Psicologia e Bíblia: lidando com a dor da alma – Parte 5

Como cristãos, afirmamos crer que a Bíblia é a Palavra de Deus, nossa “regra de fé e conduta”. Ao nosso redor, porém, crescem as vozes que nos dizem que os problemas profundos da alma e os problemas mais complexos do comportamento humano precisam de “algo mais” para serem entendidos e curados. Bíblia e psicologia Bíblia e psicologia excluem-se ou se unem como aliadas no aconselhamento? A questão é atual e ampla. Neste e nos demais posts da série, levantamos as perguntas mais frequentes e reunimos citações extraídas de artigos de David Powlison e Edward Welch que nos levam rumo às respostas. Encorajamos a leitura completa dos artigos, que podem ser encontrados nos volumes de 1 a 8 de Coletâneas de Aconselhamento Bíblico (CAB), revista publicada pelo Seminário Bíblico Palavra da Vida com conteúdo de Journal of Biblical Counseling, publicado pela Christian Counseling and Educational Foundation.

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•• Como lidar em profundidade com a dor da alma, as emoções, as necessidades psicológicas?

Edward Welch. Exaltar a Dor? Ignorar a Dor? O que fazer com o sofrimento? – CAB  vol. 1

Welch aborda o problema do sofrimento, talvez o mais presente na rotina dos conselheiros. É impossível minimizar a amplitude e a profundidade do sofrimento. O desafio é estabelecer uma abordagem compassiva da dor, mas ao mesmo alicerçada na compreensão bíblica do relacionamento entre a dor e o pecado.

Os cristãos veem-se atraídos para uma de duas direções: alguns exaltam a dor, outros negam a dor. Alguns estão com o coração sangrando, outros são estoicos. Alguns são “conselheiros da dor”, outros são “conselheiros do pecado”. Os conselheiros da dor são peritos em fazer com que as pessoas se sintam compreendidas; os conselheiros do pecado são peritos no entendimento do chamado à obediência, mesmo diante da dor. Os conselheiros da dor correm o risco de enfatizar em demasia a dor, a tal ponto que o alívio do sofrimento passa a ser o assunto de primeira importância. Os conselheiros do pecado correm o risco de dar à dor pouca ou nenhuma importância. Os conselheiros da dor podem ser lentos em levar os sofredores a responder ao evangelho de Cristo em fé e obediência. Os conselheiros do pecado podem correr o risco de alimentar estoicos cuja resposta de obediência ignora a grande compaixão de Deus. Os conselheiros da dor podem prover um contexto que enfatiza a transferência de culpa e a ideia da vítima inocente. Os conselheiros do pecado podem estar tão preocupados em evitar que a culpa seja lançada sobre outros que não desenvolvem adequadamente a teologia do sofrimento. Há falhas em ambos os lados.

Por que a Palavra de Deus parece superficial a alguns cristãos sofredores? Por que eles procuram conselheiros que podem entender e penetrar sua dor, mas que não conduzem ao evangelho de Cristo e aos propósitos de Deus em meio ao sofrimento? Sem dúvida, uma razão é que muitos sofredores, à semelhança de Jó, foram feridos por aqueles que lhe ofereceram conforto. Todos nós já encontramos membros do corpo de Cristo que lidam com o sofrimento de modo acadêmico, distante, e cujo conselho pode ser resumido em “siga em frente”. Esses conselheiros e amigos não conhecem de verdade o que Deus diz àqueles que enfrentam a dor, de forma que são embaixadores incompetentes. Mas esta não é a única razão.

Welch mostra, então, que por desconsiderar a essência do homem conforme revelada por Deus na Bíblia e por deixar de formular uma teologia prática do sofrimento, a Igreja volta-se para a psicoterapia em busca soluções.

A igreja está se psicologizando à medida que a cura da dor é identificada como a necessidade mais profunda do homem. Considere este prefácio de um livro evangélico popular: “Temos nos comportado de modo compulsivo [tradução: pecaminosamente] porque esta é uma maneira de fazer cessar a dor”. Em seguida, o autor descreve três diferentes casos: um homem obcecado por sexo e pornografia, outro pelo trabalho, e outro ainda pelo álcool. “Em cada um desses casos, o comportamento em si não era o problema real. O comportamento era apenas um sintoma do problema. Todos eles estavam se escondendo da dor. Aquilo que faziam tinha o propósito de curar a mágoa resultante de algum sofrimento profundo em sua vida.” Esta é a consequência de exaltar a dor além dos limites bíblicos: o problema da dor torna-se mais profundo do que o problema do pecado. Fazemos uma revisão da nossa teologia para dizer que dor é na verdade a causa do pecado. Mas é isso o que Deus diz? É verdade que a dor precede o pecado? Algumas vezes parece ser verdade. Muitas pessoas que estão agindo com ira em seus desentendimentos conjugais diriam que a ferida e o desapontamento antecederam o seu pecado. Mas há problemas significativos quando atribuímos o lugar de destaque ao sofrimento. Biblicamente, o pecado nunca pode ser reduzido a dor, nem explicado pela dor. Pecado é exatamente pecado. Não podemos encontrar o culpado em outro lugar a não ser em nossa própria transgressão. A causa do pecado não está na ação de outras pessoas ou no desejo de autoproteção de uma dor maior. Outras pessoas certamente nos infligem dor, mas essa dor nunca pode nos levar a pecar nem mesmo nos impedir de amar ao próximo.

Dois perigos em potencial podem nos levar para longe de uma abordagem bíblica do sofrimento. Se exaltamos o sofrimento, ele passa a ser a causa do pecado, a autoproteção passa a ser o problema, e o alívio do sofrimento é a questão principal a ser tratada. Se ignoramos o sofrimento, então a dor torna-se um problema de pouca importância a ser “consertado” e a compaixão torna-se um passo temporário que tem por intenção preparar terreno para coisas mais importantes. Mesmo diante de um número considerável de bons livros a respeito do sofrimento, há problemas que uma teologia atual do sofrimento precisa considerar. A teologia prática é falar com compaixão àqueles que enfrentam a dor, apontando para realidades mais profundas que a dor.

Deus nunca prometeu liberdade temporal do sofrimento. Ele nos adverte quase que em todas as páginas das Escrituras para que estejamos preparados para o sofrimento. Embora possa parecer difícil, o evangelho não elimina o sofrimento presente. O evangelho vai além. Ele cura nosso problema moral. Ele nos revela realidades mais belas que a dureza do nosso sofrimento, de modo que possamos nos alegrar mesmo em meio ao sofrimento. Ele nos dá poder para uma nova obediência que resiste sob sofrimento. […] Existem realidades mais profundas que a nossa dor. O amor de Jesus que se fez homem, o perdão de nossos pecados, o conhecimento de que Deus tem um propósito, são pesos de glória que mudam o nosso sofrimento. Mas o maior de todos os pesos de glória é o próprio Deus. Conhecê-lo como o Deus verdadeiro que deve ser louvado e adorado é o maior peso de glória para qualquer sofredor. Isso não coloca um fim ao nosso sofrimento ou dor momentânea, mas significa que não vamos exaltar nem ignorar a dor. Vamos exaltar a Deus em meio à dor.

“Porque para mim tenho por certo que os sofrimentos do tempo presente não podem ser comparados com a glória a ser revelada em nós”. (Rm 8.18) A Bíblia não fornece uma técnica para remover o sofrimento, mas nos ensina a viver em meio a ele. Ensinar qualquer coisa diferente seria comprometer o evangelho. 

David Powlison. Como você se sente?  – CAB  vol. 1

Powlison atravessa a cortina de fumaça da linguagem para descobrir o que as pessoas querem dizer quando usam a linguagem dos sentimentos.

“Sentimentos”. Que palavra difícil de definir! A mesma palavra é usada com frequência para comunicar quatro coisas diferentes: experiências, emoções, pensamentos e desejos! Como você usa a expressão “eu sinto”? Como o seu aconselhado a usa? Você pode encontrar uma saída em meio às armadilhas da linguagem dos sentimentos? Sentimentos costumam revelar percepções, emoções, opiniões e impulsos que têm autoridade e podem ser considerados como inclinações a seguir? Ou eles revelam facetas da vida humana a serem avaliadas biblicamente? Eles revelam o eu real, que deve ser atualizado? Ou eles revelam a tendência do homem a afastar-se de Deus e voltar-se para si mesmo, a carne, a autonomia e a subjetividade? […] Fazer uma análise bíblica da motivação humana não significa posicionar-se contra as emoções. Não significa ignorar as experiências. Os conselheiros sábios têm o cuidado de conhecer aquilo que a pessoa está vivendo em suas experiências e emoções. Eles se preocupam em saber se o que a pessoa sente é verdadeiro ou não. A verdade bíblica penetra em suas experiências, emoções, crenças e desejos. Deus vai ao seu encontro, onde você está. 

A Bíblia não ignora aquilo que chamamos de sentimento.

A ideia de que as pessoas são orientadas por sentimentos não é uma ideia simplista, pois explica aspectos complexos em vidas embaraçadas. Um entendimento bíblico dos “sentimentos” permite que olhemos além da linguagem frequentemente enganosa do cotidiano. Em sua concordância bíblica, você não encontrará muitas referências a “sentir” ou “sentimento”. Mas a carga que estas palavras carregam atualmente na linguagem diária está presente em sua Bíblia. Podemos tentar resolver a confusão, e convidar pessoas a uma mudança inteligente à luz da verdade bíblica e do poder do Espírito Santo.

A Bíblia vai direto à raiz do problema dos “sentimentos”. A Palavra dAquele que conhece os corações “é apta para discernir os pensamentos e propósitos do coração” (Hb 4.12). Na linguagem moderna dos sentimentos podemos dizer que a Bíblia expõe e julga os “sinto que” e “sinto vontade de” que determinam como as pessoas vivem na escuridão. Cada homem faz o que é certo aos próprios olhos, o que sente. E que maravilhosa alternativa recebemos: a verdade do nosso Senhor e Salvador, Jesus Cristo, alcança-nos em misericórdia e nos concede poder para mudar!

Concluindo, Powlison considera como o processo de aconselhamento é enriquecido por informações que ganhamos ao prestar atenção àquilo que as pessoas sentem.

[No aconselhamento bíblico, os sentimentos] são pontos de partida, e não pontos de parada. Elas podem abrir a porta para penetrar no comportamento de uma pessoa, seu sistema de crenças, sistema de valores e ainda mais. Em boa parte, as tarefas de casa para coleta de dados que os conselheiros bíblicos tradicionalmente têm pedido aos aconselhados encontram seu ponto de partida nas emoções e experiências. Por exemplo, é lógico que um aconselhado em meio a lutas faça um registro de incidentes produtores de ansiedade, estresse, ira, tristeza, cobiça ou qualquer outro foco que deva ser considerado no aconselhamento. Emoções e experiências são com frequência o proverbial “sinal vermelho no painel de controle” que desperta o conselheiro e o aconselhado para questões significativas. […] Experiência, emoção, crença e desejo estão na esfera de transformação interior que ocorre pelo poder e verdade do Espírito Santo.

Edward Welch. Quem Somos? Necessidades, anseios e a imagem de Deus no homem. – CAB  vol. 1

Welch explora um assunto crucial no campo da psicologia: as necessidades psicológicas.

À medida que a noção de necessidades psicológicas adentrou a cultura ocidental, muitos cristãos foram imediatamente atraídos a ela. De fato, ela parece rastrear o caminho para as experiências da vida e, especialmente com Freud e Maslow, oferecer uma explicação para as experiências do homem mais profunda que aquela até então extraída da Bíblia. Por exemplo, uma esposa sofredora e carente de amor pode ter seu senso de necessidade legitimado e explicado pela adaptação de teorias psicológicas – a necessidade de amor é uma das necessidades mais profundas com que Deus a criou. É possível, finalmente, compreender que fomos criados com necessidade de amor e que se esta não for satisfeita por meio de pessoas significativas, estaremos em déficit e precisaremos procurar amor em algum outro lugar. Todo tipo de pecado e dor pode resultar de necessidades psicológicas não satisfeitas.

Parece haver tamanha evidência a favor das necessidades psicológicas, que talvez nem questionemos se elas foram descobertas por psicólogos que não conheciam nada da Palavra de Deus, enquanto as Escrituras se mantêm relativamente caladas a respeito destes aspectos supostamente centrais da condição humana. […] Os psicólogos seculares definem as necessidades psicológicas como aquelas a serem satisfeitas por meio de relacionamentos, reestruturação cognitiva, realizações apropriadas, experiências de autoatualização. E atualmente, muitos cristãos creem que essas necessidades intrapsíquicas e psicossociais devem ser satisfeitas no relacionamento com Cristo. As necessidades espirituais mais tradicionais, relacionadas à redenção, têm sido esticadas para incluir a necessidade de autoestima, amor e significado.

Welch nos conduz em uma reflexão bíblico-teológica e nos mostra como uma compreensão das “necessidades” do homem tem implicações na nossa maneira de aconselhar.

A compreensão apropriada da imagem de Deus no homem ensina-nos a ver o homem em sua verdadeira essência, como um ser que vive diante de Deus e para Deus. Os seres humanos não são definidos essencialmente como pessoas que anseiam por relacionamento. […]Seria possível considerar anseio por relacionamento como um dos atributos centrais de Deus, como se Deus tivesse um déficit a ser preenchido nesta área? Esta ideia distancia-se do retrato bíblico do Deus da glória. Em lugar de ansiar por relacionamento, na busca de conseguir algo que O possa satisfazer, Deus opera ativamente nos relacionamentos arruinados pelo pecado humano. A atividade do Deus de amor reconcilia e restaura estes relacionamentos, ensinando pessoas egoístas a amar a Ele e a outrem. […]O desejo mais profundo do coração de Jesus era a glória de Seu Santo Pai, e esse desejo foi expresso em amor e justiça. Este é Aquele em quem devemos fixar os olhos em busca de sermos possuidores da imagem do Deus Altíssimo. […]a essência da imagem de Deus no homem está em nos alegrarmos na presença de Deus, amarmos a Ele acima de tudo mais, e vivermos para a glória de Deus, não para a nossa. À medida que aprendemos a amar a Deus e ao próximo pela graça, expressamos a imagem gloriosa de Deus. O centro de gravidade no universo de Deus é Sua santidade gloriosa – não os nossos anseios. E a pergunta mais básica da existência humana passa a ser “Como posso glorificar a Deus?”, em lugar de “Como meus anseios serão satisfeitos?”.

Encontrar prazer em receber amor e ter satisfação quando da execução de um trabalho são dádivas boas, e ficar ferido quando outros pecam contra nós é como deveríamos reagir. Mas como toda idolatria, a questão não é tanto o que desejamos, mas o quanto o desejamos e por que o desejamos. Anseios têm muito a ver com cobiça. Elevar nosso desejo de amor, impacto ou outros prazeres a ponto de serem necessidades é gritar: “EU QUERO. Eu preciso ter. Meus desejos são o alicerce do meu mundo”. Estes anseios não existiriam se estivéssemos dispostos a amar a Deus e não a nós mesmos.

Uma resposta bíblica a estas paixões é arrependimento, e não a busca de satisfação, mesmo que um senso temporário de satisfação possa ser aparentemente encontrado em Cristo. Digo “temporário” porque as paixões nunca podem ser completamente satisfeitas, e porque o Cristo verdadeiro está trabalhando para destruir os anseios ardentes, em lugar de satisfazê-los. O tanque de necessidades psicológicas deve ser quebrado, em lugar de enchido. […] Então, qual é a nossa necessidade real? As Escrituras dizem em algum lugar que necessitamos de relacionamento para satisfazer anseios? Elas dizem que temos um anseio por significado e valor dado por Deus? Não. As Escrituras mostram que necessitamos de Deus, mas necessitamos dEle como imagem que devemos refletir, necessitamos dEle porque temos necessidades espirituais, e necessitamos dEle para o próprio fôlego de vida. As Escrituras também mostram que necessitamos uns dos outros, mas não para preencher um vazio de criação. Necessitamos uns dos outros para refletir a glória de Deus, visto que a comissão que Ele deu a Seu povo deve ser cumprida corporativamente.