Sonhos frustrados: quando a vida não segue meus planos (Parte 1)

Elisa Bentivegna da Silva

Imagine o seguinte cenário: você é casada, mas seu marido tem outra esposa além de você, e isso é praticamente normal na sua cultura apesar de nunca ter sido a intenção de Deus para o casamento. Como se não bastasse, a outra esposa tem filhos e você, embora os deseje muito, não consegue engravidar. Essa era a situação de Raquel, cuja história encontramos em Gênesis 30. Ela era casada com Jacó que também era casado com Lia, irmã de Raquel – pense em um triângulo amoroso complicado! Lia tinha filhos; Raquel, não. Isso deixava Raquel profundamente triste: “Quando Raquel viu que não dava filhos a Jacó, teve inveja de sua irmã. Por isso disse a Jacó: “Dê-me filhos ou morrerei!” (Gn 30.1).

A tristeza por não ter filhos pode ser fruto de um desejo legítimo que não foi satisfeito. Entretanto, a inveja que Raquel sentia da irmã e a exigência desesperada que fez ao marido indicam algo mais. Precisamos entender que as nossas reações não são mero produto das circunstâncias. Elas revelam o que está em nosso coração. Quando pecamos para obter o que queremos, ou quando pecamos porque não temos o que queremos, isso indica que nosso desejo, ainda que legítimo em si, tornou-se um ídolo.

Raquel não apenas desejava filhos. Ela desejava tanto que acreditava que morreria se não os tivesse. Ela invejava a fertilidade de Lia. Não é que ela apenas gostaria de engravidar, ela exigia um bebê. Quando ela se viu na situação de não conseguir o que queria, ou mais, o que ela pensava que necessitava, ela se voltou contra o marido em desespero como se fosse dele a culpa ou como se ele pudesse fazer algo a respeito. Jacó não podia resolver a situação, ficou irritado e disse: “Por acaso estou no lugar de Deus, que a impediu de ter filhos?” (Gn 30.2). Então, Raquel decidiu dar o seu “jeitinho” e respondeu: “Aqui está Bila, minha serva. Deite-se com ela, para que tenha filhos em meu lugar e por meio dela eu também possa formar familia” (Gn 30.3).

Mais de uma vez, vemos uma tentativa por parte de Raquel de manipular a situação para conseguir satisfazer o seu desejo idólatra. Os seus esforços, porém, não poderiam fazer o que apenas Deus poderia. Deus, em sua misericórdia e graça, ouviu o clamor de Raquel e concedeu-lhe o filho que tanto desejava: “Então Deus lembrou-se de Raquel. Deus ouviu o seu clamor e a tornou fértil. Ela engravidou, e deu à luz um filho e disse: ‘Deus tirou de mim a minha humilhação’. Deu-lhe o nome de José e disse: ‘Que o Senhor me acrescente ainda outro filho’” (Gn 30.22-24).

Acho interessante notar que quando Raquel recebeu esse presente de Deus, quando finalmente teve o que tanto esperou, a sua reação foi: “Mais um, Senhor!”. Ela reconheceu que foi Deus quem tirou dela a infertilidade e a humilhação, porém, parece que não se contentou  em ter apenas um filho. Ela queria mais. É assim que acontece com os ídolos. Eles nunca nos satisfazem de verdade.

Depois de algum tempo, Raquel engravidou novamente. Dessa vez, porém, morreu dando à luz o seu segundo filho, a quem chamou de Benoni, que significa “filho da minha aflição” (Gn 35.16-19). É triste o fato de que a mulher que pediu: “Dê-me filhos ou morrerei!”, tenha morrido durante o parto. Mais triste ainda é ver o engano e as consequências da idolatria em nossa vida.

Assim como Raquel, somos idólatras por natureza. Podemos ter diversos desejos legítimos como, por exemplo, um namorado/marido, um emprego, uma saúde melhor, um bom desempenho em uma prova, um filho e tantos outros mais. Entretanto, como reagimos quando as coisas não acontecem exatamente como gostaríamos? Lembrando-nos de que as nossas reações dependem do nosso coração e não das circunstâncias em si, o que a nossa atitude revela sobre nós quando nossos desejos não se concretizam?

Gosto das questões e definições que a escritora Elyse Fitzpatrick apresenta em seu livro Ídolos do Coração para nos ajudar a identificar nossos ídolos:[1]

O que eu desejo ardentemente a ponto do meu coração clamar: “Dê-me isso ou morrerei!”? O que preciso ter para que minha vida tenha significado ou para que eu seja feliz? Se eu responder esta pergunta com qualquer coisa além do próprio Deus, então é isso o que tem servido para mim como um deus.

Se você está disposto a pecar para obter o que deseja, ou se você peca quando não consegue o que quer, então o seu desejo tomou o lugar de Deus e você está agindo como um(a) idólatra. 

Pois é, fomos criadas para adorar a Deus, mas temos adorado outras coisas/pessoas em lugar de Deus, o que é uma ofensa ao Único que é digno da nossa adoração. Graças a Deus, porém, por causa da morte e ressurreição de Jesus Cristo, temos esperança de perdão e transformação. Em 1João 1.9, Deus promete perdoar e purificar aquele que confessa o seu pecado: “Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para perdoar os nossos pecados e nos purificar de toda injustiça”. Provérbios 28.13 afirma que “quem esconde seus pecados não prospera, mas quem os confessa e os abandona encontra misericórdia”.

Precisamos reconhecer os nossos pecados e ídolos diante de Deus, arrependermo-nos e buscar a Sua ajuda para mudar. Ele é poderoso e amoroso para trabalhar em nosso coração e nos transformar. Com o auxílio de Deus podemos ter novos desejos e manifestar novas atitudes, mesmo em meio a circunstâncias difíceis.

Séculos depois de Raquel, outra mulher viveu uma circunstância muito parecida. Seu nome era Ana. No próximo artigo veremos como essa serva de Deus reagiu às dificuldades que enfrentou e como nós podemos reagir também!

[1] FITZPATRICK, Elyse. Ídolos do coração: aprendendo a desejar apenas Deus. São Paulo: Vida Nova, 2017, p. 25, 28.

Veja aqui a Parte 2.


Elisa Bentivegna da Silva é formada em jornalismo e também no Curso de Liderança e Discipulado (CLD) da Organização Palavra da Vida.  É autora de Rumo ao Altar: conselhos para noivas.

Artigo publicado originalmente em Jovem Crente. Material republicado com autorização.