Culpa: aprendendo a fazer distinções no aconselhamento

Robert Jones

Os cardiologistas qualificados fazem distinções precisas no diagnóstico de um amplo espectro de possíveis problemas cardíacos. Os conselheiros habilidosos, como médicos da alma, devem fazer o mesmo. Podemos considerar três distinções bíblicas relativas à culpa.

Distinção 1 – A culpa resultante de pecados intencionais e não intencionais
Embora todo pecado seja pecado, todo pecado incorra em culpa, e toda culpa precise do perdão de Deus, a Bíblia distingue pecados intencionais de pecados não intencionais (Lv 4; Nm 15).

Aline, uma mulher cristã, escolheu se casar com um homem não cristão. Ela sabia que a Palavra de Deus proíbe os crentes de se casarem com descrentes (veja 1Coríntios 7.39; 2Coríntios 6.14). Entretanto, ela se casou mesmo assim, desconsiderando as objeções de sua consciência, de seu pastor e de amigos cristãos. Mais adiante, ela se sentiu culpada e carregou esse sentimento até que um conselheiro bíblico a ajudou a confessar seus pecados e receber o perdão de Deus em Cristo.

Beth, também cristã, casou-se com um rapaz não cristão e, portanto, também violou a Lei de Deus. Entretanto, ela o fez sem conhecer o que a Palavra de Deus diz a esse respeito. Beth não se sentiu culpada. Foi só quando seu conselheiro bíblico a instruiu na Palavra de Deus que Beth se sentiu imediatamente culpada. Ela também se arrependeu e encontrou o perdão de Deus em Cristo.

Embora o pecado voluntário de Aline e o pecado por desconhecimento de Beth incorressem ambos em verdadeira culpa diante de Deus e precisassem ser confessados a Ele para receber Seu perdão, o aconselhamento bíblico precisou ser conduzido de maneira diferente, adequado a cada caso.

Distinção 2 – Culpa objetiva e culpa subjetiva
Devemos também distinguir entre a culpa objetiva diante de Deus e a culpa subjetiva, que costumamos chamar de sentimento de culpa. A culpa objetiva envolve nossas ações de violação da Lei de Deus. Sempre que agimos – ou pensamos, desejamos, falamos, respondemos, e assim por diante – contrariamente à Palavra de Deus, somos culpados diante de Deus. Sempre que fazemos o que Deus proíbe (pecados de comissão, 1João 3. 4) ou deixamos de fazer o que Deus requer (pecados de omissão, Tiago 4.17), somos culpados diante de Deus.

Nossos sentimentos  de culpa, uma experiência subjetiva, resultam da conclusão pessoal de que desobedecemos a Deus, independentemente de o termos feito ou não. Nossa consciência funciona ativando um sentimento interior de que somos culpados. Se temos uma consciência saudável, instruída biblicamente e alinhada corretamente com a Palavra de Deus, nós nos sentimos culpados com razão quando estamos para violar ou violamos a Palavra de Deus. Nesse sentido, os sentimentos de culpa são nossos amigos. Eles nos avisam que nosso comportamento precisa de uma inspeção cuidadosa para determinar de que forma ele transgride os mandamentos de Deus e nos faz culpados. Se a consciência não está instruída biblicamente, ela não dará alerta.

Em resumo, casar-se com um não cristão incorre em culpa objetiva diante de Deus quer a pessoa sinta essa culpa subjetivamente (como Aline), quer não (como Beth, pelo menos não inicialmente).

Culpa falsa?
Os terapeutas seculares, que não se orientam pela Lei de Deus, costumam falar em “falsa culpa”: descartam a noção objetiva de culpa derivada da transgressão do padrão bíblico, e os sentimentos de culpa subjetiva são tidos como transtornos problemáticos que devem ser resolvidos pela terapia. Como conselheiros bíblicos, entretanto, devemos rejeitar qualquer abordagem que negue a realidade da culpa objetiva diante de Deus.

No entanto, há uma maneira mais comum de alguns cristãos falarem de “falsa culpa”. Considere Carla, outra mulher cristã, que se casou com um cristão chamado Antônio. Ambos amam e seguem Jesus e estão “em jugo igual” nos termos dos versículos bíblicos citados acima. Mesmo assim, Carla sente-se culpada. Por quê? Como Carla é branca, Antônio é negro, e seus avós cristãos lhe ensinaram erroneamente que Deus se opõe ao casamento interracial, ela entrou no casamento com a consciência fraca e vagos sentimentos de culpa. Ela agora se pergunta se pecou ao se casar com Antônio.

Nesse ponto, alguns conselheiros cristãos podem rotular o sentimento de culpa de Carla como “falsa culpa” e lhe dizer: “Carla, pare de se sentir culpada. Você não fez nada errado. Sua escolha quanto ao casamento foi biblicamente correta. Essa culpa que você está sentindo é uma falsa culpa”.

Existem, no entanto, dois problemas em chamar a luta interior de Carla de “falsa culpa”. Primeiro, a palavra falso pode transmitir a Carla uma impressão de que estamos minimizando seus sentimentos e negando suas lutas interiores. Certamente, não queremos que aqueles a quem aconselhamos tenham a impressão de que estamos desprezando seus sentimentos, por mais imprecisos que possam ser tanto esses sentimentos quanto os julgamentos morais que os embasam.

Em segundo lugar, chamá-los de “falsa culpa” perde o componente de culpa objetiva que está realmente presente. Ao contrário de Aline e Beth, Carla não desobedeceu aos padrões de Deus sobre com quem os cristãos podem se casar. A Bíblia em nenhum lugar proíbe o casamento interracial. Em que sentido, então, Carla é realmente culpada?

Distinção 3 – Culpa apropriada e culpa inapropriada
Embora a Bíblia não use as expressões “culpa apropriada” e “culpa inapropriada”, elas podem nos ajudar a compreender as distinções que a Bíblia faz e nos ajudar a entender e aconselhar com sabedoria Aline, Beth e Carla.

Conforme vimos na Distinção 1, a culpa surge quando violamos mandamentos bíblicos, seja intencionalmente como no caso de Aline, seja sem intenção como no caso de Beth. De acordo com a Distinção 2, se nossa consciência estiver funcionando biblicamente, experimentaremos culpa subjetiva, ou seja, sentimentos de culpa.

Por outro lado, a culpa inapropriada surge quando permitimos que algum padrão diferente da Lei de Deus governe nossa consciência. O padrão pode ser uma passagem bíblica mal interpretada ou mal aplicada como, por exemplo, alguma lei levítica já cumprida em Cristo, ou uma “lei” feita pelo homem como, por exemplo, proibir os casamentos inter-raciais. Quando violamos nossa própria lei, somos objetivamente culpados diante de Deus po duas razões: (1) permitimos que nossa consciência se submetesse a um padrão diferente da Lei de Deus (veja Romanos 14 e 1Coríntios 8 a 10, onde Paulo descreve os crentes com consciência fraca – homens e mulheres cujas consciências eram governadas por leis que não eram a Lei de Deus) e (2) violamos o que pensávamos que agradaria a Deus.

O casamento de Carla violou sua consciência. Ela fez o que ela incorretamente acreditava estar errado. Quando violamos essas pseudoleis, nós não apenas nos sentimos culpados, mas devemos nos sentir culpados. Paulo nos diz que “se alguém considera algo impuro, então para ele é impuro” e que “tudo o que não procede da fé é pecado” (Rm 14.14, 23). Carla não procurou agradar a Deus, mas fez algo que ela acreditava erroneamente que Deus não queria que ela fizesse. Mudança significará submeter-se a Lei de Deus encontrada nas Escrituras, não à sua própria lei.

Considere outro exemplo de culpa inapropriada. Se o marido de Aline (de Beth ou de Carla) a abandonar e ela se ela sentir responsável por tal decisão, é provável que ela enfrente uma forma paralisante de culpa inapropriada. Essa culpa vem de se colocar debaixo de uma lei própria como, por exemplo, “Devo manter meu marido fiel; devo fazer com que ele me ame”. Essa lei não é a Lei de Deus. A Lei de Deus exige que ela cumpra fielmente seu compromisso conjugais e o ame, mas ela não é responsável perante Deus por salvar unilateralmente o casamento deles (veja Romanos 12.18).

Felizmente, quer nossa culpa e os sentimentos de culpa que os acompanham resultem de pecados intencionais ou não, quer a culpa seja apropriada ou inapropriada, o único remédio que permanece é a cruz de Jesus Cristo, o Salvador capaz de “nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça” (1Jo 1.9).

Pergunta para refletir
Como você, conselheiro bíblico, lida com os casos que envolvem a necessidade de distinguir entre pecado intencional e não intencional, culpa objetiva e subjetiva, e culpa apropriada e inapropriada?


Robert Jones é professor de aconselhamento bíblico no The Southern Baptist Theological Seminary em Louisville, KY. Ele também atua como professor visitante em vários seminários nos Estados Unidos e no Brasil. É formado pela Trinity Evangelical Divinity School (M.Div.),  pelo Westminster Theological Seminary (D.Min.) e University of South Africa (D.Theol.). É membro da Association of Certified Biblical Counselors (ACBC), conselheiro certificado pelo Peacemaker Ministries e autor de  Em busca da paz,  Ira: arrancando o mal pela raiz e numerosos livretos na série Recursos para um Viver Piedoso, além de artigos.


Original: Distinguishing Between Guilt and Guilt
Artigo publicado pela Biblical Counseling Coalition
Tradizido com autorização