferentes, precisamos saber distinguir entre eles. Nós nos dirigimos dos problemas físicos com compreensão, compaixão e ensino criativo. Também nos dirigimos aos problemas espirituais com compreensão, compaixão e ensino criativo, mas o conteúdo do ensino é a lei de Deus e o Evangelho de Jesus, e a resposta é o arrependimento e a fé, em vez de compreensão intelectual ou uma simples mudança de comportamento.

Ao longo de seu livro, Ed Welch admite e incentiva o cuidado médico para os problemas médicos.

David Powlison
David Powlison é autor do documento Afirmações e negações, que muitos têm usado como um padrão de declaração de fé e prática no aconselhamento bíblico. Powlison diz nesse documento:

Afirmamos que a graça comum e providencial de Deus traz muitas bênçãos – bênçãos tanto individuais como sociais: por exemplo, tratamentos médicos, recursos econômicos, justiça, proteção aos fracos, oportunidades educacionais.[2]

“Onde está a essência da questão?”[3]
Mais uma vez, este é apenas um pequeno levantamento. Cada um desses homens disse muito mais sobre a importância dos cuidados médicos para os problemas médicos. E além desses, outros conselheiros bíblicos disseram muito mais.

Minha ênfase é que mesmo uma leitura superficial dos escritos dos líderes no aconselhamento bíblico indica que eles têm articulado cuidadosamente sua crença na importância do corpo e do tratamento médico. Não consigo encontrar nenhuma indicação de que a liderança intelectual do aconselhamento bíblico como movimento tenha dado alguma voz à prática perigosa de ignorar as doenças orgânicas ou incentivar a rejeição dos cuidados médicos.

Se isso é verdadeiro, então como é que o aconselhamento bíblico ganhou essa reputação?
Acredito que existem quatro respostas para essa pergunta.

1. Contaram-me que alguns conselheiros dizem de fato aos seus aconselhados que parem de tomar a medicação.
Uso a expressão “contaram-me” porque eu realmente não conheço ninguém que tenha dito a um aconselhado que ele deveria parar de tomar os medicamentos prescritos. Acredito naquilo que algumas pessoas me contam, mas não consegui constatar isso de primeira mão.

Os conselheiros que praticam tal comportamento não devem fazê-lo. Na verdade, os conselheiros certificados pela ACBC não estão autorizados a fazê-lo. Simplesmente não é o papel de um conselheiro atuar como médico.

Se um conselheiro lhe disse que você deve parar de tomar seus medicamentos, ou se você conhece alguém a quem isso tenha sido dito, eu tenho uma mensagem para você: este conselho é errado, e não tem a aprovação do movimento de aconselhamento bíblico do qual a ACBC tem feito parte ao longo de décadas.

2. Muitos aconselhados não gostam de tomar os medicamentos psiquiátricos.
Em meu ministério de aconselhamento, nunca sugeri a um aconselhado que ele parasse de tomar os medicamentos prescritos por um médico. Raramente levanto com os aconselhados a questão da medicação. Meus aconselhados, porém, levantam muito essa questão. Na verdade, dos aconselhados que já tive, foram poucos aqueles que estavam tomando medicamentos psiquiátricos e que não levantaram esse assunto. Muitos dos meus aconselhados expressam um forte desagrado com esses medicamentos.

Às vezes, os aconselhados têm razões muito boas para não gostar da medicação. Eles podem não ver melhora nenhuma em sua condição depois de tomar os medicamentos por algum tempo, ou podem sofrer efeitos colaterais aborrecedores como, por exemplo, náuseas, perda do sono, letargia, impotência e assim por diante. Se eu estivesse enfrentando uma situação parecida, eu também estaria preocupado com meus medicamentos.

Outras vezes, os aconselhados têm razões que não são boas para não gostar da medicação. Por exemplo, algumas pessoas acham que se elas fossem santas o suficiente não precisariam de medicamentos. No caso desses aconselhados, é preciso ajudá-los a entender que o compromisso bíblico com o bem-estar do corpo aprova o tratamento médico. Quando as pessoas vão ao médico e tomam os medicamentos que ele prescreve, elas honram o seu corpo e o Deus que as criou.

A questão que quero destacar aqui é que já tive muitos aconselhados que deixaram de tomar seus medicamentos por conta própria, independentemente de seu raciocínio estar certo ou errado. Em meu ministério, eu de fato não tenho ideia de quantas pessoas têm feito isso, mas tenho recebido frequentemente em meu escritório aconselhados que me dizem que pararam por conta própria de tomar seus medicamentos.

Eu não quero que eles façam isso. Digo-lhes para não fazer isso. Quando eles me dizem que já o fizeram, encorajo-os a consultar o seu médico. Não posso, no entanto, obrigá-los a manter o uso dos medicamentos. Sei de outros conselheiros que passaram por situações semelhantes.

“Culpa gerada por medicação” é uma realidade no aconselhamento, mas no aconselhamento que eu e meus colegas conselheiros bíblicos praticamos sei que ela não é induzida pelo conselheiro.

3. Os conselheiros bíblicos praticam o aconselhamento, não a medicina.
Certa tarde, eu estava ensinando sobre como aconselhar as pessoas com problemas complexos. Eu estava apresentando uma abordagem geral de ajuda quando uma mão se levantou. A pergunta veio de uma aluna frustrada. Ela me perguntou por que eu passei tão pouco tempo falando sobre as intervenções clínicas. Ela disse: “A primeira coisa que você disse foi que ‘devemos encaminhar para um médico os aconselhados que apresentam tais problemas, pois eles precisam receber uma avaliação médica completa e tratamento para os problemas orgânicos que eles têm’. Dali em diante, você não mencionou mais nada sobre isso. Por que não investir mais tempo falando sobre o tratamento médico?”.

Essa é uma boa pergunta. Acredito que muitos tenham indagações a esse mesmo respeito. Os conselheiros bíblicos gastam energia para dizer às pessoas que o seu corpo é importante e que elas devem tomar os medicamentos que lhes foram prescritos, mas normalmente não investem muito tempo nos problemas físicos. Por que isso? Minha resposta àquela aluna foi simples. Eu não invisto mais tempo falando sobre as questões médicas porque eu não sou um médico. Acredito que a melhor forma de honrar a necessidade do nosso corpo de receber cuidado físico seja deixando esses assuntos para aqueles que estão preparados para lidar com eles. Se eu fosse um estudante de medicina na Universidade de Yale, e meu professor de anatomia e fisiologia começasse a falar sobre aconselhamento, eu diria que ele estava saindo de sua área. Eu desejaria que ele cobrisse o tema da aula em lugar de falar sobre outro assunto.

Quando os conselheiros bíblicos evitam discorrer detalhadamente sobre as questões médicas, eles não estão ignorando a importância do corpo, mas cumprindo o seu chamado. Se Deus tivesse me chamado para ser médico, eu estaria fazendo um trabalho muito diferente daquele que faço hoje. Eu cumpro o chamado de Deus para mim quando falo sobre aconselhamento. Deixo que as pessoas com conhecimentos médicos discutam as questões clínicas.

4. Vivemos em uma cultura que “medicaliza” todos os problemas.
Vivemos notadamente em uma época que vê grandes avanços na medicina. Eu não gostaria de ter vivido nos Estados Unidos há 125 anos. Eu também não gostaria de precisar fazer uma cirurgia em outras partes do mundo onde a medicina ainda está menos desenvolvida. Sei que sou abençoado por viver neste lugar do planeta e em um período da história em que acontece um maravilhoso avanço tecnológico. Um dos inconvenientes de tal bênção, porém, é que muitas pessoas em nossa cultura presumem que todos os problemas intensos sejam um problema médico. A ansiedade e a ira não são mais pecados; elas são doenças que requerem tratamento médico. A tristeza nunca tem um correlato espiritual – ela é sempre “clínica” e requer medicamentos.

Como cristãos, devemos rejeitar tal argumentação. E a razão desta rejeição é o fato de que nós acreditamos na Bíblia, que nos diz que os seres humanos têm um corpo e uma alma. Isso significa que enfrentamos problemas que são físicos e exigem soluções médicas, e problemas que são espirituais e exigem soluções baseadas na fé. Também enfrentamos muitos problemas complexos, que são uma combinação de ambos.

Ao abraçar esta verdade bíblica, conhecida como dicotomia, os cristãos podem parecer excêntricos. As pessoas pensam que desvalorizamos o corpo simplesmente porque acreditamos que as pessoas podem ter outros problemas – e problemas maiores! – do que os problemas meramente físicos.  Aqui está o que David Powlison escreveu a esse respeito:

Quando dizemos “Nós podemos aconselhar pessoas iradas e ansiosas para que se arrependam e aprendam a viver em fé e amor”, parece que estamos dizendo algo do gênero “Expulse o demônio do câncer” ou “E só crer em Jesus e você pode jogar fora seus óculos”. Quando a ira e a ansiedade passaram a ser vistas como doenças do corpo, tratáveis pela medicina, nós parecemos pessoas excêntricas que espiritualizam a vida, e isso até mesmo aos olhos daqueles que estão nos bancos das igrejas ou em outros púlpitos. Temos muito trabalho a fazer para proteger e edificar o corpo de Cristo.[4]

Powlison está certo em dois aspectos. Ele está certo em dizer que a mensagem cristã soa estranha em nossos dias. Ele também está certo em dizer que temos trabalho a fazer para proteger e edificar o corpo de Cristo.

Cuidado integral
Se os conselheiros bíblicos são acusados de serem contrários à medicina simplesmente porque não acreditam que todos os problemas sejam clínicos, então isso justifica a necessidade que temos de continuar a escrever, ensinar, pregar e aconselhar. Nossa persistência não deve ser fruto de um mero desejo de provar que estamos certos. Nossa persistência deve vir do desejo de ajudar. As pessoas que têm problemas espirituais não mudarão enquanto continuarem a tomar medicamentos como cura. Elas só mudarão quando se aproximarem de Jesus com arrependimento e fé.

Se você considerar essa realidade, será fácil ver que não são os conselheiros bíblicos que procuram impedir que as pessoas recebam toda a ajuda de que necessitam, seja pela medicina ou de outra forma. Pelo contrário, queremos ter certeza de que as pessoas estejam recebendo um cuidado integral, que trata tanto as suas necessidades físicas quanto as espirituais.

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[1] NdT. Conexão Conselho Bíblico já traduziu um outro artigo de Heath Lambert sobre o assunto: Reflexões cristãs sobre a doença mental.
Outras duas séries de artigos sobre o mesmo assunto podem ser lidas em inglês no blog da ACBC:

Can Jesus heal mental illness?
Part 1: The nature of mental illness
Part 2: Mental illness and the healing of Jesus
Part 3: The importance of the body
Part 4: Mental illness, spiritual issues, and suffering

The spiritual nature of mental illness
Part 1: The Gospel and mental illness
Part 2: Why do we ignore the spiritual nature of mental illness?
Part 3: Who is normal, who is not, and a biblical orientation of what ails troubled people
Part 4: What psychiatrists don’t know about hard problems

[2] NdT. Este documento está publicado em português no volume 4 das Coletâneas de Aconselhamento Bíblico (Atibaia, SP: SBPV) e também está disponível on-line em português no site Reforma 21, com tradução por Rafael Bello.

[3] NdT. No original, “Where’s the beef” é uma expressão usada nos Estados Unidos e no Canadá, que surgiu como um slogan para a cadeia de fast food Wendy . Desde então, tornou-se uma frase usada para todos os fins, questionando a consistência de uma ideia, evento ou produto. Fonte: Wikipedia

[4] NdT. Você pode ler o artigo completo Biopsiquiatria no volume 2 das Coletâneas de Aconselhamento Bíblico (Atibaia, SP: SBPV).

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Originais:
Who is saying medicine is unimportant? Part 1
Who is saying medicine is unimportant? Part 2
Fonte: Biblical Counseling Coalition e ACBC

Heath Lambert é diretor executivo da ACBC e professor adjunto de Aconselhamento Bíblico no Southern Seminary e no Boyce College. É autor de Finally free.

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