Procrastinar, procrastinando, procrastinado!

Gabriela Poletto

Cá estou eu, a poucas horas do prazo final (que foi estendido, diga-se de passagem) de entrega desse artigo, escrevendo sobre (merece estar escrito em letras maiúsculas esta parte, preste atenção) PROCRASTINAÇÃO, o ato de adiar temporariamente algo que não se tem vontade de fazer. Irônico? Triste talvez? Engraçado? Divertido?

Tantas palavras se encaixariam para descrever esse momento. Na verdade, porém, acho a ilustração boa para começar o meu artigo, por isso procrastinei tanto este trabalho. Bom, esta foi uma das várias desculpas que eu poderia dar para me justificar diante dessa lamentável situação em que me encontro. Poderia dizer também que é difícil para mim, com uma rotina tão intensa, organizar bem meus horários para entregar tudo com antecedência. Eu poderia ainda acrescentar que sou brasileira e, você sabe, damos aquele jeitinho e tudo dá certo no final. Ou quem sabe esta desculpa: sei que consigo escrever em alguns minutos esse artigo, para que me planejar para fazê-lo dois dias antes, sendo que em quarenta minutos ele estará pronto? Agora me dou conta de que essa última desculpa é frequente em minha cabeça, e de uma forma assustadora.

Nem sempre, porém, foi assustador pensar nas minhas justificativas para a falta de planejamento quanto ao uso do meu tempo. Na verdade, sempre foi muito confortável para mim fazer tudo como estava acostumada a fazer, às pressas, virando noites para conseguir cumprir os prazos, dormindo durante as tardes que deveriam ser para estudo ou gastando meu tempo com coisas inúteis como assistir televisão e navegar na internet, buscando coisas das quais eu definitivamente não precisava. Foi só quando me propus a avaliar seriamente e à luz das Escrituras a minha procrastinação que percebi que as suas raízes estavam profundamente fincadas em conceitos errados e distorcidos acerca de mim e do propósito de Deus para a minha vida. Exatamente, “o meu jeitinho brasileiro” de lidar com as minhas tarefas e obrigações é apenas a ponta do iceberg de tudo o que precisa ainda ser transformado na minha vida para que eu cresça à semelhança de Jesus Cristo. Alguns dos pecados que são a base desse iceberg estão na minha lista de futuros estudos e artigos, mas por enquanto gostaria de tratar apenas alguns fatos a respeito da procrastinação que tenho observado em mim.

Pra que me organizar? Eu sou capaz de fazer tudo sem uma agenda.
Foi difícil eu reconhecer as raízes da minha procrastinação e só o fato de ser difícil aceitar que tantos pecados eram o combustível para as minhas atitudes já destaca o que mais me inquieta: o orgulho. O orgulhoso se gaba de seus feitos, da sua capacidade, da sua inteligência, da sua agilidade, ele não precisa de ajuda, de ninguém, nem mesmo de Deus. Bom, essa sou eu, uma orgulhosa, e meu orgulho me faz achar que, embora outros precisem se programar e organizar, anotar em agendas suas tarefas e compromissos, eu sou capaz de cumprir todos os meus afazeres sem o auxílio de nada disso. Afinal, eu tenho uma memória privilegiada, e uma capacidade de raciocínio acima do comum.

Como foi triste me deparar com as verdades bíblicas acerca dos orgulhosos. Com certeza, um coração soberbo não agrada a Deus, pelo contrário, esse coração está sempre negando a Deus ao tentar resolver tudo com as suas próprias mãos, com suas próprias forças, e nunca está atento para reconhecer o auxílio divino em meio às dificuldades. Ele toma para si a glória de suas realizações quando, na verdade, sozinho ele nada pode fazer.

Veja o que Paulo nos diz em Romanos 12.16: “Tenham o mesmo modo de pensar de uns para com os outros. Em vez de serem orgulhosos, sejam solidários com os humildes. Não sejam sábios aos seus próprios olhos”.  Exatamente o contrário de tudo o que acontece no meu coração e na minha mente a cada dia. Em Provérbios 8.13, vemos que aqueles que temem ao Senhor aborrecem a soberba. No Salmo 14.1, a Bíblia nos diz que o perverso, em sua soberba, cogita a inexistência de Deus. Como isso é terrível e como passa despercebido aos nossos olhos. O orgulho nos afasta de Deus porque afirmamos em nosso coração que não precisamos dele e demonstramos isso em atitudes simples como utilizar de forma irresponsável o tempo, sem admitir que é preciso se programar para fazer com excelência as tarefas. Há tantos outros textos que condenam o orgulho e a soberba. O livro de Provérbios está cheio deles, cada um apontando para mim, para o meu coração.

Onde fica Deus na bagunça dos meus horários?
O que dizer se eu consigo sobreviver a todas as minhas atividades e todos os prazos ainda que sem uma agenda, post-it, listinhas ou tabelinhas para me auxiliarem? Bom, uma coisa é fato: toda a procrastinação vai culminar em alguma área da sua vida e é bem provável que os prejuízos recaiam sobre o relacionamento com nosso Deus e com outras pessoas. A procrastinação revela, além do orgulho, a falta de prioridades claras em nossa vida e isso com certeza é um problema. Não tente ignorar essa necessidade de relembrar todos os dias quais são as suas prioridades. Para que fomos criados por Deus? Para glorificarmos o Seu nome por meio da nossa vida, para desenvolver um relacionamento profundo e íntimo com Ele e para proclamar Seu evangelho. Cumprir o propósito de Deus para a nossa vida deve ser a nossa prioridade, Deus tem que ser a nossa prioridade. Durante o meu estudo, uma frase escrita por Charles Hummel, em seu livro a Tirania do Urgente, saltou aos meus olhos e atingiu em cheio o meu coração: “O ritmo acelerado e as pressões da urgência em nossa vida recebem seus impostos minando a energia necessária para a oração”.  O meu relacionamento com Deus estava sendo prejudicado pelas minhas horas mal gastas, pelas noites mal dormidas correndo atrás dos prazos, pelas manhãs corridas ao descobrir que acordei 20 minutos atrasadas, pelas tardes gastas com coisas tão fúteis e supérfluas. As minhas energias eram consumidas por tudo aquilo que estava para ser feito e pelas coisas que eu inventava como desculpas para não fazer o que devia ser feito.

Tudo isso mostra como tenho usado palavras em vão ao cantar e até mesmo dizer às pessoas que Deus é o motivo da minha vida, que eu o amo e vivo por Ele. O texto de Mateus 6.33 é bem claro quando Jesus disse para buscarmos primeiramente as coisas do reino, vivermos em função do reino de Deus e Deus proverá aquilo que me é necessário. Poucas linhas antes, há uma verdade inquietante e constrangedora para mim: “…porque, onde estiver o seu tesouro, aí estará também o seu coração” (Mateus 6.21).  Jesus estava falando sobre procurarmos tesouros nos céus, tesouros eternos e não coisas perecíveis que um dia se acabarão. Nosso coração deve ansiar pela eternidade e não por adquirir bens aqui na terra. Charles Hummel disse que nós que temos o presente da vida eterna “temos que viver um dia de cada vez, mas lembrar que neste um dia estamos vivendo para a eternidade”. Quando percebo que nem sequer 15 minutos do meu dia foram gastos em oração, chego à triste, mas verdadeira conclusão: Deus não tem sido a minha prioridade, Deus não tem sido o centro da minha vida todos os dias. Deus não quer alguns minutos do meu dia; Ele requer a minha vida por inteiro. Cada hora, cada minuto deve ser vivido para Ele. Deus deu Seu Filho por amor a mim, para que eu fosse liberta da escravidão do pecado e um dia possa viver com Ele eternamente, mas muitas vezes Ele tem sido colocado de lado, trocado por coisas tão banais e terrenas, que um dia se acabarão, por anseios e desejos da minha carne.

Cavando mais fundo
A procrastinação é apenas a ponta do iceberg, e é preciso perseverança para se chegar às camadas mais profundas.  Esse é um objetivo a ser perseguido em minha vida, mas preciso estar certa de que essa avaliação inevitavelmente exigirá mudanças, transformações radicais para que o caráter de Cristo seja aperfeiçoado em mim para a glória do Seu nome.

É difícil chegar ao final desse artigo sabendo que, graças ao constante adiamento do seu início, eu não conseguirei entregá-lo dentro do prazo estabelecido. O desânimo, a frustração e o remorso começam a bater em meu coração, e surge um misto de fracasso e desapontamento. O que posso fazer é orar e pedir a Deus que Ele me ajude para que tudo isso que eu aprendi deixe de ser conhecimento morto, que chegue ao meu coração e que crie raízes lá para que as minhas atitudes reflitam agora um coração humilde que reconhece a sua fraqueza e um coração no qual Deus realmente reina.

Pai, não quero mais viver pra mim mesma nem para meus próprios desejos e vontades, mas para a tua glória. Você merece o meu coração por inteiro e não em partes, merece o meu tempo por inteiro. Que tudo que eu faça seja visando o aprofundamento do meu relacionamento contigo e o aperfeiçoamento do meu caráter para que eu me pareça cada dia mais com o teu filho Jesus. Quero te mostrar o meu amor também quando eu organizar as tarefas mais simples do meu dia, para que nada ocupe o lugar que é teu no meu coração, para que nada roube o tempo e a energia que eu preciso dedicar ao estudo da tua Palavra e à oração. Preciso da tua ajuda Pai, sozinha não posso fazer nada.

 

Gabriela Poletto foi aluna do Curso de Liderança e Discipulado (CLD) da Organização Palavra da Vida, e é formada em jornalismo. Este artigo foi escrito quando ela cursou a matéria Vida Cristã.


Artigo publicado originalmente em Jovem Crente. Material republicado com autorização.