Princípios básicos para um discipulado no sofrimento

Andrea Lee

Conversar com alguém que está sofrendo pode deixá-lo desorientado. As emoções e interpretações da pessoa o atingem. A dor do sofredor lhe garante que você precisará ter muito cuidado ao interagir. No entanto, as provações são uma ocasião propícia porque elas dão direção e contornos singulares ao discipulado.

Essa provação em particular e esse sofrimento específico torna-se o contexto imediato no qual o discipulado acontece. Aqui estão três princípios básicos para relembrar quando a oportunidade chegar.

 Ouça com atenção
Em primeiro lugar, escute. Este passo é óbvio, mas crucial. Os conselheiros e discipuladores estão familiarizados com Provérbios 18.13: “Quem responde antes de ouvir comete insensatez e passa vergonha”. Reconhecemos o potencial para sermos tolos e passarmos vergonha se nossa tentativa de ajudar vier antes de ouvir a situação, mas também é fácil ouvir os detalhes de uma circunstância e perder a experiência emocional mais profunda do sofredor. O apóstolo Paulo nos deu um grande exemplo de vulnerabilidade no sofrimento. Em 2Coríntios 1.8, ele escreveu: “Irmãos, não queremos que vocês desconheçam as tribulações que sofremos na província da Ásia. Às quais foram muito além da nossa capacidade de suportar, a ponto de perdermos a esperança da própria vida”. Sua transparência foi impressionante.

 Paulo queria que os coríntios conhecessem a profundidade de seu sofrimento, para que ele pudesse lhes falar sobre a magnitude do conforto de Cristo (2Co 1.3-7) Ele conheceu de perto o caráter de Deus no contexto da dor. Paulo estava disposto a compartilhar sua dor para testemunhar sobre o cuidado de Deus. Do mesmo modo, nós modelamos a fé no poder do Senhor para confortar quando nos dispomos a ouvir uma luta em toda a sua profundeza. Nós não ficamos desorientados pela dor porque confiamos no caráter de Deus.

Ouvir atenciosamente é parte vital do discipulado. Mas o que estamos procurando ouvir? Como o discipulado consiste em ajudar alguém para que siga pessoalmente a Cristo com constância, devemos ouvir como a pessoa está interpretando as circunstâncias e onde ela está buscando esperança. Em 2Coríntios 1, encontramos novamente esclarecimento. De maneira singular, Paulo compartilhou sua interpretação das aflições e contou onde ele buscava esperança.

Paulo disse que seu sofrimento tinha o propósito de fazê-lo não mais confiar em si mesmo, mas em Deus. Deus pretendia que sua dor removesse a sua autoconfiança. A esperança de Paulo repousava sobre o fundamento seguro do Pai das misericórdias e Deus de todo o conforto: “Nele temos depositado a nossa esperança de que continuará a livrar-nos” (2Co 1.10).

Ouvir as interpretações e identificar as fontes de esperança é vital e nos ajuda a estabelecer uma conexão entre o evangelho e aquilo que ouvimos. Em vez de vê-la como uma técnica terapêutica, lembramos que a escuta atenciosa e compassiva era parte do ministério de Jesus Cristo encarnado (Hb 2.12-18). Jesus participou da condição humana (Hb 2.14), experimentando provações e aflições para que pudesse nos libertar do medo e da morte, e socorrer na tentação (Hb 2.18). Nós participamos do sofrimento de outras pessoas, em alguma medida, quando ouvimos atenciosamente.

Dê esperança bíblica
O segundo princípio no discipulado do sofredor é dar esperança. Esse é um ótimo lugar para passar de orientado por problemas para orientado por Deus. Paulo faz essa transição perfeitamente em 2Coríntios 1. Embora seja tentador lidar logo com um dos aspectos práticos do sofrimento, e às vezes isso é mesmo necessário, Paulo nos lembra que a sequência do ensino é um ponto importante no nosso discipulado. A esperança é essencial porque ninguém muda quando não há esperança e, visto que a nossa esperança está na pessoa de Cristo (2Co 1.10, 1Tm 1.1) e nas promessas de Deus (2Co 1.20), nós sempre temos esperança.

Como discipuladores, é possível que tenhamos de construir uma perspectiva da superioridade da esperança bíblica em contraste com o alívio circunstancial. A esperança de Paulo era inabalável (2Co 1.7) não porque o sofrimento estivesse ausente, mas porque o conforto de Deus estava presente. Muitas vezes, quando lembramos ao sofredor que ele pode glorificar a Deus independentemente da situação em que se encontra, e que Deus continua a fazê-lo cada vez parecido com Cristo, há imensa alegria. Às vezes, porém, devemos encorajar o sofredor a examinar onde seu coração está encontrando refúgio. Jesus disse que Seu alimento – aquilo que O nutria, sustentava e satisfazia – era fazer a vontade daquele que O enviara e realizar Sua obra (Jo 4.34). Precisamos da ajuda do Espírito Santo para seguir o exemplo de Cristo. Essa dependência do Espírito Santo leva ao terceiro princípio básico na ajuda a um sofredor.

Ore
 Paulo termina a seção inicial de 2Coríntios 1 advertindo seus leitores: “Nele [Deus] temos colocado a nossa esperança, enquanto vocês nos ajudam com as suas orações. Assim muitos darão graças por nossa causa, pelo favor a nós concedido em resposta às orações de muitos” (2Co 1.11). Depois de descrever sua experiência de sofrimento e declarar sua dependência de Deus e a esperança nEle, Paulo buscou as orações de muitos. Não podemos prometer que uma provação mudará rapidamente. Contudo, quando oramos, derramando nossa confiança no Pai das misericórdias, demonstramos a fé e a humildade que honra a Deus, e recebemos Sua bênção. Michael Reeves, em seu livro Deleitando-se na Oração, disse: “A oração é a antítese da autodependência” [1]. No discipulado, ore com e por seu amigo ferido. A oração é um lembrete vívido da nossa grande necessidade de Deus e da nossa grande confiança em Deus; ela é a única fonte verdadeira de ajuda e esperança.

Os períodos de sofrimento dão direção ao discipulado. Essa direção tomará caminhos personalizados, mas cada caminho deve começar com o ouvir atentamente, dar esperança bíblica e orar pela misericórdia, conforto e ajuda de nosso Pai compassivo.

Para pensar
O que faz com que seja difícil para você ouvir alguém que está sofrendo?
Você já experimentou o refrigério de quando alguém que lhe deu esperança bíblica, baseada no Senhor Jesus?
Como suas orações refletem sua verdadeira teologia?


[1] REEVES, Michael. Deleitando-se na oração. Brasília: Monergismo, 2016, cap. 9.

Andrea Lee atua como conselheira bíblica para mulheres na sua igreja local, Mount Baptist Church em Atlanta, e na comunidade. Ela completou seu mestrado em Aconselhamento Bíblico em The Master’s University.



Original: Basics for discipleship in suffering
Artigo publicado pela Biblical Counseling Coalition
Tradução: Carla Silva
Revisão: Conexão Conselho Bíblico