Comparações: tirando os olhos da Cruz e olhando para mim mesma

Aline Provenzano Cardim

Já pude identificar em minha vida uma armadilha sutil, mas capaz de um mal tremendo: comparar. Como é fácil tirar os olhos de Cristo, olhar para as pessoas, para aquilo que não temos e aquilo que não somos, ou para aquilo que os outros são e tem, e querer ser diferente. Quantas vezes me peguei lamentando e insatisfeita com Deus por simplesmente não obedecer àquilo que Ele me ordena: manter meus olhos fixos nEle (Hb 12.2).

A comparação não é um pecado em si, mas ela pode ser fruto de um pensamento pecaminoso quando quem compara está insatisfeito em Deus, tem um coração ingrato e uma língua que murmura. Seu pensamento é egocêntrico, e muitas vezes vem acompanhado do desejo idólatra de ser respeitado, querido, estimado, reconhecido ou ter seus desejos satisfeitos.

Um dos problemas é que é fácil camuflar a comparação. Entretanto, quando ela se acumula e enche o coração, ela se manifesta por meio de choro, tristeza, atitudes egoístas e fuga da realidade, entre outros. Pensamentos assim podem acontecer com maior frequência durante certo período do mês, na tão temida tensão pré-menstrual (TPM). Ficamos emocionalmente instáveis na TPM. Cobramos mais dos outros (inclusive de Deus) na TPM. Entretanto, a TPM não é e nunca foi um motivo que nos permita manipular situações e pecar contra Deus.

A comparação envolve escolhas erradas. Escolho alimentar pensamentos pecaminosos, mesmo sabendo que eles me levarão para mais longe de Deus. Escolho deixar de lado aquilo que Deus diz e as certezas presentes na Sua Palavra, e racionalizo para tentar me esquivar da responsabilidade do meu pecado. Tento justificá-los para mim mesma, e a consequência disso é que sou envolvida ainda mais por esses pensamentos, deixo de dar frutos que agradam a Deus e me fecho no meu próprio mundo. Acabo me afastando de pessoas que amo, quero ficar sozinha, não quero falar nem mesmo com Deus. Perco a esperança. Não acredito mais que Deus irá ouvir o meu clamor. Vejo-O muito mais como um Deus tirano, que faz tudo por seu bel prazer. Mentiras assim se passam na minha mente e é horrível ter que colher as consequências das minhas escolhas erradas.

O PROCESSO PERIGOSO
A comparação revela pecados ainda maiores no coração de uma jovem. Ela não é um fruto isolado, mas faz parte de um processo que possui raízes profundas. No meu caso, comparo porque parto de um desejo idólatra de querer algo que não tenho e que os outros têm. Quero tanto isso, que começo a questionar a Deus a partir do momento em que Ele não atende o meu desejo. Deixo de perceber as boas dádivas dadas por Ele, e mergulho em um orgulho mascarado (autocomiseração). Comparo e, consequentemente, murmuro. São frutos perigosos, que contaminam a mente e representam uma clara desobediência ao que Deus diz em Sua Palavra.

Passo 1- Idolatria 
A idolatria está na raiz dos pecados do homem. Pecamos por pensar que entendemos mais sobre determinado assunto do que Deus. Tentamos assumir o lugar de Deus, como se alguma coisa nesse mundo dependesse de nós, e não de Deus. Jesus resumiu toda a Lei em uma única frase, cuja desobediência está baseada na idolatria (Mt 22.37).

Passo 2- Questionar a Deus 
Quando nos colocamos no lugar de Deus, passamos a pensar que temos direito de saber os “por quês” dos acontecimentos de nossa vida. A realidade, porém, é que foi Deus quem nos criou, e nós não podemos questioná-lO (Rm 8.20, 21). Os juízos e caminhos do Senhor são insondáveis e inescrutáveis, e nunca ninguém foi Seu conselheiro ou conheceu a Sua mente (Rm 11.33-36).

Passo 3- Ingratidão 
A partir do momento que não tenho aquilo que acho que Deus deveria me dar, deixo de perceber as dádivas que já recebi dEle. A gratidão envolve o reconhecimento de quem Deus é e daquilo que Ele fez por mim. Ela não é um sentimento, mas um estado do coração que não depende do momento que estamos vivendo. Devemos dar graças em todas as circunstâncias (1 Ts 5.18), inclusive nas provações mais difíceis (Tg 1.2-4), ou quando as nossas orações parecem não ser respondidas.

Passo 4- Comparação 
Com um coração ingrato, é fácil sermos levadas a desviar os nossos olhos do Senhor o os colocar em coisas terrenas e passageiras. É quase como se estivéssemos concorrendo ou competindo com aqueles com quem nos comparamos. A Bíblia nos ensina que devemos levar os fardos uns dos outros, e examinar os nossos próprios atos, SEM nos compararmos com nenhuma outra pessoa (Gl 6.1-5). É necessário que o cristão entregue os seus desejos a Deus, para que Ele os satisfaça se for da Sua vontade, no devido tempo e através Seus devidos meios.

Passo 5- Murmuração
A boca fala do que o coração está cheio (Lc 6.45). A murmuração é o resultado de um caráter ingrato e descontente. Nós murmuramos porque não acreditamos que Deus nos dá tudo aquilo de que precisamos. Queremos mais e murmuramos contra Deus (Nm 14.27).

A MUDANÇA LIBERTADORA
Como você pode ver, comparar-se com outros pode ser parte de um coração cheio de si e que, portanto, está longe de Deus. Você consegue identificar algum processo semelhante por trás das suas comparações?

É preciso mudar. É preciso lutar. Não podemos viver em conformidade com esse pecado. Apesar de ser um longo processo de mudança, precisamos lembrar que não estamos sozinhas, e que a cada dia temos escolhas a fazer. Vou escolher continuar na armadilha dos meus pensamentos, ou obedecer ao que a Palavra diz? Eu conheço o que a Bíblia diz sobre os meus pecados? Estou tratando-os de forma consistente, ou nem sou mais capaz de lembrar a última vez que pedi perdão por ter ofendido a Deus com minhas escolhas?

Relembrar quem Deus é, o que Ele fez por nós, e o que Ele ordena em Sua Palavra faz diferença! O pecado é algo direcionado diretamente contra Ele, um Deus Santo, Santo, Santo (Is 6.2, 3). A única solução para o meu coração egoísta é a cruz de Cristo. Que Ele nos ajude a cultivar o desejo de aprende a nos deleitar nEle (Sl 37.5).

“Deleito-me em fazer a tua vontade, ó Deus meu; sim, a tua lei está dentro do meu coração” (Sl 40.8).


Aline Provenzano Cardim foi aluna do Curso de Liderança e Discipulado (CLD) da Organização Palavra da Vida. É fisioterapeuta, formada pela Universidade Federal de São Carlos.


Artigo publicado originalmente em Jovem Crente. Material republicado com autorização.