O que me impede de amar?

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No artigo How to Prevent Brotherly Love [Como impedir o amor fraternal], Erik Raymond convoca-nos a avaliar se estamos adorando a nós mesmos ou cultivando o amor no corpo de Cristo em obediência à ordem de Deus.

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“Seja constante o amor fraternal” (Hb 13.1)

O amor fraternal é o amor que vem de Deus e funciona no contexto de nossa nova família, a Igreja. Começamos a experimentar e expressar esse amor por meio do arrependimento de nossos pecados e da confiança em Jesus Cristo para a salvação. Um amor como esse é tão precioso!  É esse amor admirável que o autor de Hebreus diz que deve ser constante. Seu preço foi muito alto: Cristo deu a Sua própria vida, Ele morreu para comprar esse amor. Não é um amor barato nem fugaz; não é um amor que desvanece, mas um amor dispendioso e duradouro, que se renova.

No entanto, o versículo indica a possibilidade de que o amor fraternal cesse. Esse amor tão importante, com valor eterno e que reflete o amor de Deus dentro da Igreja está sujeito a sofrer um impasse. É algo muito preocupante para o escritor de Hebreus, e deveria ser muito preocupante para os cristãos também. É por esta razão que ele exorta seus ouvintes, e todos os cristãos que os seguiriam no tempo, a contribuírem para que o amor fraternal permaneça.

Se queremos perseverar nesse amor fraternal, mesmo em meio a adversidades, precisamos saber quais são os perigos que o ameaçam: O que impede o amor fraternal? O que o estraga? O que o sufoca?

Em resumo, a resposta é: Egoísmo.

Em outras palavras, somos nós que nos opomos a ele. O amor por nós mesmos sufoca o amor pelos outros. João Calvino entendeu isso perfeitamente quando considerou esse versículo, e disse “quando uma pessoa pensa mais em si mesma do que deveria, ela ama os outros menos do que deveria”.

Egoísmo é uma palavra muito útil para nos ajudar a pensar sobre o que impede nosso progresso na santidade. Ser uma pessoa egoísta é concentrar a atenção em si mesmo, estar preocupado consigo mesmo, apaixonado por si mesmo e interessado apenas em si mesmo. É a característica de um coração que está voltado para si mesmo. Nós amamos demais a nós mesmos, preservamos, honramos, servimos e defendemos o nosso eu. O egoísmo é, na verdade, uma autoadoração. Qualquer coisa que nós elevamos acima de Deus e Seus mandamentos torna-se o nosso objeto de adoração. Quando deixamos de obedecer aos mandamentos de Deus por acharmos que eles não despertam em nós os sentimentos que gostaríamos, ou simplesmente por não querer obedecer, então nós nos vemos frente a frente com o nosso egoísmo.

Como isso se expressa? O que impede o amor fraternal na igreja? Poderíamos listar 500 ou mais itens, mas aqui estão os cinco mais evidentes.

  1. Isolamento dos outros. Lamentavelmente, alguns cristãos não consideram uma prioridade reunir-se no Dia do Senhor. E mais, alguns têm muito pouco contato com outros crentes durante a semana. É muito difícil amar outras pessoas quando não estamos com elas. Isso também revela um egoísmo que nós sabemos que sufoca o amor fraternal: “Quem se isola, busca interesses egoístas…” (Pv 18.1).
  1. Descomprometimento. Quando estamos com nossos irmãos e irmãs, nós devemos estar presentes com eles. Não é o suficiente estar fisicamente ao seu lado. Devemos, de fato, estar com eles. Suponha uma reunião familiar quando a Vovó está falando sobre sua saúde ou contando algumas histórias de sua mocidade, mas alguém está sentado por perto navegando no Facebook, lendo as atualizações ou jogando Candy Crush. A fim de participarmos de coração da família cristã, devemos estar presentes não apenas fisicamente, mas mentalmente, emocionalmente e, principalmente, espiritualmente. Você está presente na sua família cristã?
  1. Superficialidade. Temos de nos lembrar que o amor cristão, em sua essência, é um amor redentor. Isso significa que ele está enraizado na verdade de que Deus nos salvou de nossos pecados, o que inclui o pecado do egoísmo. Quando amamos os outros, nós os ajudamos a se tornarem mais como Jesus Cristo. Se formos superficiais, ou seja, se nos limitarmos a conversar sobre banalidades de todos os tipos, nós nunca chegaremos àquilo que realmente importa, à essência do coração. A superficialidade impede o amor redentor que incomoda, no bom sentido, essa preocupação pecaminosa consigo mesmo.
  1. Conflitos não resolvidos. Quando alguém têm algo contra um irmão ou uma irmã, e não sabe lidar com o problema, cria-se um obstáculo ao relacionamento. Os conflitos não resolvidos levantam muros nos relacionamentos. Cada dia que passa é um novo tijolo no muro que os separa. Quando não lidamos com o conflito, temos de entender que dessa forma não estamos amando a Deus nem amando nossos irmãos. Não amamos a Deus porque nos recusamos a obedecer aos Seus mandamentos, e não amamos nosso irmão ou irmã porque não nos importamos o suficiente com a santidade em sua vida para, de fato, falar com eles sobre o problema. Tenho certeza de que você pode perceber como isso é autoadoração ao invés de adoração a Deus.
  1. Fofoca. Fofocar significa preferir falar sobre a outra pessoa pelas suas costas em lugar de ir até aquela pessoa e conversar com ela. Muitas vezes, trata-se de uma difamação de caráter ao espalhar mentiras sobre outrem. Com a fofoca, o coração que se inclina em adoração a si mesmo procura eliminar os concorrentes, diminuindo as outras pessoas com suas palavras. Ao invés de falar a verdade em amor, os fofoqueiros falam mentiras em orgulho.

Se estivermos voltados para dentro de nós mesmos, não nos doaremos nem serviremos aos outros. Não podemos amar desmedidamente a nós mesmos e amar aos outros. Amaremos um e odiaremos outro.

Na noite anterior à crucificação, nosso Senhor lavou os pés dos Seus discípulos. O Rei assumiu a forma cultural mais baixa de servo, e os banhou. Essa foi uma demonstração do tipo de serviço que Ele tinha para o Seu povo. E esse era o tipo de serviço que caracterizaria os Seus seguidores.

“Um novo mandamento lhes dou: Amem-se uns aos outros. Como eu os amei, vocês devem amar-se uns aos outros. Com isso todos saberão que vocês são meus discípulos, se vocês se amarem uns aos outros.” (Jo 13.34,  35)

Aquele que deu tudo para servir os Seus, até a Sua própria morte, chama-nos para refletir o mesmo tipo de amor altruísta e expressivo pela nossa família, a Igreja.

O amor fraternal deve ser precioso para nós porque é precioso para Deus.

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Original How to prevent brotherly love em The Gospel Coalition

(Esse texto foi extraído de um sermão intitulado Let Brotherly Love Continue, pregado em Emmaus Bible Church — link para o áudio da mensagem)