Automutilação: identificando o problema (parte 1)

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Recentemente, o caderno on-line Equilíbrio e Saúde da Folha de São Paulo publicou um  alerta sobre vídeos do YouTube que podem incentivar os jovens ao comportamento identificado como automutilação. O mesmo artigo relata que no Orkut há onze comunidades sobre automutilação, e a maior delas tem cerca de seiscentos membros. O problema é pouco mencionado e costuma ser mantido em segredo por aqueles que o praticam, mas cresce entre os mais jovens e começa a despertar a atenção. Os profissionais da saúde identificam a automutilação como um transtorno do comportamento ainda em estudo. O Instituto de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da USP, por meio do Ambulatório Integrado dos Transtornos do Impulso (AMITI), define a automutilação como qualquer comportamento intencional envolvendo agressão direta ao próprio corpo, sem objetivo consciente de suicídio.

A quantidade de recursos disponíveis sobre o assunto ainda é limitada na língua portuguesa. Queremos voltar a atenção para a perspectiva bíblica. Paul Randoph e Edward Welch contribuem para o retrato do problema de maneira a conduzir ao entendimento bíblico.

A percepção de um conselheiro bíblico
Em I Can’t Help But Hurt Myself (Não Posso Deixar de me Ferir), Paul Randolph, pastor e conselheiro bíblico, escreve sobre o assunto.

Entre os problemas enfrentados atualmente pelos adolescentes, a automutilação é um dos menos discutidos. Enquanto o abuso de álcool e drogas, os transtornos alimentares e o sexo precoce destacam-se na lista de preocupações dos pais, este problema escapa muitas vezes do radar. O que é exatamente automutilação?   Uma das formas mais comuns é o adolescente deliberadamente cortar sua pele com uma lâmina ou outro objeto pontiagudo. Não se trata de uma tentativa de suicídio, embora alguns adolescentes que fazem isso possam ser eventualmente suicidas.  Outras formas de automutilação são coçar a pele até provocar feridas ou queimar-se.

As pesquisas realizadas entre jovens norte-americanos estimam que cerca de um por cento da população adolescente pratica a automutilação. Normalmente, são adolescentes de classe média ou média alta, e bem-sucedidos nos estudos.   Quase metade deles relata ter sofrido alguma forma de abuso físico ou sexual quando criança. A maioria também diz que foram desencorajados na expressão de suas emoções, especialmente raiva e tristeza. Na minha experiência de aconselhamento, muitos destes adolescentes têm pais excessivamente controladores. O número de moças que lutam com este problema é maior do que o de rapazes. A início acontece tipicamente durante a puberdade e a prática pode durar de cinco a dez anos ou mais, se não for tratada.

Há um ciclo na automutilação que é ativado muitas vezes pelo estresse. Por sua vez, o estresse pode ser desencadeado por uma situação difícil, um problema ou uma experiência emocional difícil e prolongada, que leva o adolescente a adquirir o hábito de se cortar. Entre os fatores de estresse, podem estar a ansiedade, a ira, a frustração, a inquietação. Um adolescente recorrerá gradualmente com maior regularidade à automutilação, pois ela proporciona uma sensação de recuperar o controle e obter alívio emocional. A ironia é que a automutilação proporciona essa sensação de controle e alívio, mas faz com que adolescente sinta que não consegue controlar o impulso e a culpa que, por sua vez, roubam a paz.

Independentemente do método utilizado, os automutiladores costumam esconder as suas feridas com a roupa.   Um dos sinais de alerta é quando o jovem se recusa a usar qualquer coisa diferente de camisa de mangas longas e calças, mesmo quando o tempo está quente.   Você também pode perceber várias marcas sobre a pele.  Se você encontrar evidências dos cortes, eles vão dar desculpas como “Eu estava brincando com o gato e ele me arranhou. Se você é um pai que suspeita que o seu adolescente está envolvido na automutilação, é importante que você se mantenha calmo e não surte.   Existe muita vergonha e culpa associados a essa prática e, evidentemente, alguma quebra de comunicação entre você e seu filho adolescente.  Vá devagar ao expressar sua preocupação, tranqüilizar com respeito ao seu amor, e ouvir sem julgar ou agredir.   Como um pai ou um amigo que quer ajudar, perceba que existem razões para esse comportamento.   Comece por tentar compreender o mundo da pessoa.   É importante conversar com um conselheiro que tenha experiência nesta área.

O um jovem quer comunicar por meio desta prática?   Dr. Edward Welch, meu colega na CCEF, descreve algumas das principais mensagens ou significados por trás das razões que levam alguém a praticar a automutilação.[1]

“Eu sou culpado, eu devo ser punido.”
“Eu não sou perfeito”
“Você me magoou porque eu mereço.”
“Eu estou irado.”
“Eu não aguento mais me sentir assim; machucar-me é a única maneira de parar os meus sentimentos.”
“Eu me sinto fora de controle (outras pessoas estão no controle).   Desta forma eu posso ganhar o controle (e ninguém pode me parar).”
“Palavras não podem expressar a minha dor.”
“Ajude-me!”

É óbvio que existe uma série de significados e mensagens atrás da automutilação.   Todas essas mensagens refletem o coração de seu filho — um coração que o motiva o comportamento e que precisa ser atingido.  Como cristãos, temos uma resposta que o mundo não pode dar nem entender.   É a mensagem da graça de Deus, o poder do Evangelho.


[1] “Self-Injury: When Pain Feels Good.” Journal of Biblical Counseling 22:2. (Winter 2004), 31.