Cansado demais para continuar a cuidar de outros

Fadiga por compaixão é uma expressão relativamente nova e pouco conhecida, usada pelos profissionais da saúde. Neste contexto, ela é entendida como uma síndrome que causa exaustão física e emocional em decorrência do custo empático de lidar com o sofrimento alheio. No Brasil, o fenômeno ainda é pouco conhecido, mas há vários estudos em andamento no contexto secular.[1]  Como entender uma possível fadiga por compaixão no ministério do conselheiro bíblico?  Joshua Waulk escreve sobre o tema no blog de Biblical Counseling Coalition, contribuindo para a compreensão e uma abordagem prática.  Em um próximo artigo, o foco estará na dinâmica do coração do conselheiro cansado.


Cansado demais para cuidar

Durante a minha carreira como policial, meus companheiros e eu éramos instruídos repetidamente a sermos cuidadosos quando saíamos para responder a um chamado de emergência porque, como nos diziam, você não prestará para nada, e contará como um desfalque nos recursos disponíveis, caso se envolva em um acidente durante o percurso.

Um cuidado análogo aplica-se aos conselheiros bíblicos e outras pessoas que prestam atendimento em situações de crise, e ficam suscetíveis a um fenômeno conhecido como fadiga por compaixão. Conquanto a fadiga por compaixão não deixe o conselheiro preso em um veículo capotado, ela ameaça tirá-lo de campo devido a uma falta de perspectiva e cuidado apropriados no atender à situação de crise.

Felizmente, como a maioria dos acidentes de carro, ela é amplamente evitável. Em contextos clínicos, a fadiga por compaixão costuma ser identificada como um “trauma secundário” ou “traumatização vicariante”. Ela também pode ser considerada como um tipo de transtorno do estresse pós-traumático secundário, que afeta aqueles que prestam cuidados às vítimas de um trauma. Embora até o momento possa não existir um consenso quanto à terminologia adotada, o que está claro é que os cuidadores correm sempre algum risco de se expor ao problema.

Identificar o perigo
A fadiga por compaixão pode ser vista como o resultado de trabalhar com um aconselhando cuja história afeta o conselheiro de forma mais profunda do que os demais. Ela pode também ser o resultado de longas horas de aconselhamento em um intervalo de tempo relativamente curto. Essa condição dos cuidadores se parece muito com a condição mais generalizada conhecida como burnout.[2]

Sobre a questão do burnout, Brad Hambrick oferece uma definição útil, que se vincula à nossa discussão da fadiga por compaixão:

O burnout ocorre quando as coisas nas quais antes confiávamos como fonte de vida e energia tornam-se uma fonte de desânimo e esgotamento. O burnout ocorre quando começamos a viver como se oferecer cuidado aos outros fosse um inimigo necessário, e começamos a preferir o torpor de um “morto-vivo” à  “exaustão do cuidar” nos relacionamento e no ministério cristão.[3] 

Não existe um método preciso para prever como ou quando a fadiga por compaixão pode atacar o coração de um conselheiro. A sabedoria e o discernimento de um parceiro de prestação de contas ou de uma equipe de colegas, que tenham liberdade de falar francamente com o conselheiro e alertá-lo, são essenciais tanto para a recuperação quanto para a prevenção.

Fisicamente, os conselheiros podem apresentar sintomas parecidos com os de seus aconselhados como, por exemplo, insônia, dores de cabeça, tonturas, claustrofobia, problemas físicos e perda de peso. Emocionalmente, os conselheiros podem querer se isolar, podem se sentir ansiosos, deprimidos, cansados ou irritados.

Qualquer combinação desses sintomas, representando uma mudança evidente ou perceptível no comportamento normal, pode sinalizar que o conselheiro está espiritualmente e fisicamente cansado. Para nos ajudar a entender melhor, podemos pensar naquilo que os médicos nos dizem sobre a hidratação: quando alguém chega a sentir sede, pode estar já desidratado. Da mesma forma, pode ser que quando os conselheiros começam a notar qualquer um dos sintomas acima, eles já estejam bem adiantados no processo de fadiga. Isso pode significar, portanto, que o tempo de interromper momentaneamente as atividades de aconselhamento já chegou, e isso deve ser feito em prol do conselheiro, dos familiares e das pessoas a quem ele ministra.

Ajuda prática para o conselheiro
As alterações temporárias a serem feitas na agenda do conselheiro devem ser consideradas caso a caso, até que o conselheiro esteja emocionalmente e espiritualmente pronto para voltar ao seu ministério. Isso pode ser especialmente necessário se estiver evidente que a qualidade da sua atuação foi comprometida e / ou a vida familiar do conselheiro sofreu prejuízo.

Fazer as mudanças necessárias pode ser mais ou menos difícil, dependendo de a atuação do conselheiro ser formal ou apenas voluntária no âmbito ministerial de uma igreja local, mas deixar de fazê-las pode produzir consequências desastrosas que superam de longe os inconvenientes de uma pausa temporária.

No ministério de aconselhamento, algum nível de cansaço, ou até mesmo a exaustão, é uma realidade para todos os conselheiros. A existência da fadiga por compaixão, e a batalha travada contra ela, é um lembrete de que somos seres finitos, com limitações reais.

Medidas preventivas
A conscientização a respeito do problema deve dar origem a medidas intencionais para ajudar a garantir que os conselheiros estejam protegidos. Conquanto proteger o conselheiro contra a fadiga por compaixão pode envolver um número de passos sábios e práticos (ou seja, a administração do tempo, o descanso sabático, a prestação de contas, a gestão da agenda de aconselhamentos, entre outros), a essência da prevenção e da cura está na confiança e no descanso na obra de Cristo. A esperança que os conselheiros estendem aos aconselhados é a mesma esperança sobre a qual deve descansar a sua fé, ou seja, o evangelho de Jesus Cristo.

Este mesmo evangelho traz ao conselheiro o lembrete de que só Deus é infinito. Só Ele, que opera por meio do poder da Sua palavra e do Espírito, é capaz de cumprir na vida do aconselhado o alvo do aconselhamento bíblico: a santificação.

Conselheiro, você não pode “curar a si mesmo” nem curar aqueles a quem você ministra. Essa lembrança não tem o propósito de desencorajá-lo, mas é uma verdade bíblica para incentivá-lo a confiar só em Cristo: “Eu sou a videira; vocês são os ramos. Se alguém permanecer em mim e eu nele, esse dá muito fruto; pois sem mim vocês não podem fazer coisa alguma” (Jo 15.5).

Na verdade, aqueles de nós que aconselham deparam-se a cada encontro com a mesma necessidade que o pregador apontou ao jovem Charles Spurgeon em 1850, na manhã de sua conversão: “Jovem, olhe para Jesus Cristo. Olhe! Olhe! Olhe! Você não tem nada a fazer senão olhar para Ele e viver”.[4]  Se colocarmos nossos olhos em Cristo e permanecermos nEle, poderemos guardar nosso coração e nos guardar de chegar à condição de estar cansados demais para continuar a cuidar de outros.


[1] Para o propósito de conhecer a terminologia e os conceitos seculares envolvidos, sugerimos a leitura do trabalho desenvolvido na Universidade de Brasília Fadiga por compaixão: quando ajudar dói.

[2] NdT. A síndrome de burnout (do inglês to burn out, algo como queimar por completo), também chamada de síndrome do esgotamento profissional, foi assim denominada pelo psicanalista nova-iorquino Freudenberger. A dedicação exagerada à atividade profissional está presente de forma marcante do burnout, mas não é o único aspecto do problema. O desejo de ser o melhor e sempre demonstrar alto grau de desempenho é outro aspecto importante da síndrome. Wikipedia

[3] HAMBRICK, Brad. Burnout: resting in God’s fairness. Phillipsburg, NJ: P & R, 2013), p 1.

[4] LAWSON, Steven J. The Gospel focus of Charles Spurgeon. Orlando, FL: Reformation Trust, 2012. p. 5.


OriginalToo Tired to Care  – Biblical Counseling Coalition Blog
Josh Waulk é director executivo de Baylight Counseling. Completou seus estudos em aconselhamento bíblico no Southeastern Baptist Theological Seminary e é membro da Association of Certified of Biblical Counselors (ACBC).



Você pode ler mais artigos sobre estresse em português e em inglês, e também consultar a bibliografia selecionada por Conexão Conselho Bíblico, consultando os assuntos estresse e depressão.