Deus falou comigo

Paula Higuchi

Em meu ministério de aconselhamento, os aconselhados compartilham frequentemente experiências pessoais e alguns me contam que Deus falou com eles especificamente, além do que a Bíblia revela. Essas experiências os levam a presumir qual seja a vontade de Deus com base em uma impressão que eles acreditam tenha vindo de Deus. Isso pode surgir no aconselhamento quando faço perguntas como: “Por que você fez tal escolha? Por que você acredita que isso vá acontecer?”. Já recebi uma variedade de respostas que incluem cenários como estes:

“Deus fala comigo em sonhos. Sonhei que meu amigo da igreja estava chateado comigo. Embora eu ame minha igreja, eu soube, depois de ter esse sonho, que era hora de procurar uma nova igreja.”

“Há dez anos, eu orava por um marido. Deus falou ao meu coração enquanto eu estava no meu restaurante favorito e disse que eu encontraria meu marido ali. Uma semana depois, um homem se apresentou, convidou-me para sair e nós nos demos bem. Nunca estive muito certa sobre sua caminhada com o Senhor, mas sabia que casar-me com ele era a vontade de Deus por causa do que Ele tinha falado comigo.”

“Eu morava na Califórnia e estava descontente lá. Embora eu participasse de uma ótima igreja e tivesse casa e trabalho lá, eu simplesmente sentia que havia algo diferente para mim. Cada vez que eu orava para embarcar em uma nova aventura, sentia uma paz avassaladora vinda de Deus, mostrando-me que era isso que eu deveria fazer. Um dia, enquanto caminhava na praia, vi uma nuvem com a forma do estado do Texas. Eu simplesmente entendi que era um sinal de Deus. Meus amigos e família procuraram me convencer de que eu não deveria me mudar, mas eu sabia que Deus havia falado comigo e me mudei no mês seguinte.”

“Deus me disse para lhe pedir que planeje estar no próximo retiro da nossa igreja. Espero que você diga sim.”

“Deus colocou isso no meu coração! Ele me disse que eu precisava iniciar um ministério diferente para os jovens da igreja. Fiquei muito desapontado quando meus pastores disseram que estávamos caminhando em uma outra direção.”

Em casos como esses, os aconselhados ficam convencidos de que Deus falou com eles, e essa experiência tem peso e autoridade sobre sua vida. As decisões que tomam causam confusão e sofrimento desnecessário em sua vida e nos relacionamentos. Às vezes, um desejo contínuo por novas experiências como essas e a espera de um sinal de Deus mantêm o aconselhado paralisado ou desanimado quando Deus parece ficar em silêncio. Um aconselhado pode estar realmente desejoso de entender a vontade de Deus, mas em sua vida cristã ele passou a acreditar que deveria ter uma linha direta pessoal com Deus para “ouvi-lo falar”.

Essas experiências são tão pessoais e fortes que é importante agir com cuidado e amor quando procuramos remodelar a perspectiva de um aconselhado quanto à natureza única das Escrituras como Palavra de Deus. Aqui estão quatro categorias que nos ajudam a examinar onde um aconselhado está colocando seu foco.

Sensações em vez de alimento sólido (Hebreus 5.12-14)
O crescimento lento, metódico e intencional em nosso conhecimento de Deus e de Sua Palavra pode ser entediante em comparação com o entretenimento instantâneo que está disponível para nós nesta era digital. Treinar e praticar, vencer os desafios necessários para aprender coisas novas pode perder o apelo em um mundo que quer que acreditemos que a vida deve ser fácil e que viver com conforto é algo a que temos direito. Não devemos nos conformar com esse tipo de pensamento. Ao fazer isso, estaríamos realmente nos conformando com menos do que a gloriosa busca de conhecer a Deus nas páginas das Escrituras. Como afirma o escritor de Hebreus, estaríamos nos conformando com leite, como bebês, em vez de ir ao banquete que nos espera ao despertar nosso paladar para o esplendor de Deus.

Desejos em vez da Palavra revelada (Provérbios 3.5, 6; Jeremias 17.9, 10)
O fascínio pelo entretenimento, que toma o lugar do estudo fiel da Palavra, também está ligado à realidade de que nosso coração, desligado de Cristo, tem desejos enganosos. Isso torna muito fácil começarmos a confiar mais naquilo que queremos e sentimos do que naquilo que Deus já disse em Sua Palavra. Escolhemos ignorar a Palavra de Deus em vez de confrontar e mudar nossos desejos para que se conformem a ela.

Experiências em vez de promessas completamente suficientes (2Pedro 1; Hebreus 1.1, 2)
Uma esperança equivocada surge quando acreditamos que nossas experiências superam a necessidade de confiar na suficiência das Escrituras. Isso não significa minimizar as experiências de vida de uma pessoa e os frutos que provêm de aprender com nosso passado. No entanto, a experiência pessoal nunca deve ser autoridade para nos dirigir nem para ser imposta a outras pessoas. Pedro relata sua experiência ao ouvir Deus falar no monte da transfiguração (2Pe 1.17-21). Em vez de exortar os crentes a esperarem algo semelhante como normativo, ele os direciona às promessas estabelecidas nas Escrituras para que se protejam  contra o pensamento herético. Nestes últimos tempos, Deus nos falou por meio de Cristo, a Palavra encarnada (cf. Hb 1.2). A Bíblia, portanto, tem a palavra final sobre como avaliar nossas experiências, em vez de nossas experiências nos orientarem e ditarem o padrão da verdade.

A consciência como guarda e a Palavra de Deus como guia (2Timóteo 3.16, 17, Hebreus 4.12)
Há momentos em que o mover do coração de uma pessoa em direção àquilo que é biblicamente fiel é o resultado de uma consciência biblicamente instruída. A consciência é uma guarda útil e um presente do Senhor. Por exemplo, pode me ocorrer no domingo o pensamento de me aproximar de um membro da igreja que parece abatido. Eu sei que a Palavra de Deus nos chama a carregar os fardos uns dos outros e ter compaixão uns pelos outros. Ao me aproximar de meu irmão em Cristo, posso expressar uma preocupação genuína com relação a seu bem-estar e lhe dizer que me senti levado a perguntar como poderia orar por ele. Essa é uma aplicação correta da Palavra de Deus, que instrui minha consciência e me leva a obedecer a Deus. Por outro lado, não seria apropriado eu ir até aquele irmão e lhe dizer: “Deus me disse para verificar como você está e me certificar de que está tudo bem”. Se eu falasse dessa maneira, estaria entendendo a minha observação e desejo como revelação de Deus, em vez de entender meu gesto como uma mera aplicação prática daquilo que Deus já revelou na Sua Palavra.

Ao olharmos para essas categorias, o que podemos incentivar nossos aconselhados a fazer em vez de agir com base em “Deus falou comigo”?

  • Seja um estudante da Bíblia. Não subestime o crescimento diário e constante no conhecimento de Deus por meio de Sua Palavra. Coloque-se debaixo da autoridade das Escrituras. Surpreenda-se com o fato de Deus ter escolhido se revelar a nós. Deixe que isso o leve a ler, compreender e amar a Palavra de Deus, bem como crer e obedecer.
  • Quaisquer mandamentos e advertências claros das Escrituras devem ser seguidos apropriadamente.
  • Quando a Palavra de Deus não fala diretamente sobre um assunto, firme-se nas bases da teologia bíblica e sistemática.
  • Considere e aplique os princípios da Palavra de Deus que se aplicam ao assunto.

Deixe que esse seja o alicerce de sua tomada de decisões para que seus pensamentos, desejos e todas as suas experiências sejam devidamente avaliados pela Palavra de Deus.


Paula Higuchi é uma conselheira cerificada pela  Association of Certified Biblical Counselors (ACBC) e serve no Biblical Counseling Center of Maui.



Original: God told me
Artigo publicado pela Association of Certified Biblical Counselors.  Traduzido com autorização.

Tradução de Carla Silva
Revisão e adaptação para o português por Conexão Conselho Bíblico