Daniel Schubert

A palavra “controle” é um termo bem conhecido em nossos dias. Ouvimos falar de pessoas que são “controladoras”, ou talvez alguém já tenha aplicado este mesmo termo a você.
Enquanto conselheiros bíblicos, somos chamados a falar a verdade em amor, mas devemos avaliar com discernimento as descrições atuais e os termos usados para identificar os problemas que as pessoas apresentam. Este artigo busca analisar o termo “controle” sob a perspectiva das Escrituras para que possamos compreender esse problema comum e sua solução bíblica.
O conceito de “controle” está presente na Bíblia?
Assim como a palavra “Trindade”, “controle” captura um conceito presente nas Escrituras, mas que não recebe um nome específico no texto bíblico. Veremos que aquilo que comumente chamamos de controle é uma questão do coração/desejos que pode estar na raiz de vários pecados como, por exemplo, um comportamento autoritário, ira, perfeccionismo ou medo. Outras vezes, o controle pode estar no desejo de uma vida segura e confortável como, por exemplo, aquele que reside no coração dos preguiçosos negligentes (Pv 21.25, 26).
O espectro de controle
O controle manifesta-se de várias maneiras, e é isso que pode nos confundir. Para alguns, a imagem que vem à mente é a do marido controlador. Ele é aquele que age mais como um ditador em sua casa do que como um servo-líder amoroso (Mc 10:42). Outros podem pensar naqueles que manipulam as pessoas ao seu redor para conseguirem o que querem — seja por meio de métodos sutis, seja por coerção (Rm 16.18). A expressão mais comum, no entanto, pode ser uma resposta pecaminosa quando a vida não segue o rumo que desejamos, ou quando as pessoas não fazem o que achamos que deveriam fazer (1Sm 18.8; Mt 6.25; Lc 10.41). O espectro do controle, portanto, pode ir desde aqueles que dominam ou manipulam para conseguir o que querem, até aqueles que simplesmente respondem pecaminosamente a situações – passadas, presentes ou futuras – que Deus permite ou pode permitir em Sua amorosa e sábia providência.
O controle, porém, nem sempre é pecado. Há áreas da nossa vida em que Deus nos chama a exercer um certo grau de controle para cumprir uma responsabilidade dada por Ele, sempre em submissão às Escrituras e à direção do Espírito de Deus. No entanto, o desejo de controle pode se tornar pecaminoso quando ultrapassa – mesmo que somente no coração – o que Deus deu aos Seus filhos a responsabilidade de fazer, prevalecendo uma forma egoísta de controle, para satisfazer os próprios interesses.
O coração do controle
Dependendo de em que ponto do espectro a pessoa se encontra, seu coração pode se expressar de maneiras muito diferentes. Estas são algumas características comuns de um coração orgulhoso e controlador:
- O controle se baseia fundamentalmente na confiança em si mesmo e não em Deus. A Bíblia apresenta frequentemente essa ideia (Sl 4.5; Pv 3.5; Is 26.3, 4; Jr 17.5-9; Rm 12.16b; 2Co 1.9; 1Pe 2.21-25). Essencialmente, uma pessoa que confia em si mesma apoia-se em seu próprio entendimento limitado para julgar o que é melhor e certo, e muitas vezes desenvolve uma expectativa específica sobre como as circunstâncias devem se desenrolar ou como as pessoas devem agir.
- O controle, muitas vezes, coloca a vontade individual de uma pessoa acima da vontade de Deus e/ou dos outros, à medida que julgamentos e expectativas egocêntricas se formam. Essa atitude é o oposto do que Jesus orou no jardim do Getsêmani: “Pai, se queres, afasta de mim este cálice! Contudo, não se faça a minha vontade, e sim a tua” (Lc 22.42).
- O controle concentra sua esperança nas circunstâncias e não em Deus e em Suas promessas. Quando uma pessoa forma uma expectativa circunstancial do que é melhor e certo, isso molda o que ela espera que aconteça para alcançar o que ela considera melhor e certo. No entanto, quando as circunstâncias se mostram diferentes do que ela esperava, isso pode adoecer o coração de várias maneiras (Pv 13.12 cf. Sl 42.5).
- O controle também pode colocar uma pessoa no lugar de Deus. Aqueles que lutam pelo controle confiam em seu próprio raciocínio e, ainda que muitas vezes o façam somente na prática sem que haja uma expressão em palavras, eles se afastam da sabedoria de Deus, acreditando que sua própria vontade seja a melhor e querendo vê-la realizada. A transferência da confiança de Deus para si mesmo (Jr 17.5) pode ser ciente e expressa, mas é frequente que ela se revele somente em uma ou mais emoções – por exemplo, ira, desânimo, depressão, ansiedade ou medo — manifestadas à medida que a providência de Deus se desenrola contrariamente ao que era esperado (1Rs 19.1-18; Sl 4.4, 5).
Consequências do controle – Gálatas 6.7
Sentir-se exausto ou desanimado por querer controlar aquilo que somente Deus pode verdadeiramente controlar.
- Ter dificuldade em perdoar, pois “entregar” aquela situação é difícil.
- As consequências maiores que, por sua vez, podem surgir a partir da ira, ansiedade, decepção ou depressão, que uma pessoa sente quando a vida não segue o rumo desejado.
- Relacionamentos tensos e/ou destruídos (com Deus e com os outros), visto que seu foco está na satisfação pessoal e não em servir a Deus e aos outros.
Por que o controle é importante para Deus?
No sentido descrito acima, o controle é idolatria. É uma forma de adoração de si mesmo (2Co 5.15). Quando uma pessoa se apoia no próprio entendimento e determina o que acredita ser melhor, sua tendência é ter dificuldade para confiar e adorar a Deus, que está no controle e que verdadeiramente sabe o que é melhor (Is 55.8, 9; Rm 11.33-36).
Como resultado da queda em Gênesis 3, a humanidade tem a tendência de confiar em si mesma e desejar, acima de tudo, a realização da própria vontade, colocando-nos em oposição uns aos outros e a Deus (Gn 3.16b; Tg 4.1-10). O controle é importante para Deus porque desvia a adoração e a glória que Ele merece e as direciona para aquilo que uma pessoa determina que “deve” acontecer. Essa ação exalta a pessoa e seus próprios desejos, negligenciando a Deus e Seus desejos.
Como resultado, as pessoas são controladas por seus próprios julgamentos e expectativas, e não pelo amor a Deus ou ao próximo. Falando sobre qual deveria ser a motivação de um cristão, Paulo escreve: “Pois o amor de Cristo nos domina, porque reconhecemos isto: um morreu por todos; logo, todos morreram. E ele morreu por todos, para que os que vivem não vivam mais para si mesmos, mas para aquele que por eles morreu e ressuscitou” (2Co 5.14, 15). A definição do verbo “dominar”, usado aqui por Paulo, é impulsionar ou forçar uma pessoa a uma ação; constranger ou motivar. Ao pensarmos em controle, precisamos garantir que nossas motivações e ações nesta vida sejam guiadas pelo grande amor que Cristo demonstrou por nós em Sua vida e morte, para que Seu amor nos controle a vivermos para Ele e não conforme nós achamos que a vida deveria ser.
Confiança dependente em Deus
Provérbios 3.5 diz: “Confie no SENHOR de todo o seu coração e não se apoie no seu próprio entendimento”. Quando a vida não segue o rumo que esperávamos, o rumo que acreditávamos ser o melhor e o mais sábio, devemos depositar nossa confiança em Deus. Meditar em pelo menos três dos atributos de Deus ajuda-nos a depender humildemente de Deus e a adorá-lO, confiando nEle e em Sua vontade, mesmo quando acreditamos que o que está acontecendo no mundo ao nosso redor é confuso, difícil ou simplesmente um dia terrível, horrível, péssimo.
- Deus é soberano – Salmo 103.19
- Deus é sábio – Isaías 55.8, 9
- Deus é amoroso, bom – Romanos 8.28, 29
Um exemplo bíblico de confiança
Encontramos um exemplo bíblico de confiança em José (Gn 50.20). Ao falar com seus irmãos, José sabia, humanamente falando, que eles eram responsáveis pelo mal que lhe haviam feito tantos anos antes – “vocês, na verdade, planejaram o mal contra mim”. Contudo, José também acreditava que Deus estava no controle final e permitiu o mal para o seu bem e o de Israel — “porém Deus o tornou em bem”. José, portanto, acreditava que Deus tinha o controle soberano sobre os acontecimentos e que, em Sua sabedoria, planejou tudo para o bem do Seu povo – “para fazer, como estão vendo agora, que se conserve a vida de muita gente”. Ao refletir sobre a vida de José, estou convencido de que sua fidelidade foi resultado direto de como ele lidou com suas circunstâncias incrivelmente difíceis mantendo uma perspectiva correta da soberania, sabedoria e bondade de Deus. Isso o levou a uma confiança humilde e dependente em seu Deus. Mesmo que, em alguns momentos de sua vida, José não tivesse ideia do bem que Deus estava fazendo (Gn 42.21), ele conhecia o seu Deus e confiava nEle (Gn 45.5). O Salmo 9.10 diz: “Em ti, pois, confiam os que conhecem o teu nome, porque tu, SENHOR, não desamparas os que te buscam”.
Fidelidade no serviço a Deus e ao próximo
“Pai, se queres, afasta de mim este cálice! Contudo, não se faça a minha vontade, e sim a tua” (Lc 22.42). Um coração que depende humildemente de Deus e O adora, confiando nEle, pode se desapegar do desejo de controle (Sl 131) e voltar seu olhar para servir fielmente ao Senhor e à Sua perfeita vontade (Lc 22.42). Quando surgem circunstâncias contrárias ao seu desejo, o coração que quer aprender a entregar o controle não deve perguntar “Como posso controlar e obter o que quero?”, mas sim “O que Deus quer?” e “Como posso amar e servir aos outros, conforme diz a Palavra de Deus, mesmo nesta circunstância?” A pessoa que antes costumava controlar deve resistir ao desejo de ir além daquilo que Deus dá aos Seus filhos a responsabilidade de fazer/controlar e servir fiel e humildemente ao Senhor e ao Seu propósito (Fp 2.3, 4; Mc 10.45; 1Co 4.2; Mt 22.37-40).
Conclusão
Ao ler sobre o coração e as manifestações de controle acima, espero que aquilo que precisa ser “despido”, “renovado” e “revestido” (Ef 4.22-24) tenha ficado mais claro. Lembre-se de que tanto o coração — ou seja, pensamentos, desejos, esperanças, expectativas, confianças – quanto as mãos – ou seja, todas as manifestações físicas – devem ser considerados enquanto você trabalha em seu arrependimento para a glória de Deus (1Co 10.31).
Em conclusão, oro que nosso grande Deus seja glorificado nos corações em luta à medida que Ele for conhecido mais plenamente, para que não somente se confie na providência divina, mas ela seja também exaltada, e os propósitos divinos não somente sejam aceitos, mas cumpridos de todo o coração. Que a vontade de Deus seja feita na terra como nos céus!
Como escreveu Corrie Ten Boom: “Nunca tenha medo de confiar um futuro desconhecido a um Deus conhecido.”
Daniel Schubert atua como pastor conselheiro na Countryside Bible Church em South Lake, Texas.
Original do artigo: Is the Term “Control” a Biblical Way to Describe a Seemingly Common Problem?
Artigo publicado pelaAssociation of Certified Biblical Counselors
Traduzido e adaptado para o português com permissão.