O “psicológico” existe?

Hands trying to fit two puzzle pieces together

Edward Welch

Os ingredientes do psicológico certamente existem. Eles estão entre os aspectos mais importantes e interessantes da nossa vida interior, que inclui padrões de pensamento, personalidade, emoções e motivações pessoais. Mas o reservatório conceitual que os reúne – o psicológico – seria de fato uma categoria real e útil, ou desnecessária e inútil para a compreensão do ser humano? Existe uma parte distinta de nós que não é espiritual nem biológica, mas psicológica? Sugiro que aquilo que nós conhecemos como o psicológico é uma expressão de nosso corpo e espírito.

O que é o psicológico?
Sim, eu estou levantando mais uma vez a questão da perspectiva tricotômica. Ela ganhou popularidade com Clyde Narramore, no final da década de 1950, quando ele declarou o seguinte:

  • se você tem um problema do corpo, consulte um médico;
  • se você tem um problema da alma (psicológico), converse com um psicólogo;
  • se você tem um problema espiritual, converse com um pastor.

O problema aqui é que a Bíblia não identifica problemas psicológicos isolados, divorciados do nosso corpo e espírito.

Levanto aqui essa questão porque o psicológico é uma categoria que tende a ser separada e excluída da superintendência ativa das Escrituras. Observe, por exemplo, que na formulação de Narramore o psicológico está fora do domínio do cuidado pastoral e, consequentemente, da própria Bíblia. Isto significa que o psicológico está desconectado de ou é periférico à nossa conexão com Deus. Esta desconexão deve despertar nossas suspeitas. Berkouwer escreve: “Podemos dizer sem medo de contradição que o ponto mais notável no retrato bíblico do homem reside no fato de que ele nunca chama a atenção para o homem em si mesmo, mas reclama nossa plena atenção para o homem no que diz respeito à sua relação com Deus.” 1 Tudo quanto fica aquém desta visão fica aquém de uma visão bíblica da pessoa.

Somos almas encarnadas… conectadas a Deus
Existem duas alternativas à perspectiva tricotômica. Uma delas é que somos apenas seres físicos – corpo, e somente corpo. Esta é a visão dominante na cultura ocidental, e cada vez mais popular entre os cristãos. Em outra ocasião, escreverei mais sobre isso. O outro ponto de vista, com raízes profundas na história da igreja, é que nós somos uma dualidade; somos almas encarnadas. O corpo é o aspecto de carne e sangue, o aspecto físico da nossa existência enquanto a alma reúne todos os aspectos da pessoa interior e compartilha seu campo semântico com palavras como espírito, coração e mente. Em suma, consistimos de substância espiritual e substância física, que coexistem e estão interligadas uma à outra, apesar de estarem sujeitas à separação na morte. Esta dualidade está em vista quando o apóstolo Paulo escreve:

“Mesmo que o nosso homem exterior [corpo] se corrompa, contudo, o nosso homem interior [espírito, alma] se renova de dia em dia” (2Co 4.16).

A renovação interior da qual ele fala não se limita a uma parte restrita de sua pessoa, mas sim a todo o seu ser interior – sua mente, seu coração, seu espírito.

Esta visão dicotômica pode ser retratada com um círculo que representa o nosso corpo e um coração que representa o nosso homem interior.
Não assim: …………….Mas assim:
psicologico-1 psicologico-2

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O coração é onde encontramos o turbilhão de nossas paixões, os desejos, o pesar, os sonhos e as esperanças. É onde estabelecemos o curso moral de nossas vidas. E é onde afirmamos as nossas alianças espirituais: somos a favor do Deus verdadeiro ou declaramos nossa independência ou neutralidade? Em outras palavras, a perspectiva dicotômica aponta-nos sempre para a nossa conexão com Deus. Tudo quanto diz respeito à nossa humanidade é moldado pelo nosso Criador e Redentor e leva-nos a Ele. Podemos nem sempre perceber como o nosso conhecimento de Deus é tão essencial para nós, pois podemos suprimir essa verdade ou distorcê-la, mas tudo move-se em orbita ao redor desse centro.

Vamos colocar essa discussão em nossa agenda
Há muito mais a dizer. Por agora, o meu interesse é que não fiquemos presos a quaisquer categorias que operam de forma independente das Escrituras como é o caso do psicológico que, na prática, está funcionalmente desconectado do nosso relacionamento com o Senhor.

Para fazer isso, porém, precisamos rejeitar a visão tricotômica da pessoa, pegar todos os conteúdos que foram colocados na categoria psicológica e relocá-los para o nosso corpo ou para a alma/homem interior. Esta relocação amplia a nossa compreensão do ser humano, não a restringe. A dualidade de corpo e espírito, do homem interior e exterior, ecoa de forma mais profunda a descrição da pessoa dada pelas Escrituras e recaptura integralmente a pessoa para debaixo do cuidado e soberania de Deus.

Esta é uma discussão importante, que tem implicações muito práticas, e este breve esboço da questão é, na melhor das hipóteses, simplista. Meu interesse é incentivar um despertamento dessa discussão latente.

1Citado de Man: The image of God, p.195; veja também Gundry, Soma in Biblical Theology.
Original: The psychological does not exist

2 comentários sobre “O “psicológico” existe?

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