Uma família “proverbial”

Carlos Osvaldo Pinto

A Família Ideal em Provérbios
Como vocês já sabem, Provérbios muitas vezes apresenta as coisas não como são, mas como deveriam ser caso o homem se submetesse aos padrões divinos. O mesmo acontece com a vida familiar. Nosso estudo anterior demonstrou que a sociedade “proverbial” apresentava as mesma doenças que são crônicas em qualquer sociedade moderna. Haveria o mesmo problema no domínio do lar, da família? Se houve, quais foram as soluções propostas por Deus através de Salomão? Como podemos aplicá-las hoje? Analisando o quadro ideal apresentado pelo livro, esperamos responder as três questões acima.

Os filhos da família ideal
Para alegria e alívio geral dos filhos, Provérbios não espera que o bom filho seja um dos gênios do vestibular, capaz de entrar em faculdades antes de ter equilíbrio socioemocional para enfrentar a vida adulta. Qual é a grande virtude solicitada dos jovens em Provérbios? É melhor deixar que as palavras do próprio Salomão respondam:  “Os filhos dos filhos são uma coroa para os idosos, e os pais são o orgulho dos seus filhos” (17.6). “Os olhos de quem zomba do pai, e, zombando, nega obediência à mãe, serão arrancados pelos corvos do vale, e serão devorados pelos filhotes do abutre” (30.17).

Em primeiro lugar, Salomão destaca um atitude de respeito e submissão àqueles que Deus colocou na vida do jovem como ferramentas para moldar seu caráter.  É claro que nem todos os pais fornecem aos filhos motivo de glória, seja pela sua conduta irregular ou pelo temperamento incontrolado. Ainda assim, o jovem temente a Deus pode encontrar em tal situação os meios pelos quais sua vida estará mais ligada ao Senhor e mais dependente de Seu poder.

O filho ideal de Provérbios é, ainda, uma pessoa submissa à vontade revelada de Deus. Provérbios 10.1 e 29 apresentam os dois lados dessa moeda: o filho sábio alegra a seu pai, mas o filho insensato é a tristeza de sua mãe. O homem que ama a sabedoria alegra a seu pai, mas o companheiro das prostitutas desperdiça os bens.

Já sabemos que a sabedoria é fruto do temor a Deus; agora vemos o efeito que a sabedoria tem na vida de um jovem. Nenhum pai, por mais pervertido que seja, pode deixar de se alegrar em um filho cuja vida reflita o caráter justo e santo de Deus. Mesmo uma eventual perseguição é apenas um reflexo da luta íntima que se trava no coração de tal pai em face da inversão de valores ocorrida em sua família, onde o filho é exemplo (e acusação) para o pai, em vez do contrário.

Uma última característica do filho ideal é sua operosidade: “Aquele que faz a colheita no verão é filho sensato, mas aquele que dorme durante a ceifa é filho que causa vergonha” (10.5).  Em nossa sociedade orientada para o lazer, o jovem crente deve se esforçar por ser uma ajuda e não um peso para sua família. Ele não deve se entregar ao comodismo nem ao consumismo, demonstrando antes operosidade e espírito de luta. No tempo de Salomão, o pecado era dormir na época da colheita; hoje seria dormir na linha de produção ou na hora do balanço anual. Temor a Deus, respeito aos pais e “garra” no trabalho tornam o jovem crente um filho que qualquer pai gostaria de ter.

O marido e o pai de família ideal
Mesmo correndo o risco de me tornar repetitivo, é preciso ressaltar aquilo que Provérbios destaca como a qualidade vital de um marido e pai. “Aquele que teme o SENHOR possui uma fortaleza segura, refúgio para os seus filhos” (14.26). Acima do que as riquezas possam assegurar, mais do que uma boa reputação, a maior necessidade dos filhos é ver no pai a firmeza de caráter e de convicção que procede de uma fé pessoal e consciente em Deus através de Jesus Cristo. Nossa geração já sofreu grandes assaltos satânicos (o mito de que o castigo corporal era prejudicial, a saturação das mentes com música violenta e a contracultura das drogas são alguns exemplos); a geração de nossos filhos precisa de refúgio contra a invasão da pornografia, do ateísmo, da violência urbana, do desprezo pela vida, uma invasão já instalada em nossas salas, telas e caixas de som. Se Papai não fornecer alternativas inteligentes e críveis com seu próprio estilo de vida, não haverá esperança para a geração iniciada nos últimos dez anos.

Como é que um pai faz isso? Provérbios exige que ele dedique tempo à instrução de seus filhos, estabelecendo limites de comportamento baseados no caráter revelado de Deus. “Ouça, meu filho, a instrução de seu pai e não despreze o ensino de sua mãe” (1.8). A palavra “ensino” é uma palavra forte, que envolve, além da ideia de transmissão de informação, a disciplina (verbal e corporal) para que a informação seja interiorizada. Provérbios define um pai amigo como um pai disciplinador: “Quem se nega a castigar seu filho não o ama; quem o ama não hesita em discipliná-lo” (13.24). A segunda parte do versículo seria literalmente traduzida por “procura (o filho) com disciplina” e a palavra utilizada para disciplina é a mesma traduzia por “ensino” em 1.8. Um pai que ama é um pai que investiga, não como policial, mas como um verdadeiro pedagogo, um guia amoroso que sabe informar aos filhos quanto às armadilhas da vida moderna, o anarquismo (1.10), a sensualidade (5.1ss), a ganância, a preguiça  e as más companhias (6.1-19).

Seria quase supérfluo dizer que o pai ideal provê o necessário a seus filhos. Provérbios, todavia, indica que a atitude correta não é um apego excessivo às coisas materiais; um pai excessivamente apegado ao dinheiro, um pai “sovina”, pode fomentar em sua casa uma atitude de desânimo e revolta. “Quem causa problemas à sua família herdará somente vento; o insensato será servo do sábio” (11.29). Os comentaristas judeus entendem este versículo como uma condenação ao acúmulo desenfreado que acaba por desestabilizar a vida da família. “O amor ao dinheiro é a raiz de todos os males” (1Tm 6.10)! Um bom pai deve ser generoso sem ser gastador, econômico sem ser excêntrico.

Temor a Deus, orientação amorosa e individualizada, e provisão adequada das necessidades da família, são as marcas de um pai ideal em Provérbios.

A esposa e mãe ideal em Provérbios
Quem afirma que a Bíblia é um livro machista certamente pulou o livro de Provérbios (se é que já verdadeiramente leu a Bíblia). Neste livro, as responsabilidades da esposa e mãe estão intimamente ligadas às do marido e pai, sem que, contudo, se misturem ou confundam. Provérbios tem toda uma divisão do livro dedicada a exaltar a mulher.

A mãe ideal em Provérbios participa do treinamento dos filhos, recebendo autoridade do marido para fazer valer os padrões estabelecidos em conjunto. “Meu filho, obedeça aos mandamentos de seu pai e não abandone o ensino de sua mãe. […]  Pois o mandamento é lâmpada, a instrução é luz, e as advertências da disciplina são o caminho que conduz à vida (6.20, 23). Ela é uma espécie de sargento, ficando em contato mais direto com a “tropa” e “interpretando”, nas diversas situações do dia-a-dia, as determinações do quartel-general.

Provérbios 31.1-31 indica que a mãe ideal é cuidadosa com o bem-estar de sua família (31.12, 21), é uma gerente eficaz dos recursos humanos de que dispõe e tem grande criatividade em uma atividade “paralela” de artesanato (31.13-16, 22, 24).

A esposa e mãe ideal de Provérbios é alguém que encoraja e estimula sua família; por sua ajuda, seu marido alcançou posição de respeito na comunidade, tornando-se um dos juízes (31.23); seus filhos são instruídos de maneira a se sentirem amados e respeitados. Ela “fala com sabedoria e ensina com amor” (31.26).

Ela fornece aos filhos um exemplo marcante de generosidade e sensibilidade às necessidades de pessoas fora do círculo mais próximo de suas preocupações. Mesmo enfrentando sacrifícios como trabalho a altas horas da noite, ela busca com o que socorrer os desamparados.

Seria de admirar que a chave de tal estilo de vida fosse, é claro, o temor do SENHOR? “A beleza é enganosa, e a formosura é passageira; mas a mulher que teme o SENHOR será elogiada” (31.30). Temor a Deus, envolvimento amoroso com a família, bom uso do tempo e generosidade são as qualidades retratadas como ideais para a mulher na sociedade “proverbial” e, certamente, em nossa sociedade atual.

O relacionamento marido-esposa em Provérbios
O que caracteriza o casal ideal de Provérbios? A palavra mais adequada, ainda, é uma gíria: curtição. O relacionamento marido-esposa em Provérbios sugere uma profunda admiração e desfrute mútuos, em encorajamento e aperfeiçoamento recíprocos, que superam e antecedem em muito os conceitos mais avançados de igualdade de direitos e responsabilidades propostos pelas feministas em nossa sociedade.

Marido e esposa são companheiros (2.17), palavra muito gráfica, que sugere o ato de domar um animal forte, mas sem os devidos controles. Marido e esposa se “domam” mutuamente sob a liderança divina.

O jovem marido é fortemente aconselhado ser inteiramente dedicado a sua esposa. Que contraste com a promiscuidade de sociedades como a grega e a romana, onde a luz da revelação divina não penetrara! E para quem pensa que o amor entre as pessoas crentes é necessariamente insosso como chuchu sem sal, basta ler Provérbios 5.15-20 (nem estou falando do Cântico dos Cânticos!). O amor físico, sensual, entre dois crentes legitimamente unidos no Senhor, é o mais belo dos relacionamentos humanos. Aos olhos do mundo, pode haver ali apenas sexo, mas aos olhos de Deus há compromisso, entrega, altruísmo e a comunhão mais íntima entre dois seres humanos.

O relacionamento entre marido e esposa em Provérbios é de mútua confiança e de constante estímulo. Todos sabem que ela é a mais importante para ele; ela se faz digna de sua confiança e nisso está sua maior realização. “Seu marido tem plena confiança nela e nunca lhe falta coisa alguma. […] seu marido também a elogia, dizendo: ‘Muitas mulheres são exemplares, mas você a todas supera’ ” (31.11, 29).

Há quase 38 anos, ao preparar seus votos de casamento, o autor deste artigo e sua noiva tomaram por base o livro de Provérbios. Ao longo desses 37 anos e alguns meses, e agora já agindo como avô e avó, os princípios encontrados nas páginas de Provérbios têm sido nosso manual de relacionamento familiar e, sempre que colocados em cheque, saíram vencedores. Os padrões divinos para o relacionamento familiar não são ilusões de uma sociedade utópica! Eles valem hoje, e quando nosso lar deixa de ser ideal, o remédio é voltar atrás, ler as instruções divinas e confiar no Deus que as prescreveu. “Cada palavra de Deus é comprovadamente pura; Ele é um escudo para quem nele se refugia” (30.5).

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Artigo publicado originalmente na Revista Palavra da Vida, ano 1, n. 3, p.14-15, 1985, e atualizado com permissão do autor.

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