Este livro é velho e ultrapassado!

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Considerações sobre o lugar dos livros na “linha do tempo” quando o assunto é recursos para a pesquisa e a formação do conselheiro bíblico

Se alguém lhe perguntar “Este livro é velho e ultrapassado?” enquanto aponta para uma Bíblia, não há outra resposta imediata a não ser um sonoro “Não”! A Bíblia, como ela mesma afirma, nunca será um livro ultrapassado para transformar vidas. “A relva murcha, e as flores caem, mas a palavra de nosso Deus permanece para sempre” (Is 40.8).  No entanto, para os demais itens que compõem a coleção de recursos à qual o conselheiro bíblico recorre para pesquisa e estudo, a data de publicação da informação é uma questão importante a ser considerada.

O conselheiro bíblico reúne em seu campo de pesquisa e estudo duas áreas do conhecimento: a área bíblico-teológica e a área ministerial. Na área bíblico-teológica, com o passar do tempo, os bons estudos exegéticos e teológicos do texto bíblico não perdem seu valor, embora as implicações e aplicações extraídas devam se adequar ao tempo e lugar em que vivemos. Se você tem em suas mãos um excelente comentário ou compêndio teológico publicado anos atrás, não o despreze dizendo: Este livro é velho! Cuide bem dele, mantenha-o em sua biblioteca no formato físico ou digital, e tire bom proveito dele para o seu preparo.  Aprecie igualmente aqueles livros clássicos de autores que se empenharam em nos esclarecer aspectos fundamentais da dinâmica da vida cristã como John Owen, A. W. Tozer, Jerry Bridges, só para citar alguns. Estes dificilmente ficarão desatualizados, ainda que se beneficiem de novas edições com atualizações na linguagem e ortografia.

O mesmo, porém, não acontece na área ministerial com aqueles livros que se ocupam em responder aos desafios levantados pela pesquisa e pelas metodologias seculares do momento. É preciso que o conselheiro bíblico dê atenção à data de publicação de tais textos, acompanhando o desenvolvimento do campo e os debates entre estudiosos ao longo do tempo. Um texto publicado há uma década pode estar, em certo sentido, desatualizado. Note que ele não estará desatualizado em termos da filosofia bíblica do ministério, mas possivelmente estará desatualizado nos dados de pesquisa e estatística citados e nas conclusões a que o autor chega com base em tais dados.

Se você quiser, por exemplo, pesquisar sobre a resposta bíblica a um diagnóstico do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders – DSM), não poderá se limitar a textos publicados dez ou mais anos atrás.  As pesquisas e as metodologias seculares não pararam no tempo, bem como as respostas a elas por parte dos principais autores no campo do aconselhamento bíblico. Portanto, se quiser estudar os desdobramentos atuais na abordagem de determinados problemas, e transmitir a outros corretamente as considerações atuais de determinado autor, você precisa conhecer os artigos publicados no último ano, as palestras dos últimos meses, os textos publicados mais recentemente em blogs conceituados e que são, muitas vezes, a primeira versão de capítulos de livros a serem posteriormente publicados.

Um exemplo
Ao longo das últimas décadas, alguns autores ocuparam-se particularmente com traçar uma abordagem bíblica para os problemas que na cultura ocidental fazem parte do campo de estudo e atuação atribuído à psicologia e à psiquiatria. Edward Welch é um deles. Em 1991, foi publicado seu livro Counselor’s Guide to the Brain and its disorders: knowing the difference bertween disease and sin. Em 2015, temos uma edição atualizada. A base bíblica sólida da discussão do inter-relacionamento entre as partes material e imaterial do homem não mudou. No entanto, 25 anos de pesquisas e observações nos campos da medicina e farmacologia trouxeram novos diagnósticos e dados a serem trabalhados, novas drogas e novos efeitos colaterais a considerar, novas terapias a avaliar. Na sua biblioteca, é aconselhável substituir o exemplar antigo pelo atual, e “livro velho” pode ser descartado, a menos que o seu interesse esteja em fazer um estudo comparativo que aponte a evolução do conhecimento na área.

Ainda considerando Edward Welch, um dos autores que mais tem investido na construção de uma metodologia bíblica para lidar com os problemas e diagnósticos atuais que revelam a estreita relação entre o homem interior e o homem exterior, ao longo de duas décadas ele tem trabalhado uma metodologia bíblica para o tratamento dos hábitos escravizadores. Se você quiser refletir com precisão tal trajetória, será preciso olhar para seus primeiros livros como Addictive Behavior (1995) e Running in Circles (1995), passando depois pelo clássico Addictions: a banquet in the grave (2001) [em português, Hábitos Escravizadores], para chegar a Crossroad: a step-by-step guide away from addiction (2008), e o mais recente curso com guia de estudo e gravações Addictions: rewriting an addict’s story (2015), sem mencionar seus vários artigos, os capítulos em livros de autoria compartilhada e as palestras apresentadas em conferências de aconselhamento bíblico. “Pinçar” apenas um dos itens e basear-se só nele para transmitir “o pensamento de Welch” não refletirá com precisão a evolução do pensamento e da prática ministerial do autor.

Suponhamos agora que você queira estudar e ensinar sobre a história do aconselhamento bíblico até nossos dias, mostrando a evolução do pensamento e da prática ministerial dos autores ligados ao movimento do aconselhamento bíblico, que vem ganhando impulso desde meados de 1970. Você precisa, SIM, consultar as obras escritas tempo atrás, se não também as obras escritas séculos atrás pelos puritanos, que muito influenciaram o movimento atual do aconselhamento bíblico.  No entanto, o que você NÃO pode fazer é parar a sua pesquisa em obras de dez anos atrás. Pelo contrário, você precisa estar a par das publicações do último ano e também das discussões ocorridas nas mais recentes conferências de aconselhamento bíblico.

E então, este livro é velho e ultrapassado?
Dependendo do foco da sua pesquisa e da sua atuação ministerial, a sua biblioteca pode e deve reunir textos mais antigos, mas é imprescindível que eles estejam acompanhados por textos novos, que refletem as últimas discussões e considerações do campo.

Se você deseja aprender mais cobre como formar a sua biblioteca, consulte
A coleção de recursos do conselheiro bíblico.