“Quem sou?”

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“Identidade” é um assunto que deve ser tratado no aconselhamento?

Stuart Scott

Uma ilustração sobre identidade
Anos atrás, aconselhei uma mulher cristã, membro de igreja há muitos anos, que chamaremos de Jane. Quando procurou aconselhamento, ela estava percebendo sua vida como um completo fracasso, e via a si mesma como um nada: “um zero à esquerda”. Ela havia sido repetidamente mal-amada, seu marido a havia deixado, seus filhos adolescentes eram rebeldes para com ela e a rejeitavam, ela estava perto de perder sua casa, e não tinha emprego nem habilidades. Até aquele momento, eu nunca havia conhecido alguém tão depressivo e suicida. Quando nos encontramos pela primeira vez, ela já estava com a sua internação agendada em uma clínica, nominalmente cristã, por motivo de segurança e para receber ajuda.

Após ter dado entrada naquela clínica, não demorou muito para que ela fosse liberada devido à falta de cobertura do seu seguro de saúde. De volta em casa, ela parecia um pouco mais encorajada, e se esforçava para fazer com que essa pequena ponta de encorajamento permanecesse e crescesse. No entanto, ela logo retornou mais uma vez ao fundo do poço, com um foco dirigido totalmente para si mesma. Quando voltamos a nos encontrar, ela falou e refalou sobre como tinha aprendido em seu grupo de apoio que ela “realmente tinha uma identidade”, que ela era “alguém, porque Deus não faz lixo”, e que ela era “admirável, porque fora criada de um modo assombrosamente maravilhoso”. Mas tais coisas, que inicialmente pareciam de algum modo ter aliviado a sua alma, não mudaram a existência nem o impacto de seus problemas e vazios, e o fato é que ela continuava a se achar “um fracasso completo como cristã”.

Quando nos conhecemos, nós conversamos, e então escrevi em um quadro branco que tenho no escritório:
“Eu era NINGUÉM. Agora eu sou ALGUÉM em Cristo.”

Ela disse: “Sim… isto está certo.” Jamais esquecerei o olhar em seu rosto quando, logo em seguida, ela disse: “Oh, mas espere, isto não está realmente certo, está?”. Não demorou muito até que ela percebesse que havia algo muito errado no foco daquelas declarações, considerando-as à luz da perspectiva das Escrituras. Com certeza, era importante eu conversar com Jane sobre a questão da identidade para poder entender o aconselhamento que ela havia recebido, um aconselhamento muito agradável de se ouvir e acompanhado de versículos bíblicos para provar o conteúdo. Mas seria mesmo preciso eu também tratar de quem Deus diz que ela é em Cristo? Devo dizer que sim, sem dúvida. Embora esse talvez não fosse um dos primeiros pontos que precisaríamos considerar, ele era certamente crucial.

Identidade em Cristo: rumo a uma perspectiva equilibrada
Eu não tenho problema em usar a palavra identidade se eu a definir para um aconselhado como “quem nós sabemos ser ou acreditamos ser”. É verdade que a filosofia e a psicologia secular têm feito um estrago no termo, vinculando-o diretamente a um valor intrínseco, um valor pessoal, autoestima ou os sentimentos a eles relacionados.

Identidade não é uma palavra bíblica, mas é certamente um conceito bíblico no qual Deus fala bastante. Sendo assim, nós TODOS precisamos desesperadamente de uma boa dose de nossa verdadeira identidade. Isto é verdadeiro tanto para os incrédulos quanto para os crentes, e quer estejamos seguros quer não de nossa própria identidade (à parte de Cristo). É extremamente importante ter a perspectiva de Deus quanto a quem nós somos, porque isso tem tudo a ver com nossa salvação (ou não), e tem tudo a ver com nossa forma de viver a vida cristã alegremente e para a glória de Deus (ou não).

Se nós lidarmos com a nossa identidade em Cristo, ou a do nosso aconselhado, orientando o foco para o próprio eu, para um deleite ou busca de conforto e descanso em nós mesmos, para uma reivindicação de valor/merecimento intrínseco, ou para um incentivo aos nossos desejos carnais, então estaremos roubando a glória que pertence a Deus. E no final, se não logo no começo, viveremos carnalmente.

Por outro lado, se pensarmos em nossa identidade como sendo somente Jesus e Sua justiça (colocando-nos fora da cena), e desconsiderando quem nós somos integralmente por conta de quem Ele é integralmente, correremos o risco de não personalizar todo o evangelho diariamente e não aplicarmos as responsabilidades ou as promessas ligadas a quem somos em Cristo. Deixar de lembrar quem somos em Cristo tanto quanto as Escrituras nos relembram disso irá nos levar, provavelmente, a uma caminhada cristã de curto alcance, impessoal, derrotada e/ou isenta de alegria, o que também ofusca a adoração e a glória de Deus.

Seja qual for a vala na qual já nos encontramos ou para a qual poderemos escorregar em nosso aconselhamento, ambas constituem-se em enganos que dão lugar ao orgulho e dificultam a mudança real. O diagrama abaixo mostra o quão fácil é errar em qualquer das duas direções extremas.

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Quando seguimos pela vala da esquerda, atiçamos aquela chama do foco voltado para nós mesmos. Quando seguimos pela vala da direita, torna-se fácil ser forte em certos aspectos da teologia, mas difícil resolver pessoalmente nossa falha em viver de acordo com quem nós fomos de feitos para ser, de fato, em Cristo.

Um amigo lembrou-me recentemente de uma citação pertinente, feita por Warren Wiersbe:
“Equilíbrio é aquele ponto no tempo quando oscilamos no meio entre um extremo e outro”.

No entanto, em defesa do próprio ponto de vista, pode ser muito tentador contrabalançar exageradamente as influências de um ou outro extremo. A verdade equilibrada é aquilo de que necessitam os conselheiros pecadores e os aconselhados pecadores e machucados.

Aqueles que cresceram seguros em sua própria identidade podem ser tentados à autossuficiência, à exaltação de si mesmos e/ou ao descanso na própria bondade (orgulho). Aqueles que cresceram em um ambiente de relacionamentos de desonra podem cair frequentemente no desespero por uma falta de “valor próprio”, buscando valor em conquistas e/ou vivendo para a aprovação dos homens (também orgulho). A última coisa de que todos esses necessitam é qualquer encorajamento em direção ao orgulho, abominável para o Senhor e o início da queda (Pv 6.16, 17; Pv 16.18).

A pessoa desmoralizada ou abusada deve ser compassivamente direcionada a ver o valor, o mérito e a beleza de Cristo e do evangelho, e a entender humildemente sua posição e também o que cada aspecto da pessoa de Cristo significa para aqueles que agora estão nEle. No entanto, é necessário também advertir que a pessoa que está em Cristo é aquilo que é somente porque Ele é quem é e porque Ele cumpriu o que cumpriu.

A resposta para aqueles que foram de fato abusados não é serem inflados com autoestima, mas olhar para o nosso Deus amável, maravilhoso e gracioso, e para quem Ele diz que somos em Cristo, não por mérito próprio. Nós fomos maravilhosamente e detalhadamente criados, mas isso não significa que NÓS devemos sair por aí pensando que somos maravilhosos. Ele é maravilhoso (Sl 139). Nós não devemos encorajar o aconselhado a pensar “Eu realmente sou ALGUMA COISA”. Se assim fizermos, nós o estaremos encorajando a pensar de acordo com o mundo e a alimentar sua carne e a soberba da vida (1Jo 2.16). Os aconselhados devem colocar o foco em Deus e dar glória a Deus.

O resultado prático de uma perspectiva equilibrada
Então, é certo relembrarmos nossa identidade em Cristo, e sermos encorajados e gratos? Devemos ajudar nossos aconselhados a descobrir quem eles são em Cristo? Quanto a mim, digo que isso não só é admissível, mas muito necessário para dar a Deus a glória devida e incentivar humildade e mudança nos aconselhados. Devemos nos lembrar de que a nossa identidade em Cristo inclui muito mais do que pertencermos a Ele, sermos amados e sermos novas criaturas. Por mais importante que seja relembrar essas verdades, nós também somos pecadores perdoados, templos do Espírito Santo, escravos unidos ao Senhor, adoradores criados para adorá-lO, filhos da luz, atletas em uma corrida, ramos dependentes, discípulos, soldados em batalha e muito mais.

Para o equilíbrio adequado, deveríamos ajudar nossos aconselhados a sempre pensar nesses termos quando eles considerarem sua identidade:
“Porque Deus é _________ eu sou _________. Todo louvor e honra sejam dados a Ele!”

Se a nossa alegria não for decorrente de quem Ele é, e se a glória não for dada a Ele, nós perderemos o rumo. Os aconselhados necessitam de dignidade ou valor intrínseco, e deveriam reivindicá-los? Claro que não. É o valor de Deus, não o nosso valor, que nos dá qualquer importância, e nossa identidade, de forma completa, é apenas algo imputado ou derramado sobre nós pela graça de Deus. Assim como aconteceu com os dez leprosos que foram curados (Lc 17.11-19), existem muitas pessoas que se limitam apenas a contar o que Cristo fez por elas, ou quem elas são em Cristo, ao invés de voltarem o seu foco rapidamente para Ele com ações de graças e serviço em resposta a tudo aquilo que Ele é e que Ele tem feito por elas.

Alguns confundem o respeito básico pela vida humana com um valor pessoal intrínseco. Visto que todas as pessoas foram criadas à imagem de Deus, todos devem ter uns para com os outros o devido respeito humano básico que cabe a alguém que é portador da imagem do seu Criador, não um objeto qualquer (1Pe 2.17). Quando uma pessoa não recebeu o respeito humano básico de forma consistente, ela foi alvo de um pecado grave cometido contra ela e é preciso, então, que ela entenda a perspectiva de Deus sobre o sofrimento, a dor e o perdão. Sem dúvida, ela deve também renovar sua mente com a verdade de Deus sobre a condição humana tanto de pecadora quanto de portadora da imagem de Deus. No entanto, ela não precisa se esforçar para construir sua autoestima e elevar a si mesma ou descobrir seu valor próprio. Ela precisa se deleitar na pessoa de Deus e em Seu valor, e no que isso significa para aqueles que estão em Cristo.

Às vezes, quando leio certos escritos sobre nossa união com Cristo ou nossa identidade em Cristo, parece-me que o autor está exaltando a criação acima do Criador. Como conselheiros bíblicos, devemos ser cautelosos para que o nosso ensino não se pareça com uma apresentação cristianizada da autoestima. Devemos nos guardar de sermos instrumentos de maior engano para pessoas já feridas e/ou sem foco. As passagens como o Salmo 139, mencionado anteriormente, são às vezes distorcidas para darem a impressão de que falam inteiramente sobre nós e nosso valor, e não sobre quão maravilhoso Deus é. De fato, o Salmo pode se tornar um poema inteiramente sobre nós, ao invés de um poema que enfatiza o quão assombrosas são a onipresença, a onipotência e a onisciência de Deus. Embora ele encontre legitimamente conforto pessoal e alegria em suas constatações, a perspectiva de Davi ao longo do Salmo é basicamente esta: “UAU! Quão grande é o nosso Deus!”.

A Bíblia é o “diapasão divino” para manter em perfeita afinação nossa perspectiva e nossa vida. Não precisamos temer, portanto, quando falamos com uma perspectiva correta sobre o nosso Deus e a identidade que Ele graciosamente nos dá, e nos alegramos nisso. Desde que mantenhamos Deus/Cristo como o principal sujeito do retrato, e nós como mero cenário para fazer Cristo mais proeminente e formoso, nós podemos reconhecer que estamos presente e que somos abençoados. Até mesmo em passagens que nos chamam a centralizar o foco em Cristo (Cl 3.1ss; Gl 2.20ss), nós não estamos ausentes. Como João Batista declarou, Ele deve crescer e eu devo diminuir, mas parte de eu permitir que Ele cresça em minha vida depende de que eu entenda quem Ele me fez e de que eu viva para Ele.

Pode não ser fácil atingir o equilíbrio bíblico na questão da identidade, mas é algo que nós devemos buscar. Porque Ele é tudo o que é, e Ele fez tudo o que fez, nós, em Cristo, somos pecadores perdoados, somos Seus adoradores, filhos adotados e amados, Sua própria criação e propriedade resgatada, ovelhas do Seu pastoreio, discípulos que O devem seguir, amigos de Deus, atletas, soldados, novas criaturas com novo coração e poder, templos do Espírito Santo e ramos ligados à Videira Verdadeira – “para louvor da glória de sua graça” (Ef 1.6) e porque “…dEle e por Ele, e para Ele, são todas as coisas” (Rm 11.36).


Original:  Our identity… Should it be a focus in counseling – Biblical Counseling Coalition Blog



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