Psicologia e Bíblia: lidando com os problemas que a Bíblia não menciona – Parte 6

Como cristãos, afirmamos crer que a Bíblia é a Palavra de Deus, nossa “regra de fé e conduta”. Ao nosso redor, porém, crescem as vozes que nos dizem que os problemas profundos da alma e os problemas mais complexos do comportamento humano precisam de “algo mais” para serem entendidos e curados. Bíblia e psicologia competem ou se unem como aliadas no aconselhamento? A questão é atual e ampla. Neste e nos demais posts da série, levantamos as perguntas mais frequentes e reunimos citações extraídas de artigos de David Powlison e Edward Welch que nos levam rumo às respostas. Encorajamos a leitura completa dos artigos, que podem ser encontrados nos volumes de 1 a 8 de Coletâneas de Aconselhamento Bíblico (CAB), revista publicada pelo Seminário Bíblico Palavra da Vida com conteúdo de Journal of Biblical Counseling, publicado pela Christian Counseling and Educational Foundation.

CAB_post

•• O que fazer com aqueles problemas atuais que a Bíblia não menciona, e como lidar com os diagnósticos psiquiátricos e os transtornos mentais?

Edward Welch. Pecado ou doença? O aconselhamento bíblico e o modelo médico – CAB  vol. 4

Welch desperta nossa atenção para um novo vizinho presente nas redondezas: a psiquiatria moderna.

A palavra doença implica que a responsabilidade pessoal fica diminuída ou ausente e também que a medicina é o “provedor de serviços”. […] O modelo médico ampliou seu quintal bem silenciosamente. Não mais limitado ao ambiente químico do corpo, agora ele inclui também qualquer comportamento fora do comum. Tudo, desde a desobediência aos pais até o assassinato (a menos que todos o praticassem, pois nesse caso seria normal), é agora uma doença, o que significa por definição que as pessoas afetadas não são responsáveis.

Do ponto de vista bíblico, existem problemas óbvios nesse modelo. O mais evidente é que o modelo médico ou a ideia de doença ignora o fato de que os seres humanos são uma unidade de duas partes: física e espiritual, corpo e coração. Sem dúvida, o modelo médico encontra um âmago de verdade no fato de que o corpo pode ter uma profunda influência sobre o coração. Por exemplo, uma disfunção cerebral pode afetar a habilidade de compreensão, limitar a expressão do coração e fazer com que a pessoa fique mais suscetível a ser tiranizada pelo pecado. Mas o corpo não é a fonte do pecado. Os problemas físicos não podem fazer com que uma pessoa seja pecadora nem obediente (cf. 2Co 4.16). O iniciador moral é o coração. O corpo é tanto uma influência sobre o coração como também um instrumento para que o coração se expresse.

Do ponto de vista médico, também há problemas evidentes no modelo médico. Um problema obvio é que o termo anormal é ambíguo, enraizado na cultura, na opinião e no preconceito, não na ciência. O que é anormal para uma pessoa não é anormal para outra e o que é anormal em um país não é anormal em seu vizinho. Portanto, não nos deve surpreender a revelação feita por um professor de psiquiatria da Universidade de Yale: “Se você consultar o DSM [o manual de diagnóstico da psiquiatria], conseguirá classificar cada um de nós sob um diagnóstico ou outro de transtorno mental”. Em outras palavras, o conceito de anormalidade é tão elástico e ambíguo que todos nós podemos ser rotulados de anormais. Isso pode soar uma semântica inofensiva a princípio, mas quando percebemos que a anormalidade é equivalente à doença e a doença é equivalente a uma responsabilidade reduzida, então se torna óbvio que o modelo médico está declarando guerra à perspectiva bíblica do homem.

David Powlison. Como ajudar um aconselhado “psicologizado”? – CAB  vol. 2

Powlison, servindo-se de um estudo de caso, faz considerações a respeito de como ajudar as pessoas que receberam um diagnóstico técnico que dá a ilusão de um poder explanatório profundo como, por exemplo, “baixa autoestima”, “transtorno de déficit de atenção/ hiperatividade”, “codependencia” ou “família disfuncional”.

Os diagnósticos da psicologia despertam a atenção por descreverem com precisão como as pessoas sentem, pensam, agem e vivenciam as situações. […] Estes termos, na verdade, não fazem nada mais que resumir certos sintomas incômodos, embora aleguem descrever as causas básicas “reais” dos problemas. Eles são descrições fantasiadas de explicações.

Sobre os diagnósticos reunidos no DSM, Powlison diz:

Estas categorias simplesmente descrevem alguns padrões típicos de comportamento, emoções, atitudes, pensamento que são especialmente tristes e perturbadores para todos os envolvidos. Nada dizem a respeito das causas. São apenas “síndromes”, ou seja, um grupo de expressões que, com frequência, acontecem juntas.

Edward Welch. Conversa entre vizinhos: um diálogo entre a psicologia secular e o aconselhamento bíblico – CAB  vol. 3

Welch mostra-nos como uma perspectiva bíblica ajuda a entender as chamadas doenças mentais.

À distância, alguém poderia pensar que a Bíblia diz que todos os transtornos mentais são um tipo de possessão demoníaca. Todas as pessoas afetadas, portanto, deveriam passar por uma expulsão de demônios ou repreensão pelo pecado abominável que permitiu ao demônio entrar. Mas esta não é a posição bíblica. Pelo contrário, a Bíblia tem uma categoria distinta e surpreendentemente sofisticada para reunir muitos dos sintomas dos assim chamados transtornos mentais. A categoria é, sim simplesmente, o corpo. Este aspecto tangível da nossa condição de seres humanos pode ser forte e saudável, mas está sujeito à fragilidade, ao enfraquecimento, à doença e, finalmente, à morte. Dentro desta categoria podem estar as “fraquezas” tais como esclerose múltipla, obstruções pulmonares e problemas cardíacos. Mas ela não se limita às doenças tradicionais. Também inclui a categoria, em expansão, de fraquezas do cérebro: problemas de memória, afasias, alucinações e outros transtornos neuropsicológicos. Quando aplicamos isto à esquizofrenia, os seus sintomas encaixam-se facilmente na descrição bíblica de problemas do corpo. As alucinações e ilusões, o afeto embotado e a desorganização cognitiva são sintomas físicos. Eles surgem a partir da substância material da pessoa e são “fraquezas” ao invés de pecados. A Bíblia nunca sugere que uma pessoa deve ser repreendida ou responsabilizada por tais sintomas.

Mas a Bíblia não para neste ponto. Aliás, ela parece ir além da literatura atual. O corpo, de acordo com a Bíblia, não resume a totalidade da nossa humanidade. A pessoa é corpo e alma (também chamada de espírito ou coração). O corpo é a parte material da pessoa; a alma, a imaterial. Isto não quer dizer que a alma não seja mediada pela substância física do cérebro, mas quer dizer que o cérebro não determina a alma. Embora unida ao corpo, a alma é distinta no fato de que, enquanto o corpo é apresentado como forte ou fraco, ela é sempre mencionada em termos distintamente morais – boa ou má, certa ou errada, adoradora do Criador ou adoradora da criatura. É moralmente errado ter um entorpecimento do afeto ou alucinações auditivas? Não. Do ponto de vista bíblico, estes sintomas são uma forma de sofrimento e a medicação pode ser um tratamento possível.

Entretanto, equipados com uma teoria que entende as pessoas como corpo e alma, os conselheiros pastorais podem oferecer conselho essencial para aqueles que lutam com os sintomas esquizofrênicos. Eles podem encorajar a pessoa afetada a “fazer o certo” mesmo durante um episódio agudo, difícil, porque a esquizofrenia nunca pode ser uma desculpa para o mau comportamento. A culpa por desrespeito aos pais, palavras duras ou qualquer infração da regra áurea, nunca pode ser atribuída a problemas físicos. Remover a responsabilidade moral das pessoas seria tratá-las de modo subumano e roubar sua esperança de mudança.

Isto ainda não é tudo o que a Bíblia tem a oferecer. Sabendo que as pessoas são responsáveis perante Deus, os conselheiros bíblicos podem estar alertas para os sintomas que as categorias modernas de diagnóstico ignoram. Por exemplo, os conselheiros bíblicos encontram, com frequência, uma culpa profunda e debilitante como parte do grupo de sintomas esquizofrênicos. Este é um fenômeno da alma, muito óbvio no medo do esquizofrênico paranoico, mas também visível na maioria das pessoas diagnosticadas como esquizofrênicas. A culpa pode inclusive ser considerada como fonte de muitas alucinações, especialmente se você acreditar que as alucinações podem ser uma manifestação daquilo que a pessoa pensa a respeito de si mesma. A cosmovisão cristã permite aos conselheiros a identificação dos problemas espirituais como a culpa e também oferece um tratamento distinto. Os sintomas do corpo podem ser tratados com medicação, mas a alma ou os sintomas espirituais estão imunes à medicação ou outros tratamentos somáticos, e respondem à confiança no Deus que perdoa. Se você oferecer um tratamento sem o outro, não estará proporcionando à pessoa uma cura abrangente.

Edward Welch. Mas afinal, o que é o aconselhamento bíblico? – CAB  vol. 2

Welch propõe-se a articular com clareza a essência do aconselhamento bíblico para diferenciá-lo das terapias que compartilham o nome “aconselhamento”.

O aconselhamento bíblico está fundamentado sobre um princípio simples e duradouro: o Deus trino tem-nos falado por meio das Escrituras. Além disso, por meio da história, doutrina, mandamentos da lei, poesias e canções da Bíblia, Deus tem-nos revelado tudo quanto NECESSITAMOS saber sobre Ele, nós mesmos e o mundo ao nosso redor (cf. 2Pe 1.3). […] Considerando o quanto Deus revelou acerca da Sua Pessoa e de nós mesmos, podemos admitir que o conselho oferecido pela Bíblia é amplo em seu alcance, tratando do conjunto dos problemas da vida. Com certeza, a Bíblia dirige-se aos problemas comuns que enfrentamos como, por exemplo, os conflitos nos relacionamentos, as pressões financeiras, nossas reações diante da saúde física ou da doença, os relacionamentos entre pais e filhos, a solidão. Mas ela se dirige também aos problemas típicos da atualidade como a depressão, a ansiedade, a mania, a esquizofrenia e o transtorno do déficit de atenção, só para mencionar alguns. É claro que a Bíblia não trata de cada um destes problemas como uma enciclopédia o faria. Também não oferece um receituário com técnicas de mudança. Mas pela oração e meditação nas Escrituras, e com disposição para receber orientação teológica uns dos outros, descobrimos que os ensinamentos bíblicos sobre a criação, queda e redenção fornecem percepção específica e útil para o entendi¬mento de todos os assuntos da vida.

Em outras palavras, o aconselhamento bíblico não consiste simplesmente de um conselheiro que procura alguns versículos expressivos em uma concordância bíblica e pede que você os leia todos os dias e ore sobre os seus problemas (o aconselhamento equivalente a “tome dois comprimidos ao dia e, se não melhorar, volte a me procurar”). Pelo contrário, é uma parceria entre pessoas que estão buscando a sabedoria de Deus — uma sabedoria que vai à raiz do problema, que pode penetrar no mais profundo do ser (Hb 4.12).