A Bíblia e a dor da infertilidade

Em sua igreja, no seu trabalho, no seu círculo de amigos há casais que lutam com a infertilidade. Sua dor costuma ser pouco compreendida e, muitas vezes, menosprezada.  No entanto, eles precisam de ajuda e cuidado amoroso. Com esse desafio em mente, Phil e Kimberly Monroe compartilham em A Bíblia e a Dor da Infertilidade sua experiência de esperanças e frustrações, tratamentos para infertilidade, procedimentos infindáveis e decepções amargas, com um alto grau de estresse.

Lidar com a infertilidade é difícil. O desejo que Deus deu de ter filhos fica frustrado. Durante a fase de crescimento, as pessoas costumam dizer: “Quando você casar e tiver filhos…”. Todos presumem que sejamos férteis. A infertilidade despedaça sua identidade. Formamos um quadro mental típico: estar casado, ter a casa própria, um carro e um cachorro. Mas onde estão os filhos? A imagem colorida perde o brilho.

A infertilidade conjugal é uma forma de sofrimento.

Vivemos no período pós-queda. Nosso corpo nem sempre funciona como deveria. Ana, Raquel e outras mulheres da Bíblia são testemunhas da grande angústia e dor causadas pela infertilidade. Os casais estéreis sofrem essa mesma angústia e dor nos dias de hoje.

A infertilidade conjugal estabelece um círculo vicioso de esperança seguida de desalento.

No começo do ciclo mensal, a mulher tem grandes esperanças. “Vou engravidar este mês. Sei que vou!” O mês termina, e nada de gravidez. Ela se desespera. O mês seguinte chega com grande esperança novamente, mas sem gravidez. A esperança dá lugar ao desalento.

O artigo, porém, não termina aqui. A Bíblia e a Dor da Infertilidade também aponta para algumas expressões bíblicas de fé em meio ao sofrimento causado por um desejo que permanece não realizado. Não se trata um desejo pecaminoso, mas ele pode ganhar uma perspectiva e uma expressão distorcidas quando a sua concretização passa a ser uma exigência. A Bíblia reconhece que uma vida de fé inclui chorar à espera de um alívio que tarda a chegar, mas deve ser um lamento piedoso perante Deus.

Em sua terceira parte, Phil lembra-nos que para poder prestar uma ajuda real, o conselheiro precisa considerar como ele costuma responder ao sofrimento. Será que ele estabelece relacionamento e busca levar o aconselhado ao correto relacionamento com Deus, ou ele entra em “modo de conselho” na tentativa de resolver o problema: “Você já tentou isso?” ou “Já tentou aquilo?”.  Também existe a resposta idealista, que tantas vezes irrita o aconselhado: “Não se preocupe, tudo vai dar certo no final”. Ou talvez você costuma contar a história de outra pessoa que passou por algo parecido, mas sem pensar se, de fato, trará conforto? Todo cuidado é pouco para que o resultado seja levar um amigo ou aconselhado mais para perto de Deus em seu sofrimento.

O que você lerá a seguir é uma compilação e arranjo de citações que resumem os principais pontos de A Bíblia e a Dor da Infertilidade, por Phil e Kimberly Monroe.


1. As experiências emocionais

Para o casal que enfrenta a infertilidade, a variedade e profundidade das emoções é grande. Kimberly descreve experiências reais, que amigos e conselheiros precisam conhecer. “Como um conselheiro trataria o meu caso? Estou irada. Sinto-me defeituosa. Procuro descobrir onde Deus está em meio a tudo isso, mas não consigo.”

A ira – Essa é uma questão difícil para o cristão, pois sabemos que gerar um filho é mais do que o encontro entre um óvulo e um espermatozoide. A mão de Deus está envolvida, bem como Suas bênçãos e a Sua vontade para nossa vida vontade para nossa vida. Mas quando você não fica grávida, você facilmente questiona Deus.

Os sentimentos de inaptidão. Eu deveria estar na prateleira das promoções. Não sou uma mulher completa, pois não posso fazer tudo quanto as mulheres foram criadas para fazer.

A sensação de perda do controle. Alguns casais decidem dar início à família e a gravidez acontece no segundo ciclo. Parecem ter a vida sob controle. Sentimo-nos totalmente fora do controle com a infertilidade.

A tristeza. As comemorações e as datas especiais são difíceis: Dia das Mães, chás de bebê.

O desconforto na igreja.  Sinto-me culpada pela minha ira, pela inveja e por não me alegrar com as bênçãos dos outros.

O isolamento. Se Deus não responde às minhas orações, devo ser uma pessoa inferior. Não é uma verdade teológica, mas é o que sou levada a pensar. Procuramos ser sociais, mas acabamos por nos afastar das pessoas.

O estresse conjugal. As decisões são tantas. Que tentativas fazer? Por quanto tempo? Temos despesas, muita decepção e muito estresse. Há o medo de que Phil se ressinta contra mim por eu ser estéril.

A dor dos familiares. Os pais sofrem conosco. Eles querem ter netos e ver-nos felizes, mas sentem que nada podem fazer.

As reações dos amigos. As pessoas causam muito estresse com reações pouco apropriadas, comentários impensados ou conselhos inoportunos. Ao mesmo tempo, elas podem ser um grande apoio.

As histórias. As pessoas contam histórias. “Tive uma amiga que adotou uma criança e depois ficou grávida. Você precisa adotar uma criança.” A sua resposta: “Certo. Ótimo plano. Vou adotar uma criança para ficar grávida”. Sim, é isso que gostaria de dizer, mas fico calada.

As reações de outros crentes. As pessoas dão suas opiniões sobre uma variedade de métodos. Pode parecer uma invasão da sua privacidade.

O teste da sua fé. “Se você tiver mais fé, Deus a abençoará com uma criança. Você simplesmente não tem fé suficiente.” “Você não está reagindo ao sofrimento de forma correta.” “Confie em Deus! Ele sabe o que é melhor para você. Ele tem coisas boas para você.” As pessoas dizem essas coisas de maneira bem informal, mas não ajudam em nada. Elas colocam mais um peso para você carregar – você não tem fé suficiente! Em meio à nossa infertilidade, já chorei rios de lágrimas. Clamei a Deus e li a Bíblia. Li sobre Ana, Raquel, Sara, Isabel – mas todas elas tiveram filhos! Li essas histórias repetidas vezes, pensando que poderia ajudar. Ajudou de certa forma, pois me mostrou o quanto a infertilidade é dura de suportar.

A angústia. Não houve um funeral, enterro, flores nem cartões de pêsames. No entanto, houve morte: a morte de uma esperança de me maravilhar com uma criança que fosse fruto do nosso amor.

2. As expressões de fé em meio ao sofrimento

Phil Monroe mostra claramente que, com certa frequência, os conselheiros bíblicos costumam logo conduzir o aconselhado a uma autoconfrontação e retratam o clamor e a espera santa como algo pacato. Se agirmos assim, frustraremos a oportunidade que as pessoas têm de expressar a sua fé de forma piedosa, chorando e clamando a Deus. As pessoas precisam lamentar e chorar. É uma forma de nos comunicarmos com Deus.

 O lamento pelas perdas. Homens e mulheres de fé choram enquanto expressam sua fé em meio ao sofrimento. Clamam por alívio, escape, entendimento e perspectiva correta. O que você faz quando os seus aconselhados expressam fortes desejos que ainda não foram realizados? Você os atropela, esmaga? Deus usa nossos desejos para nos aproximar dEle. “Tu, Senhor, ouves a súplica dos necessitados; Tu os reanimas e atendes ao seu clamor” (Sl 10.17). Lamentar-se por perdas, guardando a fé, é uma resposta aceitável diante do sofrimento.

A ira santa. Como posso ficar irado e não pecar? Sem violar o fruto do Espírito, a ira santa é direcionada ao problema real – no caso, os resultados da queda. O pecado causou destruição no mundo. Nesse sentido, é correto irar-se contra o pecado.

O desalento santo. O desalento santo reconhece a vaidade do mundo. Ansiamos por tantas coisas que nossa cultura, os amigos e os familiares nos dizem serem necessárias para a nossa felicidade. No entanto, no final das contas, essas coisas não trazem esperança e felicidade. Em meio ao desalento, tornamo-nos facilmente pessoas exigentes e amargas. Contudo, o desalento santo não é exigente. Ele permite que outras pessoas ofereçam conforto, e traz à mente a fidelidade de Deus mesmo quando ela não pode ser sentida.

O clamor santo por alívio e entendimento. Deus nem sempre nos liberta conforme esperamos ou achamos que Ele deveria fazer. Às vezes, Ele nos liberta de formas completamente incompreensíveis a nós. Deus ouve nossos clamores e gemidos. Ele está perto daqueles que têm o coração quebrantado e salva os de espírito abatido (Sl 34.18). Gemer de forma santa é lembrar as promessas de Deus, diante dEle. O salmista fez isso repetidas vezes. Gemer de forma santa não é algo passivo. Não é errado buscar soluções para pôr fim ao sofrimento. Gemer de forma santa é algo comunitário, pois permite que outros se unam ao seu sofrimento. A fé fez a diferença. “Deus, conheço o Seu caráter. Não entendo o que o Senhor está fazendo, mas sei que o Senhor é o meu Deus.”

A espera santa. Os cristãos que sofrem também esperam. Não é uma espera passiva, semelhante a uma perseverança estoica. É um descanso ativo na bondade de Deus com a expectativa esperançosa de que um dia as provações terão fim. Não exigimos que Deus faça alguma coisa nem sentamos para esperar até que Ele faça aquilo que exigimos. A espera santa medita no caráter de Deus – sua bondade, santidade, justiça, misericórdia, graça e majestade. A espera santa aprecia as boas coisas que Ele já deu. A espera santa diz: “Senhor, deixe-me enxergar aquelas bênçãos inesperadas que o Senhor já me deu”. Isso é esperar, é adorar. A espera ativa também requer um autoexame. Você percebe o que você ama exageradamente, aquilo que assumiu a proporção de cobiça – como os tratamentos para a infertilidade. Você passa tanto tempo centrado naquele único aspecto, que ele acaba tomando conta da sua vida. Mas você pode esperar e dizer: “Não. Quero apreciar a Deus pelo que Ele é e pelo que Ele tem feito por mim. Quero examinar meu coração. Não quero ser consumido por uma busca insaciável da fertilidade”.

3. Os alvos essenciais do aconselhamento

De que maneira os conselheiros podem trabalhar com casais que lutam com a infertilidade? Três áreas requerem maior atenção.

Avaliação. Enquanto os aconselhados contam sua história, pergunte a si mesmo: “O que ouço quando meu aconselhado fala sobre sua dor?”. Por exemplo, como era o relacionamento do casal antes do problema da infertilidade? Como eles se comunicavam e ministravam à vida um do outro? Eles conhecem a Cristo? Quem é Deus para eles? Quem era Deus antes dos tratamentos para a infertilidade? Em que etapa de solução do problema eles estão agora?

Educação. Se o casal já iniciou o tratamento para a infertilidade há algum tempo, eles provavelmente conhecem tudo sobre as últimas novidades em questão de tratamentos. No entanto, podem precisar de orientação em outros aspectos. Será que o casal entende os ciclos hormonais e emocionais da mulher? Eles já consideraram quanto tempo estão dispostos a seguir os tratamentos? Que tratamentos eles têm escolhido? No papel de conselheiro, analise como você pode ajudar a reduzir o estresse produzido pelos tratamentos. Sugira que eles tenham momentos de meditação na Palavra de Deus e momentos de diversão como casal. Além disso, sugira que o casal não converse sempre sobre a infertilidade, pois precisam se importar com as outras coisas que Deus está dando no momento.

Lamento adequado. É possível viver uma vida piedosa enquanto me lamento, estou irado neste mundo imperfeito ou clamo a Deus?  Ajude seus aconselhados a expressarem tudo isso e, ao mesmo tempo, agradecerem a Deus e terem esperança para o futuro. No entanto, a ira e a dor impedem o pensamento claro. Seus aconselhados não conseguem encontrar ajuda na leitura de um livro longo e profundo. Ofereça-lhes, portanto, uma mensagem breve e simples. Sugira um texto ou um versículo bíblico ao qual possam se agarrar. Motive-os a adorar a Deus na espera e nos clamores, e a permitir que Deus examine o seu coração.

Um testemunho final de Kimberly

Após vários ciclos fracassados, nosso médico disse: “Não seria antiético dar continuidade aos tratamentos, mas não creio que devemos fazê-lo. Já fizemos tentativas com todos os tratamentos possíveis, não há nada mais que possamos fazer. Você entrou na menopausa prematuramente”. Concordamos com o conselho do médico e paramos com os tratamentos.

Na primeira parte do artigo, deixei uma pergunta: “Como você me aconselharia?”. Naquela ocasião, nós não procuramos aconselhamento. Não pensamos nessa possibilidade. Estávamos cansados de tudo e queríamos descanso. No entanto, Deus curou nosso coração. O tempo ajudou – tempo para chorar e superar a dor. Pensei que nunca mais iria querer segurar um bebê em meus braços. Mas eu o fiz. Fazíamos parte de um grupo de oração da igreja, que nos deu apoio, compreensão e amor. O líder sempre nos perguntava gentilmente como eles podiam orar por nós, e isso certamente nos ajudou.

Certo dia, pensei: “Deus tem tantas promessas para nós, mas Ele não prometeu uma coisa. Em nenhum lugar nas Escrituras ele prometeu dar-me um filho. Ele não me desamparou. É bom desejar um filho, mas não posso exigi-lo de Deus. Os filhos são bênçãos, mas Deus não os promete a nós individualmente. Não recebemos bênçãos porque somos pessoas boas ou por merecimento. Elas simplesmente chegam”. Foi um momento de revelação para mim. Gradativamente, passei a me sentir menos incompleta. Comecei a acreditar que “tudo coopera para o bem” (Rm 8.28). Deus é bom e Ele quer o meu bem. No entanto, no meu caso, esse bem não inclui filhos biológicos. Tive que esperar e confiar nEle. […]

No final, recebemos uma bênção diferente daquela que originalmente queríamos. Uma bênção muito doce e preciosa. Deus operou em meio ao problema e à provação. Ele nos abençoou com uma visão mais clara de quem Ele é, do que realmente importa na vida cristã e de onde devemos firmar nossa esperança. Temos uma esperança duradoura. Pedro diz: “Conforme a sua grande misericórdia, ele nos regenerou para uma esperança viva, por meio da ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos, para uma herança que jamais poderá perecer, macular-se ou perder o seu valor” (1 Pe 1.3-4).

Deus é glorificado quando alivia o nosso sofrimento; Ele também é glorificado quando não alivia o nosso sofrimento. Em ambos os casos, Deus sempre procura dar a maior bênção que Ele tem para você: a comunhão íntima com Ele.


Você encontra na íntegra o artigo A Bíblia e a Dor da Infertilidade no volume 7 de Coletâneas de Aconselhamento Bíblico, que pode ser adquirido na Livraria OPV.

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