Terapia cognitivo-comportamental e renovação bíblica mente/coração

Robert Kellemen

A terapia cognitivo-comportamental equivale à renovação bíblica da mente/coração?
 (Romanos 12.1, 2; Efésios 4.22-24; Colossenses 3.1-10) 

Minha resposta imediata é: “De jeito nenhum”.  Vou desenvolver uma resposta mais extensa logo adiante.

Nos últimos três dias, compartilhei três posts sobre depressão, medicamentos e aconselhamento: aquiaqui e aqui [posts originais em inglês].  Eles são parte da uma interação com meu amigo David Murray. Em um post de seu blog, David fez a seguinte afirmação com relação à terapia cognitivo-comportamental (TCC):
“Ela é, na verdade, uma das maneiras descritas e retratadas na Bíblia da nossa forma de atuar (Salmos 42, 73 e 77; Provérbios 23.7, Romanos 12.12; Filipenses 4.8, 9). Se a TCC é culpada de alguma coisa, sua culpa é, sem querer, plagiar os insights da Bíblia!”

David não menciona especificamente Romanos 12.1, 2, Efésios 4.22-24 nem Colossenses 3.1-10. A sua referência a Romanos 12.12 talvez fosse para ser Romanos 12.2.  No entanto, muitos cristãos que igualam a TCC com a forma bíblica de pensar sobre a renovação da mente/coração fazem uma tentativa de vincular a TCC com as três principais passagens onde Paulo discute o conceito bíblico de despojar-se e revestir-se de um estilo de vida – Romanos 12.1, 2, Efésios 4.22-24 e Colossenses 3.1-10.

Vamos pensar sobre esta tentativa de correlação.

O contexto cristocêntrico como fundamento para as três passagens  
As três passagens seguem uma extensa discussão de Paulo destacando a exclusividade de Cristo – somente Cristo para a salvação, somente Cristo para a santificação, somente Cristo para tudo na vida. Não podemos ler Romanos 1 a 11, Efésios 1 a 4 e Colossenses 1 e 2 e deixar de ver o evangelho como fundamento para tudo!

Antes de Paulo sequer mencionar a mente renovada em Romanos 12, ele usou onze capítulos para discutir as obras, a lei, a relação entre o autoesforço e a graça, o evangelho e a redenção em Cristo somente.

Antes de Paulo sequer mencionar o despojar-se do velho estilho de vida não regenerado em Efésios 4:22-24, ele usou Efésios 1.1 a 4.21 para fundamentar os efésios no evangelho e sua identidade em Cristo.

Antes de Paulo sequer mencionar o revestir-se do novo homem em Cristo, ele usou dois capítulos da carta aos Colossenses para construir o alicerce de que a sabedoria para a vida encontra-se somente em Cristo e para advertir os crentes para que não fossem enredados por filosofias humanas vãs, fúteis e enganosas sobre como ter uma vida saudável, santa, integral em Cristo.

Então… para que a terapia cognitivo-comportamental secular estivesse correlacionada à renovação da mente/coração de que a Bíblia fala e ao despojar-se/revestir-se bíblicos seria necessário que ela estivesse construída sobre um fundamento cristocêntrico. Evidentemente, ela não está, e isso faz toda a diferença.

Devemos ser extremamente cuidadosos para não “batizar” um conceito secular como conceito cristão simplesmente porque ambos parecem cobrir um terreno semelhante: cognição e comportamento. Sim, ambas tratam de crenças e comportamentos, mas a partir de cosmovisões diametralmente opostas – uma tem como centro Cristo e a outra tem como centro o homem.

O contraste entre o foco no não regenerado/regenerado e na estultícia/sabedoria nas três passagens
Em todas as três passagens, o tema central de Paulo é um contraste eterno entre o estilo não regenerado e o estilo regenerado de pensar e de viver. Paulo desenvolve o mesmo tema que encontramos no Salmo 1: o contraste eterno entre a estultícia e a sabedoria.

Paulo não está simplesmente dizendo: “Mude alguns pensamentos e então o comportamento mudará e, em seguida, isso terá um impacto positivo nos seus sentimentos”.
Paulo está dizendo claramente: “Dispa-se da maneira mundana de pensar/viver/ser, e revista-se em Cristo de uma maneira bíblica de pensar/viver/ser, redimida e com o foco em Cristo”.

Romanos 12.2 diz: “Não se amoldem ao padrão deste mundo, mas transformem-se pela renovação da sua mente”. A TCC não diz isso. Sua abordagem não contrasta a estultícia com a sabedoria. Só porque a TCC fala no processo cognitivo não significa que sua cosmovisão a esse respeito tenha algo a ver com a discussão de Paulo em Romanos 12.2.

Em Efésios 4.17-21, o questão central de Paulo é insistir que não devemos mais pensar nem viver como o incrédulo, na futilidade dos seus pensamentos sobre a fonte da vida. Eles estão obscurecidos no seu entendimento e separados da vida de Deus. Paulo está dizendo: “Não vá àqueles que estão separados da vida de Deus para descobrir como viver com sabedoria para e por meio de Deus!”.

Em Colossenses 3.1-11, Paulo destaca que desde que fomos ressuscitados com Cristo, devemos colocar nosso coração nas coisas do alto, onde Cristo está sentado à direita de Deus, e manter nossa mente nas coisas do alto, não nas coisas terrenas. Ele prossegue dizendo que temos de nos revestir do novo homem que já somos em Cristo – o novo homem que está sendo renovado em conhecimento cristocêntrico e sabedoria à imagem do Criador.

A questão fundamental de que Paulo trata nessas passagens é que o cristão deve evitar a antiga maneira de pensar sobre a vida – não regenerada, estulta, baseada em obras e no autoesforço em lugar de Cristo. Esta não é a mensagem da TCC.

Portanto, se alguém quiser praticar a TCC, que a pratique. Mas, por favor, não estabeleçamos uma igualdade simplista entre a TCC e passagens bíblicas como Romanos 12.1, 2, Efésios 4.22-24 e Colossenses 3.1-10. Elas não estão cobrindo o mesmo terreno de forma semelhante quanto ao fundamento.

A ênfase mais rica, sólida e profunda presente nas três passagens 
Alguém poderia dizer: “Então você está sugerindo que ignoremos os aspectos cognitivo e comportamental só porque a TCC lida com eles de uma maneira não cristã?”.  De forma nenhuma.
Pelo contrário, unindo-me a Paulo, estou sugerindo que nos dirijamos às crenças e aos comportamentos de forma muito mais rica, mais sólida e mais profunda como Paulo faz nessas três passagens.
Por que pegar fragmentos superficiais do pensamento secular quando temos um inteiro banquete no pensamento cristocêntrico?

Efésios 4.17-24 é apenas um exemplo ilustrativo dessas três passagens importantes. Neste texto, Paulo disseca o nosso pensamento, o nosso entendimento, o nosso relacionamento com Cristo, o nosso coração, a nossa vontade, as nossas motivações, as nossas emoções, os nossos anseios e desejos, e muito mais.

Em cada caso, Paulo não fala simplesmente sobre crenças individuais, ações ou emoções das quais devemos nos despojar ou revestir. Ele fala sobre os padrões profundamente arraigados de afeições relacionais, componentes racionais, motivações volitivas e estados de humor dos quais nos despojamos e revestimos. Paulo fala sobre o “modo de pensar” (NVI) ou o “espírito do entendimento” (ARA) – o próprio espírito, a essência ou o centro das profundezas do coração. Paulo vai fundo. E Paulo faz tais colocações no contexto da santidade contrastada com a pecaminosidade. Nossos relacionamentos, pensamentos, crenças, motivações, ações e emoções não são neutros. Fazemos tudo o que fazemos em relação a Deus, como seres Coram Deo – perante Deus.

Além disso, Paulo faz todas as suas colocações no contexto do crente que já mudou em Cristo. “Uma vez que você já é uma nova criatura em Cristo, não viva mais como o velho homem. Pelo contrário, viva como a novo homem que você já é em e por meio de Cristo.” (Cf. Cl 3.9)

A pergunta não é tanto “Como as pessoas mudam?”. A pergunta é “O que Cristo mudou nas pessoas?”.  E então perguntamos: “Como é que nós, por meio do Espírito de Deus, da Palavra de Deus e do povo de Deus expressamos a vida transformada que já temos em Cristo?”.

Com isso, Paulo e eu não estamos dizendo para ignorar os aspectos cognitivos e comportamentais. Pelo contrário, Paul está dizendo para abordar as profundezas da inteira personalidade humana com a riqueza do entendimento cristocêntrico. Isso não é TCC.

O contexto de vida no corpo de Cristo presente nas três passagens
Alguns poderiam dizer: “Este é exatamente o campo de ação dos “profissionais” e dos “especialistas” e, certamente, não é algo com que um simples pastor ou um leigo devem se envolver!”. Vamos, então, usar Colossenses 3 como um exemplo de como as três passagens estão inseridas em um contexto de vida no corpo de Cristo.

Ao longo da carta aos Colossenses, Paulo está falando sobre as mesmas questões que levam atualmente as pessoas a um psicólogo. Quando lemos Colossenses 1 a 4, nós nos damos conta rapidamente de que Paulo está falando sobre problemas de relacionamento, ira, comportamento viciado ou compulsões, questões familiares, lascívia, criação de filhos, emoções, problemas de comportamentos habituais, sofrimento etc. e tal. Ele sempre fala sobre como lidar com estas questões importantes da vida de forma condizente com a vida em Cristo. E a quem Paulo envia os colossenses para tratar destes importantes problemas da vida? Ele os envia uns aos outros!

É exatamente no contexto de todas essas questões que envolvem despojar-se e revestir-se que Paulo escreve: “Que a paz de Cristo seja o juiz em seus corações, visto que vocês foram chamados a viver em paz, como membros de um só corpo. E sejam agradecidos. Habite ricamente em vocês a palavra de Cristo; ensinem e aconselhem-se uns aos outros com toda a sabedoria, e cantem salmos, hinos e cânticos espirituais com gratidão a Deus em seus corações” (Cl 3.15, 16).

Paulo está dizendo à igreja:
“Não se considere em posição de inferioridade com relação a ninguém para lidar com seus importantes problemas da vida!” 

E então? 
A terapia cognitivo-comportamental equivale à renovação bíblica da mente/coração?
De jeito nenhum.

  • O fundamento da TCC não é cristocêntrico.
  • A mentalidade da TCC é que existe algum conhecimento superior, secreto e de especialista, necessário para ajudar as pessoas em suas lutas, em lugar do encorajamento que os membros do corpo de Cristo pode ministrar efetivamente a um outro.
  • O foco da TCC não é o contraste entre o modo de viver não regenerado/estulto e o modo de viver regenerado/sábio.
  • A ênfase na TCC não está em uma mudança tão rica, sólida e profunda quanto a renovação bíblica da mente/coração/alma/motivação/emoção.

Será que precisamos lidar com as crenças e os comportamentos? Certamente!
Nós o fazemos, porém, a partir de um fundamento cristocêntrico, com foco no pensamento regenerado e de sabedoria de Cristo, com ênfase em uma renovação integral e abrangente do novo homem em Cristo –uma renovação rica, sólida e profunda – e respeitando o chamado e ministério do corpo de Cristo.

Original: Is Cognitive-Behavioral Therapy the Same as Biblical Mind/Heart Renewal?
Fonte: RPM Ministries