8 razões por que a teologia e o preparo teológico são importantes


Robert Jones

Conselheiros Bíblicos com Preparo Teológico (CBPT)
Por que no ano de 2004 deixei o ministério de liderança pastoral, após 19 anos de um ministério gratificante, para me tornar um professor de seminário? Uma razão se destacou das demais: treinar pastores, plantadores de igrejas e cristãos vocacionados para aconselharem biblicamente outras pessoas. Aqueles que recebem treinamento teológico precisam de treinamento em aconselhamento bíblico para saber como usar a Palavra que estudam e aprender a aplicá-la em situações práticas para ajudar as pessoas que lutam com problemas.

No entanto, o oposto também é verdadeiro. Os conselheiros bíblicos necessitam de treinamento teológico. Por quê? Porque o treinamento teológico em uma escola comprometida com o aconselhamento bíblico maximiza a oportunidade dos alunos se tornarem peritos na Bíblia para usar a Palavra de Deus e ministrar aos outros com confiança. Queremos produzir uma geração de conselheiros com preparo teológico (CBPT).

Consideremos oito categorias da teologia que dizem respeito diretamente à teoria e à nossa prática do aconselhamento. Essas não são questões com que apenas os seminaristas lutam, mas são questões às quais qualquer abordagem do aconselhamento cristão – não importa quão “bíblica” ou “integracionista” ela diga ser – responde implicitamente de alguma forma, seja certa, seja errada. Podemos usar essas oito categorias para fortalecer nosso próprio aconselhamento, mas também para avaliar outras abordagens que pretendem ser bíblicas ou cristãs.

-1- A Bíblia
Qual é a fonte da verdade para um conselheiro? Em todas as diferentes abordagens de aconselhamento, a Bíblia é de fato usada? Se sim, como? Em que proporção? Ela é interpretada e aplicada com precisão de acordo com os métodos padrão de exegese? Os CBPT acreditam que a própria Bíblia ensina que toda a Escritura é inspirada por Deus, inerrante, possui autoridade, é suficiente e superior a todas as outras fontes de conhecimento. Acreditamos que a Bíblia conduz e não só controla a nossa abordagem, de forma que a teoria e a prática do aconselhamento bíblico provêm da Bíblia, e não apenas condizem com a Bíblia de alguma forma.

-2- Deus
Como entendemos e apresentamos o Deus trino e, em particular, Jesus Cristo? Como CBPT, quando lemos as páginas do Novo Testamento, contemplamos um Messias que foi crucificado, responsável por carregar nossos pecados, que ressuscitou e capacita aqueles que são Seus. Vemos um Sumo Sacerdote que reina e intercede, um Salvador que voltará como Juiz e Rei sobre toda a humanidade. [1] Será esse o Jesus que vemos no aconselhamento bíblico contemporâneo? Será que os livros típicos de terapia cristã incluem necessariamente o Redentor pessoal que deve morrer pelos pecadores e, em seguida, ressuscitar para permitir que nós vivamos?

-3- As pessoas 
O que pensamos a respeito das pessoas? Os CBPT veem as pessoas como uma unidade essencialmente constituída de uma dimensão exterior e uma dimensão interior – uma substância material (corpo físico) e uma substância imaterial (coração, espírito, alma, mente). Nós somos espíritos/almas encarnados. Quaisquer que sejam os problemas físicos que os médicos provem ou presumam, devemos sempre nos dirigir à alma do nosso aconselhado. Além disso, acreditamos que Deus criou as pessoas à Sua imagem, com um coração ativo e, inevitavelmente, conectado a Deus. Quaisquer que sejam as dificuldades que as pessoas tenham enfrentado no passado ou ainda enfrentem no presente (e muitas dessas nos fazem chorar), seu coração ativo sempre é, em alguma medida, responsável e capaz de se voltar para Deus ou se distanciar dEle. Essa perspectiva por si só já nos traz esperança (você não está condenado!) em meio às várias formas de vitimização que as pessoas enfrentam.

4- O pecado
Qual é o problema com que os seres humanos se deparam? Por que as pessoas pecam? Por que as pessoas sofrem? Como o mal entrou neste mundo? Os CBPT entendem que todos os problemas humanos, em última análise, tiveram seu início com a Queda e continuam por conta tanto do pecado original (a natureza pecaminosa que reina nos incrédulos e permanece nos crentes) quanto do nosso pecado atual. No entanto, não temos uma visão simplista do pecado. Como David Powlison coloca:

O pecado, em todas as suas dimensões (i. e., tanto a motivação quanto o comportamento, tanto os pecados que cometemos quando os pecados cometidos contra nós, tanto as consequências do pecado pessoal quanto as consequências do pecado de Adão) constitui-se no problema primordial com o qual os conselheiros precisam lidar[2] (grifo original)

Nós lidamos tanto com os pecados que nossos aconselhados cometem quanto com o sofrimento que eles experimentam devido ao pecado externo. Lidamos com o pecado como nossa condição inata e como nosso comportamento, o pecado como incredulidade e como rebelião, o pecado como desejar as coisas proibidas e como desejar demais as coisas boas, o pecado interno (escondido) e externo (revelado), o pecado como comissão e omissão, o pecado racional e irracional, o pecado degenerativo e circunscrito. [3]

-5- A motivação
Por que as pessoas fazem o que fazem? O que deve motivá-las? Em decorrência da nossa visão de que as pessoas são portadoras da imagem divina, os CBPT reconhecem que as pessoas, fundamentalmente, são sempre impulsionadas pelo desejo de agradar, adorar, confiar em Deus e Lhe obedecer, ou por lealdade a coisa(s) ou pessoa(s) diferente(s) de Deus. Além disso, não acreditamos que a motivação humana seja melhor explicada por impulsos psicodinâmicos inacessíveis. Acreditamos que ela é explicada pela carne, pela idolatria, por falsos tesouros e adultério espiritual – as realidades internas que o Espírito de Deus e a Palavra de Deus trazem à luz.

-6- A mudança
Como as pessoas realmente mudam? Qual é a melhor forma de aconselhar? Os CBPT acreditam na mudança cristocêntrica, que ocorre por meio de um processo de renovação da nossa mente e afeições, deixando o pecado de lado e substituindo-o pela retidão, oração, leitura das Escrituras, serviço, adoração, e assim por diante. Em outras palavras, a mudança acontece à medida que o Espírito de Deus usa progressivamente seus meios de graça, públicos e privados, na vida de cada aconselhado.

-7- Nosso alvo
Como é a pessoa ideal? Se por definição todos os conselheiros existem para ajudar as pessoas a mudar, qual será o padrão que devemos colocar diante do aconselhado? Quando os terapeutas usam termos como doença mental, comportamento anormal e transtornos psicológicos, o que seriam a saúde mental, o comportamento normal e uma psique “não transtornada”? Os CBPT respondem com duas palavras: Jesus Cristo. Nós queremos que as pessoas pensem, desejem, falem e ajam como o Filho de Deus, Aquele cuja a imagem é o alvo de todo o trabalho redentivo de Deus.

-8- Pessoas que ajudam pessoas
Quem são as pessoas que Deus usa como Seus instrumentos? O que elas fazem para ajudar outras pessoas a mudar? Os CBPT compreendem a centralidade atribuída nas Escrituras tanto aos pastores quanto aos leigos piedosos para ajudar no crescimento e mudança de outras pessoas. Vemos a igreja como o agente planejado por Deus e o cenário para o cuidado mútuo, não à parte do Espírito de Deus e da Palavra de Deus, mas como homens e mulheres capacitados pelo Seu Espírito e que manejam a Palavra com graça e sabedoria.

Conselheiro bíblico, você quer compreender e aplicar essas oito categorias bíblicas de forma mais profunda e prática? Considere, então, buscar um preparo teológico, básico ou avançado. Para os conselheiros bíblicos, as questões teológicas são de extrema importância.


[1] JONES, Robert D. The Christ-centeredness of biblical counseling. In: KELLEMEN, Robert, FORREY Jeff (edit.). Scripture and counseling: God’s Word for life in a broken world. Gran Rapids, Mich.: Zondervan, 2014. cap. 6.
[2] POWLISON, David. O aconselhamento e a pecaminosidade humana. In: MacARTHUR, John Jr., MACK, Wayne (edit.). Introdução ao aconselhamento bíblico: um guia básico de princípios e práticas de aconselhamento. São Paulo: Hagnos, 2004. p. 80.
[3]  JONES, Robert D., HAMBRICK, Brad. O problema do pecado. In: MacDONALD, James, KELLEMEN, Robert, VIARS, Steve (edit.). Aconselhamento bíblico cristocêntrico: mudando vidas com a verdade imutável de Deus. São Paulo: Editora Batista Regular, 2016. cap. 9.


Original: 8 Reasons why theology and theological training matter
Este artigo faz parte da série Aconselhamento bíblico e educação superior do blog BCC Grace & Truth.
Dr. Robert Jones é professor no Southern Baptist Theological Seminary.