Ajudando estudantes a aprender com o fracasso

Joe Keller

É muito provável que todos nós, de uma forma ou outra, estejamos envolvidos em educação. Cada um de nós interage no cotidiano com algum estudante ou com um educador, ou talvez seja um destes. E por que falar sobre fracasso? As ideias de fracasso e educação podem parecer a aparentemente contraditórias. Os estudantes se sentem pressionados a serem bem-sucedidos, tanto na área curricular como na extra-curricular. Para o aluno em fase de desenvolvimento, a escola vem a se tornar um microcosmo da vida e, lentamente, pode se tornar uma panela de pressão para o sucesso e a realização esperada para a vida.

Hoje, o sistema escolar está produzindo níveis históricos de sucessos acadêmicos institucionais.[1] Surpreendentemente, porém, os alunos estão revelando uma capacidade decrescente de gerenciar a ansiedade e o estresse. Na maioria das vezes, esses fatores de estresse estão relacionados a fracassos pessoais identificados dentro e fora da sala de aula. À medida que a expectativa de sucesso aumenta, o mesmo acontece com o medo do fracasso.

O fracasso como instrumento de ensino
Uma cosmovisão bíblica propõe as dificuldades e os fracassos como instrumentos que têm por propósito levar-nos a aprender sobre nosso Deus, sobre nós mesmos e sobre o mundo em que vivemos (Rm 5.1-11; Tg 1.1-18). Uma educação integral deve incluir ajudar o aluno a aprender com o fracasso. Andar ao lado da pessoa no fracasso, bem como no sucesso, é um componente essencial de uma pedagogia cristã.

Não me entenda mal. Eu não estou defendendo que devemos promover o fracasso. Buscar o sucesso com uma ambição santa é uma bela dinâmica do que significa expressar nossas capacidades como portadores da imagem de Deus. A estrutura da narrativa bíblica nos dá o contexto para viver, criar, explorar e desfrutar a criação de maneira que honre o Senhor e nos traga alegria (Gn 1.26-31). No entanto, quando o fracasso é demonizado e visto como algo a ser a evitado a todo e qualquer custo, perdemos a oportunidade única de desenvolver de forma integral pessoas prontas a aprender ao longo de toda a vida.

Devemos não apenas incentivar as pessoas a se matricularem nos cursos escolhidos, mas também devemos contribuir para o seu desenvolvimento a partir de uma cosmovisão distintamente bíblica, que pode se expressar tanto na vida acadêmica quanto nos detalhes da vida, e ao longo de toda a vida. Esse, no final, é o objetivo da educação: não apenas adquirir o conhecimento, mas também obter a sabedoria (Pv 4.1-9). Viver para aprender inclui aprender com o fracasso. O que faremos aqui é considerar algumas das oportunidades de aprendizado que vêm com o fracasso.

O fracasso produz perspectiva
O fracasso coloca em perspectiva as realidades de um mundo caído. Nem todos conseguem marcar um gol, obter 100% de aproveitamento ou o papel de ator principal. A cultura digital em que os estudantes vivem mostra o lado belo da vida e não expõe os duros desafios do mundo físico. Aprender com o fracasso significa ganhar uma perspectiva da realidade da vida, que molda a capacidade de discernir e as escolhas futuras. A clareza de perspectiva, desenvolvida ao lidar com o fracasso, ajuda a reconhecer com precisão que vivemos em um mundo caído e a reformular o quadro com base em Cristo e nossa identidade em Cristo (Efésios 4.1-7).

O fracasso reforça a responsabilidade
Quando o fracasso chega, nossa primeira tendência é identificar a causa. Aprender com o fracasso não é olhar em primeiro lugar para os fatores externos que exerceram influência, mas olhar para os aspectos pessoais que moldaram o fracasso. Faça as seguintes perguntas: O que eu poderia ter feito diferente para estar melhor preparado? Que conselho eu recebi, mas não segui? O que deveria ter recebido minha atenção, mas eu ignorei? Assumir a responsabilidade pelo fracasso é básico para aprender com o fracasso. Existe, porém, um cuidado a considerar aqui. Não há nada de nobre em assumir responsabilidade por coisas que comprovadamente não são de nossa responsabilidade. Devemos ser tão diligentes em dar ênfase à nossa responsabilidade quanto em reconhecer quando a responsabilidade não for nossa (Pv 13.3, 4).

O fracasso expõe o coração
O choque do fracasso pode produzir, às vezes, uma resposta profunda e forte. Nossas respostas emocionais são portas de entrada para explorarmos os nossos desejos e motivações por trás das ações que escolhemos. É muito esclarecedor entender não apenas o que aconteceu, e por que aconteceu, mas também a importância de tal entendimento. O que nos motiva importa. É possível que o fracasso não se deva a uma questão de capacidade, mas de vontade. Nossa maneira de responder ao fracasso expõe o que realmente queremos e a nossa motivação para alcançar o que queremos (Lc 6.45).

O fracasso aprofunda a dependência
O fracasso nos força a perceber que não podemos fazer tudo sozinhos. Os seres humanos são criados como seres dependentes e o caminho para a maturidade está em aceitar essa condição de dependência. Aprendemos que pedir a ajuda de Deus e dos outros é fundamental para viver bem. Aqueles entre nós que aceitam a instrução do fracasso podem se dar conta de que superestimaram o próprio esforço e começar a reconhecer humildemente o valor da ajuda dos outros. Na economia do evangelho, a dependência é o caminho para o verdadeiro florescimento e realização humana (Rm 12.1-8).

O fracasso cultiva a coragem
Ninguém gosta de fracassar. No entanto, aqueles que aprenderam com seus fracassos utilizaram as lições para fazer, mais adiante, melhores escolhas em direção ao sucesso. O efeito cumulativo de aprender com o fracasso começa a superar os aparentes benefícios de recuar por medo de um fracasso. A alegria no processo de buscar e explorar novas situações desenvolve-se, e ela resulta em um grau de coragem para enfrentar outras situações aparentemente mais desafiadoras. Aqueles que sabem que não correm risco em sua identidade mesmo diante de um eventual fracasso, acabam por se tornar corajosos e ousados, sabendo que Deus está trabalhando todas as coisas para o seu crescimento (Romanos 8.28).

Entender as oportunidades de aprendizado a partir de um fracasso é um dos aspecto. Guiar estudantes, ajudando-os a enfrentar o fracasso, é outro. Este último requer que admitamos que nós mesmo estamos no processo de aprender por meio do fracasso. Devemos diminuir nossas próprias expectativas e caminhar ao lado deles na busca bíblica de temer ao nosso Deus ao invés de temer o fracasso. Temer a Deus é o princípio da sabedoria e é o mais alto chamado na educação bíblica de uma pessoa (Pv 1.7).

Perguntas para Refletir
Que lições importantes você já aprendeu por meio do fracasso?
Como você pode incentivar estudantes para que entendam o fracasso como uma oportunidade de ganhar sabedoria?


Joe Keller – Por mais de 20 anos, seu ministério tem tido como foco promover uma educação transformacional que seja intencionalmente bíblica. Atualmente, é Diretor Executivo Associado de Grace Brethren Schools em Simi Valley, Califórnia, e leciona no Departamento de Aconselhamento Bíblico de The Master’s University. Joe Keller completou sua graduação em The Master’s University, o mestrado em divindade no The Master’s Seminary e o doutorado em ministério no Westminster Theological Seminary.


Original: Helping Students Fail Well
Artigo publicado pela Biblical Counseling Coalition
Tradução: Carla Siva
Revisão e adaptação: Conexão Conselho Bíblico

[1] O autor refere-se ao sistema educacional Norte-Americano e acrescenta que o fenômeno pode estar relacionado a uma espécie de inflação na atribuição de notas, o que será assunto de um artigo posterior.