Como aconselhar a criança adotada

É grande o número de famílias adotivas acolhedoras e amorosas que têm perguntas sobre como lidar com a bagagem que as crianças receberam antes de entrar para a família e com os problemas que elas costumam apresentar.  

No artigo Como aconselhar a criança adotada, Julie Lowe, conselheira bíblica e mãe de filhos adotivos, destaca três possíveis respostas típicas que as crianças adotadas podem dar às situações da vida, embora devamos lembrar que há muitas variações.

Crianças que parecem se adaptar razoavelmente bem à adoção.
Essas crianças podem não apresentar nenhum tipo de luta com relação à adoção ou passar por um período apenas temporário de questionamentos. Elas podem fazer perguntas sobre a história de sua adoção, mas depois de receberem a informação básica, parecem aceitar a situação sem dificuldade. Elas reconhecem positivamente os detalhes de sua história e dão continuidade à vida.

Crianças que enfrentam as lutas “normais” com relação à adoção.
Essas crianças fazem muitas perguntas sobre sua família de origem. Elas se sentem “diferentes” de sua família adotiva e lutam com um sentimento de perda, rejeição e até mesmo vergonha e constrangimento por serem adotadas. Mesmo com esses questionamentos, elas não apresentam reações negativas nem causam maiores dificuldades em sua família adotiva nem na escola.

Crianças com problemas sérios de comportamento e/ou de adaptação.
Os problemas de comportamento e adaptação não podem ser tratados de maneira fácil nem sucinta. É possível que estejamos lidando com problemas de desenvolvimento mental, com traumas graves ou mesmo um passado de abuso sexual ou agressão física. Essas crianças podem apresentar dificuldade de raciocínio, dificuldade para expressar sentimentos, comportamento fortemente hostil e/ou dificuldade para cultivar um relacionamento íntimo com os adultos que cuidam delas. Elas podem também mentir, roubar, danificar ou destruir propriedades alheias. Às vezes, machucam deliberadamente outras crianças ou animais.

Ao longo do artigo, os pais encontram conselhos para lidar com as respostas típicas e para entender a criança e suas lutas no mundo caído.

Por mais que valorizemos corretamente a adoção, não podemos ignorar que a necessidade da adoção aponta inerentemente para o fato de que vivemos em um mundo caído e pecaminoso. Em um mundo isento de pecado, não teríamos famílias destruídas, abusos, órfãos nem adoção. A história de cada uma dessas crianças sempre começa com relacionamentos destruídos, e elas têm dificuldade para compreender com exatidão sua situação de vida.

As crianças adotadas, como todos nós, pensam, interpretam e tiram conclusões sobre a vida com base nas experiências pessoais. A adoção coloca em primeiro plano uma verdade fundamental que, frequentemente, passa despercebida: nós somos intérpretes. Não só procuramos compreender nosso mundo, nós mesmos e nossas experiências, mas devemos fazê-lo. Existe, porém, uma segunda verdade fundamental: não conseguimos compreender nosso mundo com exatidão sem nos referirmos Àquele que nos criou e que interpreta corretamente o mundo para nós.

As crianças adotadas lutam com sua identidade: Quem sou eu? Quem me ama? Quem cuidará de mim? O que será de mim? Com frequência, elas têm pensamentos e sentimentos confusos sobre sua separação dos pais biológicos e a distância da cultura de origem, e podem apresentar algumas reações que precisam receber maior atenção por parte dos pais. No entanto, as famílias adotivas também podem ter lutas e perguntas a respeito de como interpretar a vida com filhos adotivos. Isso acontece mesmo quando o processo de adoção parece tranquilo. Julie Lowe reúne algumas perguntas dirigidas aos pais.

• Como os pais adotivos veem a adoção?
• Como os pais adotivos veem os pais biológicos da criança?
• Como os pais adotivos conversam com o filho adotivo sobre a adoção?
• De que maneira eles compreendem ou ratificam os sentimentos da criança?
• Como eles lidam com o mau comportamento da criança?
• Eles olham para a adoção de maneira redentora?

Em seguida, a autora sugere aos pais maneiras práticas para lidar com as questões da adoção.

Seja franco com seu filho adotivo desde o início, especialmente quando a criança foi adotada no nascimento e não tem um conhecimento pessoal a respeito de sua adoção. Quanto mais tempo você esperar para conversar sobre a adoção, mais difícil será abordar o assunto. O engano pode destruir a confiança de tal forma que leva anos para consertar o estrago. […] Converse sobre a adoção com seu filho, antes mesmo que ele compreenda o que isso significa. Use palavras simples: “Você é especial. Nós o amamos. Nós adotamos você”. Quando você deixa de fazer isso, priva o seu filho de perceber a história que Deus está escrevendo para ele. 

É importante que os pais ensinem os filhos a ver a própria vida à luz da redenção operada por Deus. Os pais devem aproveitar cada oportunidade para ajudar a criança a interpretar a vida pelos olhos de Deus.

Fazemos parte da história da redenção dirigida por Deus e ela é o ponto de referência para entendermos tudo quanto acontece em nosso mundo. Esse entendimento muda a forma de interpretarmos a nós mesmos, o nosso relacionamento com Deus e o nosso relacionamento com o mundo. Precisamos interpretar os detalhes da nossa vida à luz dos temas mais amplos da história da redenção. Essa interpretação da vida determina como entendemos toda a realidade. Os pais e os conselheiros podem ajudar, ensinando as crianças a verem a si mesmas e as experiências da vida a partir de uma perspectiva bíblica.

Deus está trabalhando em cada vida.
Ensine à criança que a mão de Deus esteve trabalhando em sua vida desde o princípio dos tempos. Compartilhe versículos da Bíblia que falam claramente a respeito dessa realidade. Ajude-a a desenvolver a crença de que Deus não estava ausente naqueles momentos de dificuldades em sua vida. Ele estava presente e operando mesmo antes da criança ter nascido. Por exemplo, considere as palavras do Salmo 139.13-16. […] Faça a criança memorizar estes versículos e visualizar o que Deus está dizendo por meio deles. Estas verdades alimentam uma imaginação sadia, uma fé viva.

Deus tem um propósito para a sua vida.
Converse sobre a vida de personagens bíblicos que foram separados dos pais biológicos no nascimento, ou em tenra idade, e adotados por estranhos. Mostre como estas pessoas conheceram o amor de Deus e como, mais tarde, realizaram coisas significativas para Ele. Deus usou as experiências difíceis e dolorosas para o Seu propósito. Parte deste propósito é que Deus quer ter um relacionamento conosco e quer que O busquemos.
• Moisés foi adotado pela filha do Faraó e sua adoção fazia parte do plano maior de Deus para a libertação de Israel do Egito (Êx 2.1-10).
• Quando os pais de Ester morreram, seu primo Mordecai adotou-a como filha (Et 2.15). Esse fato contribuiu para a libertação do povo de Deus.
• José foi afastado de seu pai e coisas terríveis aconteceram. Ele viu, porém, que Deus tornou em bem aquilo que outros fizeram por mal. Ele ajudou a preparar um lugar seguro para sua família durante um período de grande fome (Gn 45).
[…] Ajude a criança adotada a tirar o foco de sobre as decisões e os comportamentos humanos que lhe trouxeram tristeza e a olhar para a intervenção de Deus e Seu envolvimento ativo em sua vida. A perspectiva torna-se vertical (pessoa para Deus e Deus para pessoa) ao invés de horizontal (pessoa para pessoa). A perspectiva horizontal faz com que a criança adotada se sinta vítima. A vertical oferece consolo e confiança no plano divino para a sua vida.

Deus adotou cada um de nós por meio de Seu Filho Jesus.
A criança adotada geralmente acredita que sua vida se baseia no amor que as pessoas têm ou deixam de ter por ela. Essa crença leva a criança apenas a questionar, preocupar-se ou lutar por amor. Ajudá-la a ver sua vida pelos olhos de Deus faz com que aprenda que sua vida está baseada no amor de Deus por ela e na Sua intervenção divina desde que ela foi gerada. Fomos eternamente desejados pelo próprio Deus. Cuide para não dizer isto de maneira que minimize a perda ou rejeição por parte dos pais biológicos, mas essa verdade deve trazer perspectiva e confiança em um Deus que tudo vê e que faz o que é bom para nós. Esta é uma lição que todos nós precisamos aprender, mas podemos ver que ela está diretamente relacionada às questões da adoção.

É essencial conversar com a criança sobre essas verdades sempre que possível. Julie Lowe sugere uma maneira prática de fazê-lo usando aquilo que ela chama de Livro da Vida. Muitas crianças respondem positivamente a esse método para estabelecer uma conversa, que pode ser útil no esclarecer sua história de vida e as razões da adoção.

Montar um Livro da Vida, uma mistura de álbum de fotos e livro de recordações sobre a vida de seu filho adotivo, é uma boa maneira para proporcionar esse compartilhar. O Livro da Vida ajuda a criança a se relacionar com o começo e a continuidade da própria história de vida, e cria a base para estabelecer um vínculo com a família adotiva. Comece o Livro da Vida no nascimento da criança adotada e enfoque a experiência de forma verdadeira e atraente para ela. Inclua os detalhes e as circunstâncias da vida da criança antes de ela ter sido adotada, desde que você os conheça. Monte o livro com a criança e enfatize que esse é o seu “livro especial”, que conta sua história conforme Deus a está escrevendo.

Julie Lowe encerra o artigo narrando um momento da vida diária de Jocelynn Jay, uma menina adotada.

À medida que você ajuda uma criança adotada a entender como Deus estava e está trabalhando em sua vida, procure maneiras de expressar esse fato. As crianças, às vezes, conseguem expressá-lo até melhor do que nós.

Os alunos de primeira série da professora Debbie estavam conversando a respeito da foto de uma família. Um menininho da foto tinha o cabelo de cor diferente dos demais membros da família. Uma criança sugeriu que ele era adotado e uma menina chamada Jocelynn Jay disse: “Eu sei tudo sobre adoção porque eu sou adotada”. Outra criança perguntou o que significava ser adotada. “Significa”, disse Jocelynn, “que você cresceu no coração de sua mãe e não na barriga dela.”

Você encontra o artigo Como aconselhar a criança adotada no volume 6 de Coletâneas de Aconselhamento Bíblico, que pode ser adquirido na Livraria OPV.

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