A Sociedade “Proverbial” e a Sociedade do Século 21

Carlos Osvaldo Pinto

É possível que durante a leitura do primeiro artigo desta série, você tenha perguntado: “Que sentido faz estudar, no século 21, um livro dirigido a uma sociedade tão diferente da nossa?”. É uma pergunta relevante que merece uma resposta séria, uma comparação da sociedade “proverbial” com a sociedade contemporânea. Ao fim desta comparação, você poderá decidir se vale a pena ou não estudar Provérbios hoje.

Uma sociedade violenta
Provérbios 1.10 alerta o jovem contra a sedução dos grupos de “guerrilheiros urbanos” que ameaçavam  a estrutura da sociedade, fazendo do materialismo um deus. A vida humana era reputada como coisa de pouca valia, facilmente ceifada em troca de bens materiais ilicitamente obtidos. Em nossa época de “trombadinhas” e “trombadões”, tais conselhos são importantes.

Uma sociedade gananciosa
Salomão iniciara um processo de concentração de riquezas que acabaria por resultar na divisão do reino. A ordem era conseguir o máximo no mínimo de tempo. Parece o capitalismo desenfreado… que reduz a vida a um mero instrumento gerador de recursos e que é tão comum em nossos dias. A exortação de Provérbios 1.19 merece ser ouvida e considerada com atenção em nossos dias: “Tal é o caminho de todos os gananciosos; quem assim procede a si mesmo se destrói”.

Uma sociedade endividada
Como decorrência natural da fome materialista, a sociedade de Provérbios tornou-se uma sociedade de agiotas e endividados (6.1-4). Por mais impossível que nos pareça escapar aos laços dos empréstimos pessoais e cartões de crédito, vale a pena considerar as sugestões de Provérbios sobre o assunto.

Uma sociedade hedonista
Várias passagens em Provérbios alertam contra o perigo de um envolvimento com a sensualidade e a promiscuidade (2.15-19, 5.1-23, 6.20-35, 7.1-27). É lógico que Salomão não precisava fechar os olhos ao passar em frente a uma banca de revistas nem fugir dos links para sites pornográficos na internet, como acontece hoje, mas o espírito de autogratificação indiscriminada e indisciplinada que marca a sociedade do Rock in Rio já estava presente trinta séculos atrás. As mulheres já seduziam e os homens já “conquistavam”, embalados no ócio da prosperidade (6.6 ss). Qualquer semelhança com o Big Brother Brasil não é mera coincidência!

Uma sociedade drogada
O vinho e a bebida forte corriam soltos entre a sociedade “proverbial”. O alerta do sábio rei era contra a utilização da bebida como um escape às realidades da vida e, particularmente, contra a utilização de bebidas fermentadas de cereais e frutas diferentes da uva, mais intoxicantes. As advertências em Provérbios 23.19-21, 29-35 são suficientes para nossa sociedade exportadora de cachaça e importadora de uísque, conexão importante e consumidora (consumida) crescente de cocaína e maconha. O que por eles é dominado não é sábio!

Uma sociedade perdulária
Temos ouvido falar que o Brasil é o país do desperdício, recordista mundial do mau aproveitamento de seus recursos. Salomão já verificara problema semelhante em sua época (cf. 13.23). A causa de tal situação é hoje a mesma de então, a falta de justiça, que resulta primeiro em desonestidade na aplicação de recursos e depois na dissipação inconsequente dos benefícios obtidos com o trabalho.

Uma sociedade subornada
Provérbios 17.8 indica a avaliação que o subornador faz de sua “transação”: “O suborno é um recurso fascinante para aquele que o oferece; aonde quer que vá, ele tem sucesso”. Não há no texto apoio para tal prática, proibida em Êxodo 23.8 e Deuteronômio 16.19, e tão tristemente em voga em nossos dias no Congresso Nacional, onde o neologismo mensalão identifica a “mesada” paga a deputados para a compra de votos. Num país onde a “caixinha” é uma instituição aparentemente inabalável, o alerta salomônico é importantíssimo.

Uma sociedade voluntariamente ignorante do bem
Provérbios 1.21-22 apresenta o quadro triste de uma sociedade avestruzesca, que fecha voluntariamente seus olhos à verdade. O homem e a mulher que circulam cada manhã nos vagões lotados do metrô, e os juízes que se assentam nos tribunais, o engraxate e o embaixador, o diarista e o deputado, o servente e o senador, são todos igualmente tachados de loucos, insensatos e escarnecedores. De alto a baixo nossa sociedade louva o canalha, torce para o bandido, exalta o vilão e defende os direitos dos criminosos, esquecendo-se das vítimas.

Faz-me lembrar da adulteração de pesquisas antropológicas realizadas na África por um eminente antropólogo, quando os resultados dos testes a que foram submetidas suas descobertas contrariaram a teoria que ele esposava. Quem, mais ou menos informado na longa controvérsia evolucionista, não se recorda das fraudes do Homem de Nebraska e do Homem de Piltdown?  “Dizendo-se sábios, tornaram-se loucos … e o coração insensato deles obscureceu-se” (Rm 1.22-23).

Aí está uma comparação breve, mas realista, entre as duas sociedades. Não há com escapar do fato de que os problemas de ontem são os problemas de hoje, embora sua manifestação possa diferir em método e dimensão. Os princípios eternos encontrados no livro de Provérbios são úteis hoje em sua vida. Tire proveito deles!
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Artigo publicado originalmente na Revista Palavra da Vida, ano 1, n. 2, p.10, 1985.
Revisto e atualizado com permissão do autor.

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