A importância das perguntas no aconselhamento bíblico

Julie Ganschow

O centro de aconselhamento bíblico onde sirvo oferece treinamento para as pessoas interessadas em ministrar no aconselhamento bíblico, um discipulado intensivo. Em um dos módulos, nossos alunos aprendem os aspectos práticos de como proceder em um encontro de aconselhamento bíblico. Eles aprendem que começamos um encontro de aconselhamento reunindo os dados e colhendo informações do aconselhado.

Antes de podermos dar qualquer conselho, precisamos conhecer os problemas que o aconselhado quer ou precisa tratar (Provérbios 18.13, 15, 17). Nossos aconselhados muitas vezes, começam por compartilhar seus problemas menos comprometedores.  Antes de colocar em cima da mesa o verdadeiro problema, eles querem saber se somos confiáveis ​​e competentes. O problema “respeitável” e o problema “real” nem sempre são um só e o mesmo!

É por isso que uma das melhores habilidades que alguém novato no aconselhamento bíblico pode cultivar é aprender a fazer boas perguntas. No aconselhamento bíblico, os tipos mais eficazes e produtivos de perguntas são aqueles direcionados diretamente ao cerne da questão. Precisamos expor um coração que, por natureza, oculta-se e é enganador (Jeremias 17.9). As perguntas ajudam o aconselhado no processo de mudança bíblica e muitas vezes reduzem o tempo que é preciso investir no relacionamento formal de aconselhamento.

Fazer perguntas que provocam respostas que expõem o coração é um trabalho árduo! É preciso um esforço para encontrar boas perguntas que levem o aconselhado a pensar. Cultivar essa habilidade faz com que o conselheiro pense também. Acredito firmemente que fazer boas perguntas é central para o aconselhamento bíblico bem-sucedido. Descobri que fazer boas perguntas tornou-se uma arte perdida.

Alguns erros comuns que fazemos são:
— fazer afirmações e colocar um ponto de interrogação no final,
— fazer perguntas do tipo “Por quê?”,
— fazer perguntas que apelam para o lado emocional.

As perguntas são uma forma de comunicação
Uma boa comunicação inclui dar e receber informações. Nosso objetivo é sermos bons comunicadores em benefício daqueles que aconselhamos e para a glória de Deus. Eu diria que fazer perguntas é o alicerce da boa comunicação. Na verdade, eu daria ainda um passo a mais e diria que fazer boas perguntas é a pedra angular desse alicerce.

Fazemos perguntas que se dirigem às questões do coração porque esse tipo de pergunta de sondagem cumpre dois propósitos: elas nos fornecem informações e fazem com que o aconselhado pense em vez de somente expressar emoções. As boas perguntas podem alfinetar a consciência do aconselhado expor as áreas de autoengano, racionalização ou justificação que  ele mesmo desconhecia até então.

O que faz uma pergunta ser uma boa pergunta?
O objetivo de fazer perguntas é obter informações sobre a vida do aconselhado e o problema conforme ele o vê. Abaixo estão alguns benefícios de fazer boas perguntas durante um encontro de aconselhamento bíblico.

— As perguntas efetivas incentivam a pessoa a envolver seu cérebro e a encontrar uma resposta que vai além de suas emoções. Em nossa cultura, pensamentos e crenças são constantemente rotulados erradamente como sentimentos. As boas perguntas suscitam uma resposta pensada, em vez de uma resposta puramente emocional, como “eu sinto que não estou sendo respeitado” ou “eu sinto que isso é injusto” ou “sinto que você não me ama / respeita / compreende”.

— As perguntas efetivas revelam algo sobre o que está acontecendo nos pensamentos e crenças do homem interior, o que é importante porque nosso objetivo é chegar ao coração da pessoa.

— As perguntas efetivas ajudam o aconselhado a entender que seus pensamentos sobre a pessoa envolvida ou o problema (ou seja, os valores e os julgamentos que ele fez sobre essa pessoa ou a situação) criaram uma resposta emocional como, por exemplo, tristeza, ira ou autocomiseração.

— As perguntas efetivas expõem o sistema de crenças do aconselhado, o que é importante porque nós agimos de acordo com aquilo que acreditamos ser a verdade. Elas também expõem os desejos do aconselhado. Queremos conhecer as esperanças e os sonhos do aconselhado porque a Bíblia nos diz que onde está nosso tesouro, ali está também nosso coração (Mateus 6.21)!

— As perguntas efetivas expõem as inconsistências entre aquilo que o aconselhado diz acreditar e aquilo que ele faz. Um homem pode dizer que acredita que o divórcio seja errado, mas também diz que sente paz quanto a deixar sua esposa e sua família.

— As boas perguntas levam às razões fundamentais por que alguém está procurando aconselhamento. Eles provocam a pessoa a pensar e raciocinar sobre as questões do coração.

— As perguntas efetivas devem direcionar o aconselhado ao discernimento da verdade sobre si mesmo e suas circunstâncias. Quando fazemos essas perguntas, descobrimos fatos que ainda estavam encobertos, aquilo o aconselhado queria que soubéssemos, mas que, de certa forma, ele tinha receio de nos contar.

— As perguntas efetivas revelam as motivações escondidas no coração e revelam aspectos que talvez fossem desconhecidos até para o próprio aconselhado, devido ao engano de seu coração. Elas são usadas ​​pelo Espírito Santo para produzir conscientização e arrependimento no coração, e um senso de responsabilidade pessoal no aconselhamento. Portanto, em poucas palavras, nós não diremos ao aconselhado quais são os problemas de pecado que percebemos existir. Dizer para alguém quais são seus pecados transfere para você a responsabilidade pelo reconhecimento do pecado, uma responsabilidade que pertence ao aconselhado. Ele poderia se tornar defensivo, discordar de sua opinião, transferir a culpa para outros ou ignorar sua conclusão. Quando fazemos perguntas dirigidas ao coração do aconselhado, elas resultam em conscientização e arrependimento guiados pelo Espírito Santo. A graça é abundante quando o aconselhado chega a uma conclusão bíblica sobre seu pecado e reconhece a própria responsabilidade na situação.

Faça boas perguntas, mas tenha cuidado para não transformar em pura investigação o tempo que você passa com o aconselhado . Seu aconselhado está à procura de alguém com compaixão e de um coração que anseie ministrar ao dele. Lembre-se de que o Espírito Santo é o conselheiro por excelência, e que Jesus é nosso mestre por excelência na arte de fazer perguntas. Invista tempo nos Evangelhos e aprenda com Jesus a fazer perguntas. Esse é um exercício de muito valor não só para os conselheiros bíblicos novatos, mas para os mais experientes também.

Para refletir
Você já colocou como um de seus objetivos aprender a fazer perguntas que atinjam o coração do aconselhado durante os encontros de aconselhamento?
Você está disposto a fazer uma avaliação crítica de como você costuma interagir com seus aconselhados nesse importante aspecto do aconselhamento bíblico?



Original: The Importance of Questions in Biblical Counseling
Artigo publicado originalmente em BCC – Grace & Truth Blog