A culpa que leva ao arrependimento

Kyle Gangel

“Culpado!” É o que clama nossa consciência, nosso coração e, o mais importante, a Lei de Deus. Todos nós conhecemos as investidas dolorosas da culpa. A lembrança de palavras e ações que lamentamos ​​pode nos manter acordados à noite enquanto repassamos situações do passado. O desespero cresce a cada replay. É doloroso. O que fazer? Como pensar biblicamente sobre a culpa para que possamos honrar a Deus?

Podemos ser tentados a nos contentar com respostas superficiais que nos distraem na tentativa de fazer com que não nos sintamos culpados. Podemos presumir que a resposta é convencer a nós mesmos de que não somos tão culpados quanto pensamos ser. Não deve nos surpreender que a Palavra de Deus tenha uma resposta mais completa e, em última análise, mais satisfatória.

Antes de olhar para a culpa como um sentimento, precisamos considerá-la como uma realidade objetiva. Se você estivesse participando do júri encarregado do  julgamento de um assassinato, sua preocupação principal não seriam os sentimentos do réu, quer fossem sentimentos de culpa, quer não. Você examinaria as evidências e determinaria se ele cometeu o crime em questão. Da mesma forma, devemos primeiro nos preocupar com o aspecto forense da culpa antes de considerar os sentimentos de culpa.

A realidade objetiva da culpa

Nosso entendimento da culpa deve começar pelo reconhecimento da universalidade do pecado: “Portanto, assim como por um só ser humano entrou o pecado no mundo, e pelo pecado veio a morte, assim também a morte passou a toda a humanidade, porque todos pecaram” (Rm 5.12). O primeiro homem, Adão, representou todos nós. Quando ele pecou, ​​a iniquidade recaiu sobre toda a humanidade.  Consequentemente, cada homem está condenado e merece receber o justo castigo pelo pecado.

Somos culpados diante de um Deus santo. Esse é o nosso maior problema. A única solução são as boas novas da vinda de Cristo para resgatar os pecadores de sua condenação. Cristo lidou com a culpa de forma decisiva na cruz, levando sobre Si  o julgamento que pesava sobre nós. Aqueles que abandonam o pecado e confiam na obra substitutiva de Cristo são unidos a Ele e recebem Sua justiça. Em outras palavras, se você está em Cristo, você recebeu algo melhor do que um veredicto de “inocente”. Você recebeu algo maior do que “Inocente de todas as acusações”. Em Cristo, você foi declarado “positivamente justo”. Isso fica claro em 2Coríntios 5.21: “Aquele que não conheceu pecado, Deus o fez pecado por nós, para que, nele, fôssemos feitos justiça de Deus”.

Os sentimentos de culpa 

Os sentimentos acompanham nossos pensamentos. Consequentemente, nossos sentimentos, assim como nossos pensamentos, podem ser enganosos. Os sentimentos de culpa não são exceção. Por exemplo, é possível ser culpado de quebrar os mandamentos de Deus, mas não ter nenhum sentimento de culpa. Veja Levítico 5.17 como um exemplo de ser culpado de pecado sem ter conhecimento e, portanto, sem ter nenhum sentimento de culpa. Também é possível, devido a uma consciência fraca ou mal informada, sentir-se culpado por algum ato que não foi propriamente pecaminoso. Portanto, os sentimentos de culpa não podem ser aceitos por nós acima de qualquer suspeita. Devemos considerar, talvez com a ajuda de um amigo sábio, a possibilidade de nossos sentimentos serem resultado de pensamentos errados ou de uma consciência mal informada.

Embora os sentimentos de culpa possam certamente ser enganosos, eles também podem estar corretos e servir como o primeiro passo para nos levar ao arrependimento genuíno. Se discernirmos corretamente que pecamos e reconhecermos nosso pecado à luz da santidade de Deus, experimentaremos sentimentos de culpa.

Mesmo quando percebemos que nossos sentimentos de culpa refletem com precisão nossas ações, muitas vezes não sabemos o que fazer com eles. Frequentemente, nós nos enganamos pensando que Deus quer que nos afundemos na miséria de nossa culpa – afinal, pensamos ser isso o que merecemos. No entanto, os sentimentos de culpa não são o mecanismo de Deus para punir Seus filhos pelo pecado, e podemos ter certeza dessa verdade porque Cristo levou sobre Si o inteiro castigo pelos pecados de cada um. Em vez disso, esses sentimentos têm o propósito de nos levar de volta ao Pai gracioso.

Arrependimento

Depois de discernir que nossos sentimentos de culpa estão de acordo com a verdade, não nos resta que uma reação adequada: o arrependimento. Charles Wesley resumiu bem o que é o arrependimento:

Agora incline-me ao arrependimento Deixe-me agora lamentar meus pecados Minha revolta infame lastimar Chorar, crer, e não pecar mais.     Charles Wesley, Depth of Mercy

Chorar. Considere o ensino de Paulo sobre a tristeza segundo Deus pelos nossos pecados: “Porque a tristeza segundo Deus produz arrependimento para a salvação, que a ninguém traz pesar; mas a tristeza do mundo produz morte” (2Co 7.10). Judas e Pedro choraram ao trair seu Senhor. Apenas um deles se arrependeu verdadeiramente. Existe uma tristeza do mundo, exemplificada na vida de Judas, que é egocêntrica e se concentra apenas no que foi perdido ou negado como resultado de ter sido pego no pecado. Ela resulta em desespero, amargura e autopiedade. No entanto, existe uma tristeza segundo Deus, exemplificada na vida de Pedro, que leva ao arrependimento genuíno. Ela é um quebrantamento diante de Deus por causa do pecado. As lágrimas de Pedro provaram ser genuínas quando ele se voltou novamente para o Senhor e O serviu fielmente.

Crer. Especificamente, cremos na verdade do evangelho. Lembramos a obra de Cristo na cruz e temos a certeza de que Seu amor por nós é incontestável. Cristo se alegra em corrermos para Ele porque Ele morreu exatamente para esse propósito. Dane Ortlund nos lembra que Cristo “não se frustra quando vamos a Ele pedindo novamente perdão, um perdão renovado, nos momentos de angústia, necessidade e vazio. Esse é o ponto principal, é aquilo que Ele veio curar”.[1] O Bom Pastor tem prazer em trazer de volta os rebeldes, em atar as feridas e fortalecer os fracos (veja Ezequiel 34.15, 16).

Não pecar mais. O verdadeiro arrependimento é uma mudança de mente que leva a uma mudança de comportamento. Pelo poder do Espírito, mortificamos os desejos da carne e somos conformados à imagem de Cristo. Esse é o objetivo final de reconhecer a realidade da culpa e sentir seu peso. Quando os sentimentos de culpa surgem de um reconhecimento adequado de nossa culpa objetiva, eles são fruto da misericórdia divina que nos leva ao arrependimento e à mudança.


Kyle Gangel é pastor da Southern Hills Bible Church (Custer, SD). É conselheiro bíblico certificado pela Association of Certified Biblical Counselors (ACBC) e escreve no blog GospelMercies


[1] ORTLUND, Dane. Gentle and lowly: the heart of Christ for sinners and sufferers (Wheaton, IL: Crossway, 2020, p. 34)



Original: Guilt Leading to Repentance
Artigo publicado pela Association of Certified Biblical Counselors.  Traduzido com autorização.