Aconselhamento de jovens (parte 1)

Criando um ambiente de abertura para moças no final da adolescência

Amy Speck

Multiply é um podcast de Word of Life Bible Institute (WOBI) e tem por propósito orientar os líderes jovens a se multiplicarem, multiplicarem suas equipes e multiplicarem seu ministério. Para aqueles que lidam com moças adolescentes e jovens, uma das preocupações é criar um ambiente onde elas tenham abertura para conversar francamente sobre suas lutas. Em um episódio recente, Bryan Backer conversou com Amy Speck sobre o aconselhamento de moças. Amy é uma conselheira certificada pela Association of Certified Biblical Counselors (ACBC), é deã de moças em WOLBI Canadá, e seu ministério tem um forte impacto no campus junto às moças que estão no fim da adolescência, na faixa de 18 a 19 anos de idade.

Aqui você pode ler um resumo da conversa de Bryan Backer com Amy Speck, e recomendamos que acesse o episódio na íntegra no site de Multiply.

Como você cria um ambiente em que as moças se sentem à vontade para se abrir e conversar?
Todos os anos, por ocasião da chegada de novo grupo de alunas em WOLBI, gosto de fazer um encontro de boas-vindas. Logo nesse primeiro encontro, digo algo que, ao longo do ano, repito várias vezes: “Vocês sabem como isso acontece. Todas têm coisas guardadas no coração, e este é um ótimo lugar para lidar com isso”. Para algumas, são pecados; para outras, são emoções ou lutas esmagadoras sobre as quais nunca conversaram com ninguém. Elas têm medo de conversar com as pessoas por diferentes razões: temem um julgamento, sentem-se envergonhadas e culpadas, não confiam em ninguém ao seu redor, temem compartilhar suas lutas e medos mais profundos.

Você identifica que boa parte delas cresceu em um ambiente onde podiam falar abertamente sobre seus problemas, quer na igreja, quer em casa?
Na verdade, não é bem assim. É raro quando uma jovem diz: “Converso muito com minha líder de jovens, falo muito com minha mãe”. Eu ainda me admiro com essa falta de diálogo, mas o fato é que as jovens, por alguma razão, não estão conseguindo se abrir. Às vezes, elas admiram tanto e querem ter a estima de sua líder ou a mãe, que temem desapontá-las se forem verdadeiras sobre suas lutas ou sobre aquilo que acontece em sua vida.

Essa parece ter sido durante muitos anos a cultura dominante em nossas igrejas e, em muitos casos, também nos lares. Penso que, de forma geral, a geração do milênio tem contribuído para uma mudança. Você concorda?
Concordo. Parece-me que as moças querem conversar. Elas querem que alguém invista em sua vida e as ajude de verdade, mas precisam superar essa hesitação inicial de que acabamos de falar, gerada pelo medo, por vergonha e por temer um possível julgamento.

O que você faz para que elas saibam que podem se abrir com segurança? Como fazê-las começar a falar sobre suas lutas pessoais? Quais são algumas coisas práticas que você diz?
Uma das coisas que costumo dizer é que estou sempre disponível. Elas podem chegar no meu escritório a qualquer momento. Elas podem me mandar uma mensagem a qualquer hora. Quando querem conversar, podemos fazer isso acontecer! Estar disponível, porém, é apenas um lado da questão. Procuro, também, ser intencional em conhecê-las e começar a estabelecer relacionamentos. Faço isso convidando-as para tomar um café ou uma refeição comigo, convidando para um passeio ou para ir à minha casa. Essas são maneiras de criar um ambiente seguro para uma conversa. Deixo claro para elas que, tanto quanto eu puder, manterei as nossas conversas confidenciais. Você não pode prometer confidencialidade total. Por exemplo, se elas confessarem que sofreram um abuso, você não pode prometer a confidencialidade, mas pode dizer: “Dentro do possível, manterei o assunto confidencial”.

Como você inicia o diálogo com essas jovens, individualmente ou no contexto de um grupo pequeno? O que é preciso fazer para motivá-las a falar?
Penso que uma das coisas que precisamos fazer é usar exemplos de tipos de pecado ou lutas comuns a elas, e usar claramente os termos que identificam tais situações. Às vezes, elas podem pensar: “Ok, ela fala em lutas, mas não menciona aquilo com que eu luto”. Sabe? Precisamos especificar: “Você luta com pornografia? Você luta com masturbação? Você luta com mensagens sensuais no celular? Você luta com ansiedade? Você luta com depressão?”. É possível que algumas vezes tenhamos receio de usar diretamente esses termos por achar que eles poderiam suscitar problemas sobre as quais elas nem mesmo tinham pensado antes ou situações com as quais elas não estão envolvidas. Creio que seríamos ingênuos se achássemos que elas nunca irão ouvir falar sobre isso ou se achássemos que elas ainda não sabem nada sobre isso ou, talvez, nunca tenham lutado com isso. Penso que é muito importante que elas saibam que essas tentações são comuns, conforme diz 1Coríntios 10.13: “Não sobreveio a vocês nenhuma tentação que não fosse humana”. Acho que é muito importante que nós as lembremos de que tudo o que elas estão passando, seja uma luta contra o pecado, seja apenas uma luta emocional, é de certa forma comum, e elas não são as únicas a enfrentarem isso. Uma mentira do inimigo é dizer: “Você é a única!”. Acreditar nessa mentira as isola e faz com que elas se sintam extremamente sozinhas nas dificuldades que estão tendo. Fazer perguntas diretas ou mencionar nas conversas aqueles assuntos que, para elas, são difíceis de abrir, pode fazer com que as conversas superficiais, ou inicialmente desajeitadas, passem a ser conversas reais.

Se você der partida e mencionar o assunto, a continuidade da conversa fica bem mais fácil para elas. Se você só disser “Então, conte para mim com o que você está lutando”, será mais difícil para elas responder com a palavra “pornografia”, ou algo parecido. A propósito, visto que você trabalha com as jovens, você deve estar familiarizada com isso, mas é bem possível que algumas pessoas estejam pensando: “Sério? Pornografia? Moças adolescentes?”. Sim! Esse é o mundo em que vivemos hoje, e pornografia não é mais um problema apenas dos homens. Você concorda?
Sim, a pornografia é um problema que está crescendo. Nós nos deparamos com ele muitas vezes, e precisamos não ter receio de conversar a esse respeito. Não podemos nos esconder atrás daquele argumento de que não queremos falar de algo que pode ser novo para elas. Quero que elas tenham esse tipo de conversa comigo porque posso compartilhar a verdade bíblica, posso dar a esperança de que Deus provê em Sua Palavra um meio para que elas vençam suas lutas, quaisquer que sejam. Algumas dessas lutas de que estamos falando são comportamentos altamente viciantes e eu não quero que elas fiquem presas no pecado. Quero que elas encontrem liberdade e esperança.

Você falou sobre fazer perguntas. Que tipo de perguntas você faz? Como você consegue fazer as jovens falar? Você tem algumas perguntas já prontas ou o que tem servido de guia para você?
O que sempre faço em meus discipulados e aconselhamentos é, inicialmente, perguntar a elas sobre sua história vida. No final, a última pergunta que faço é: “Há mais alguma coisa sobre a qual você gostaria de conversar comigo?”. Costumo explicar que faço essa pergunta não porque acredito que ela não tenha se aberto comigo, mas porque, talvez, eu não tenha feito a pergunta exata que ela estava esperando e ela ainda queira acrescentar alguma coisa mais, que poderia estar difícil de expressar. Às vezes, ficamos à espera de  que alguém nos faça a pergunta certa: “Se ela tivesse me perguntado isso, eu teria falado!”.  Não sei lhe dizer quantas vezes fiz essa pergunta no final da conversa e ouvi a seguinte resposta: “Na verdade, sim, tem realmente tal ou tal área em que Deus tem me incomodado” ou “Tem esse assunto sobre o qual eu nunca conversei com ninguém, e eu realmente quero falar com você sobre isso”. Não sei lhe especificar quantas vezes isso ajudou a iniciar uma conversa mais profunda. Procuro sempre fazer perguntas que não tenham apenas respostas do tipo “sim” ou “não”, porque entendo o quanto é difícil se abrir com alguém que você não conhece muito bem e compartilhar algumas das coisas mais difíceis. Quero puxar a conversa e tornar a continuidade o mais fácil possível para elas. Sugiro que você prove fazer isso, e verá o resultado!

Especialmente em grupos pequenos, é bom evitar as perguntas de “sim” ou “não”. Conte um pouco mais sobre como você faz perguntas para que as moças continuem a falar.
Digamos que elas compartilhem com você algo que aconteceu em sua história de vida. Você pode fazer perguntas como, por exemplo, “Como foi que você se sentiu?” ou “Como você pode ver a atuação de Deus nisso?” ou “O que isso faz você pensar a respeito de Deus?”. Guie a conversa na direção para a qual você quer ir, mas não esqueça de pedir sabedoria a Deus. Não sei lhe dizer quantas vezes eu me sentei para conversar com uma moça e pensei comigo mesma: “Eu nunca ouvi nada assim antes! Eu não sei o que fazer!”. Mesmo enquanto estou conversando, peço mentalmente sabedoria a Deus para que eu perceba qual pergunta fazer em seguida e como levar adiante a conversa.

Às vezes, temos a tendência de fazer uma pergunta, receber uma resposta e começar logo uma pregação. Penso que esse tipo de corte seja como girar a trava de uma válvula, fechar o fluxo da conversa e parar de receber informações. Até aqui, falamos sobre como fazer perguntas, vamos falar um pouco sobre como ouvir as respostas nos aconselhamentos ou quando você está liderando um grupo pequeno, e o que fazer em seguida.
Ouvir é muito importante, especialmente quando temos alguém que está sofrendo, porque nossa tendência é querer simplesmente dar algumas respostas prontas, intervir o quanto antes e ajudar a “consertar” a situação ou a pessoa. Muitas vezes, porém, Deus é o único que pode intervir naquela história de vida e promover mudanças, e a Sua palavra é o que pode trazer liberdade verdadeira. É muito importante ouvirmos com atenção e não ouvirmos apenas para corrigir o problema e fazer com que ele desapareça logo. Alguns princípios bíblicos certamente vêm logo à nossa mente, mas se você continuar a fazer boas perguntas antes de passar ao ensino, creio que isso ajudará para que você encontre as melhores respostas, pois conhecerá melhor a situação. Penso que isso também ajude a pessoa com quem você está conversando a se sentir levada a sério. Ela irá pensar consigo mesma: “Esta pessoa está me olhando nos olhos e ouvindo o máximo que ela pode, ela está realmente interessada naquilo que estou dizendo”. Com o ouvir atento, você dá a entender que não está com pressa de chegar ao fim da conversa. Especialmente quando estou conhecendo alguém pela primeira vez, procuro separar um bloco de tempo significativo para que eu não tenha que terminar logo nossa conversa devido a outro compromisso, e para que eu tenha certeza de dar à pessoa uma oportunidade para dizer tudo quanto ela quer me contar. Se você estiver em um ambiente de grupo pequeno, você pode conduzir a conversa para algo com que elas possam estar lutando, pode apresentar um caso e pedir que trabalhem em cima dele. Por exemplo: “Uma garota chamada Jane tem recebido mensagens de texto de um rapaz que lhe pede nudes. O que ela deve fazer? O que a Bíblia diz para ajudá-la a decidir o que ela deve fazer?”. Depois pode perguntar: “Alguma de vocês luta ou já lutou com isso?”. Você pode não receber respostas imediatas, mas você entrou em um assunto com o qual, possivelmente, algumas delas estejam lutando e as conversas podem vir. É importante você estar atualizada quanto à cultura em que elas vivem e as lutas atuais que enfrentam.

Parte 2



Original: Creating a Culture of Openness with Teen Girls – Amy Speck
Transcrição: Stephanie Cox Rinaldin
Tradução: Carla Silva
Revisão e adaptação: Conexão Conselho Bíblico