Quando as palavras falham: o uso de metáforas no aconselhamento de adolescentes

Daniel Kim


Já conversei com adolescentes o suficiente para descobrir que as perguntas padrão, que costumamos fazer no aconselhamento bíblico, nem sempre funcionam. “O que você estava pensando quando isso aconteceu?” – a resposta é um encolher de ombros. “Como você se sente?” – outro encolher de ombros, ou talvez um “Não sei”.

Honestamente, em geral, isso é mesmo tudo o que um adolescente consegue dizer. Ele realmente não sabe. Ele não está querendo enganá-lo – pelo menos, não sempre. Às vezes, os adolescentes simplesmente não encontram as palavras certas. Parte disso, evidentemente, está ligado à confiança que eles têm em você. Os adolescentes não confiam facilmente, e nem sempre deveriam — muitos deles por boas razões. No entanto, mesmo para aqueles que estão genuinamente procurando se envolver na conversa, existe um limite real de desenvolvimento para o quanto conseguem refletir sobre si mesmos. A parte do cérebro responsável pelo raciocínio abstrato e pela autoconsciência emocional ainda está em formação. Pedir a um adolescente de 15 anos de idade para analisar seus próprios padrões de pensamento é um pouco como pedir a alguém que lhe dê indicações em uma cidade que visitou somente uma vez, à noite. A cidade é real. A pessoa esteve lá. O mapa, porém, não está tão claro.  Precisamos encontrar outras maneiras de entrar em sua vida.

O que constatamos na prática do aconselhamento
Alguns conselheiros usam giz de cera para ajudar as crianças a se comunicar. Os adolescentes já não são mais crianças, e eles sabem disso, então o giz de cera não vai funcionar. No entanto, ainda precisamos de um meio para ajudá-los a expressar o que está em seu coração. Para os adolescentes, descobri que esse meio, muitas vezes, já está ali em sua própria maneira de falar, nas metáforas que eles usam quase sem pensar. Em vida, David Powlison enfatizava frequentemente a importância de compreender o mundo de significados de uma pessoa e de ouvir a linguagem do coração. Paul Tripp fala sobre ajudar um adolescente a articular o que realmente governa seu coração, e isso, muitas vezes, pode ser feito por meio das imagens que ele repete e que expressam sua interpretação da vida.

Dê atenção ao que eles realmente dizem
Até mesmo o adolescente mais reservado, aquele que responde com monossílabos e fica olhando para o relógio, ocasionalmente dirá algo como:

  • “Minha mãe é basicamente um Hitler.”
  • “A escola é um sufoco. Todos os dias.”
  • “Sou um fantasma. Ninguém realmente me vê.”

É fácil considerar isso como um desabafo ou o tipo de exageros dramáticos pelo quais os adolescentes são famosos. No entanto, eu encorajaria os conselheiros a irem com calma. Essas imagens não são descartáveis. São a melhor maneira que o adolescente encontra para expressar sua forma de interpretar o mundo ao redor.

Quando um garoto diz que sua mãe é um Hitler, ele não está confuso quanto à história do século XX. Ela está dizendo que se sente oprimido. Controlado. Que não tem voz nem escapatória. Na verdade, ele está dando muita informação para o conselheiro, condensada em uma comparação absurda. Se passarmos por isso muito rapidamente e ocupados só com corrigir o exagero, poderemos perder o que aquele adolescente estava procurando nos dizer.

Os linguistas têm um termo para esse tipo de expressão: metáfora conceitual. A ideia é que não usamos uma metáfora somente para descrever nossa experiência; por meio dela, podemos, de fato, refletir o que pensamos. A metáfora, em muitos casos, pode ser a maneira mais próxima com que uma pessoa consegue expressar sua crença naquele momento. Quando um adolescente diz que está sendo sufocado, ele pode não estar usando uma simples figura de linguagem, mas, sim, revelando a estrutura de pensamento que realmente caracteriza o que está acontecendo com ele. A metáfora pode ser a melhor referência que ele tem a nos dar naquele momento.

Por que isso é genuinamente bíblico?
Agora, quero fazer uma pausa aqui, visto que alguém poderia perguntar, e com razão, se isso não passa de um conceito da terapia secular que estamos introduzido sorrateiramente no aconselhamento bíblico. Eu não acho que seja, e aqui está o porquê.

O próprio Deus é o usuário mais prolífico de metáforas em toda a Escritura. Ele apresenta a Si mesmo como pastor, fortaleza, pai, galinha que ajunta seus pintinhos. Jesus quase nunca explicou o reino de Deus em termos proposicionais simples, mas sempre o comparou a algo: um grão de mostarda, uma mulher que varre a casa, um filho que volta para casa depois de uma longa viagem. Os Salmos são um exemplo contínuo de como dar forma metafórica à experiência humana — afogar-se em águas profundas, esconder-se à sombra das asas, caminhar pelo vale da sombra da morte. Deus não usou essas imagens porque o antigo Oriente Próximo não conseguia lidar com conceitos abstratos. Ele as usou porque é assim que os seres humanos processam a realidade. Somos criaturas feitas à imagem de Deus, e carregamos as imagens de significado.

Provérbios 4.23 nos diz que o coração é a fonte da vida — tudo flui dele. Provérbios 20.5 diz que “os propósitos do coração humano são como águas profundas, mas quem é inteligente sabe como trazê-los à tona”. Creio que prestar muita atenção em como um adolescente fala, especialmente nas metáforas que ele usa, é uma das maneiras mais concretas de fazer exatamente isso. Não se trata de psicologia secular. Trata-se de ouvir o que o coração está dizendo, na linguagem que o coração costuma usar.

Três coisas para experimentar
Então, na prática, como isso acontece? Algumas estratégias podem ajudar.

  1. Não corrija a metáfora imediatamente. Se um adolescente diz que a mãe é um Hitler, a reação de logo dizer “Bem, isso é um pouco exagerado, não acha?” é compreensível, mas quebra a conversa. Ele não está pedindo para você avaliar a comparação. Ele está procurando lhe comunicar algo. Dê continuidade à conversa antes de reagir.
  1. Faça perguntas que explorem a metáfora. Prove dizer algo assim: “Como isso acontece no dia a dia?” ou “O que teria que mudar para que a sua percepção fosse diferente?”. Você não está concordando com ele sobre a mãe ser uma ditadora. Você está levando a sério a experiência do adolescente e explorando o que a metáfora sugere.
  1. Preste atenção aos padrões. A maioria dos adolescentes não usa somente uma metáfora. Ao longo de alguns encontros, você pode começar a notar um tema recorrente — tudo é um sufoco para ele, ou tudo aponta para rejeição, ou nada nunca muda. Esse padrão provavelmente aponta para uma crença central do adolescente sobre si mesmo, sobre os outros ou sobre Deus. É o coração se revelando.

Ofereça uma nova visão
Toda essa escuta é um preparo para o trabalho real, que é ajudar o adolescente a enxergar sua situação sob outra perspectiva. Não se trata de minimizar as dificuldades, mas de focar no que é verdadeiro. O adolescente que diz ser um fantasma — porque ninguém lhe dá atenção — precisa de algo mais do que ouvir que isso não é verdade. Ele precisa de uma imagem diferente, que as Escrituras dão. Por exemplo, Agar, estava sozinha no deserto, completamente esquecida por todos que deveriam ter cuidado dela, e ela chamou Deus de “El Roi”, o Deus que vê (Gn 16.13). Não se trata de rejeitar a experiência que o adolescente expressou, mas de reformular a sua visão.

As Escrituras estão repletas desse tipo de reformulação:

  • De órfão a filho adotivo (Rm 8.15)
  • De escravo a amigo (Jo 15.15)
  • De condenado a livre de qualquer condenação (Rm 8.1)
  • De invisível a plenamente conhecido (Sl 139.1)

Esses não são slogans para mascarar a dor. São estruturas bíblicas para interpretar a vida, comprovadas ao longo do temo por pessoas reais, em sofrimento real. O trabalho do conselheiro é ajudar o adolescente, lenta e pacientemente, a vivenciar uma reformulação de suas crenças. Isso leva tempo. Requer confiança. Sobretudo, requer a ação do Espírito Santo, superior à de qualquer um de nós.

Um último lembrete
Se você trabalha com adolescentes, já sabe que não é um processo rápido nem fácil. Os silêncios são longos. O progresso é difícil de perceber. Às vezes, você encerra um encontro sem ter a certeza de que algo foi assimilado. No entanto, quando um adolescente solta uma metáfora — mesmo que ela seja chocante, mesmo que expresse raiva — ele está lhe comunicando uma experiência vivida e suas crenças interpretativas. Ele encontrou uma maneira de comunicar o que não conseguiria expressar com palavras. Isso merece a sua atenção.

Perguntas para reflexão

  1. Pense em um adolescente que você aconselha ou conhece bem. Que metáforas ele usa para descrever sua vida ou seus relacionamentos, e o que essas imagens podem revelar sobre suas crenças fundamentais?
  2. O uso de metáforas nas Escrituras não é meramente decorativo — reflete a maneira de os seres humanos realmente processarem a realidade. Como essa ideia altera a sua forma de ler passagens como os Salmos e usá-las em um encontro de aconselhamento?
  3. Como seria, em sua própria prática do aconselhamento, passar de simplesmente ouvir a metáfora dita por um adolescente a lhe oferecer uma imagem mais verdadeira, fundamentada nas Escrituras, para que ele a incorpore?

Daniel Kim é pastor sênior da Grace Korean-American Presbyterian Church, na região de Chicago. Ele tem uma profunda paixão pelo aconselhamento bíblico e cuidado pastoral, tendo obtido seu mestrado no Westminster Theological Seminary, seguido de uma especialização em aconselhamento na CCEF e do doutorado em Aconselhamento Bíblico no Southern Baptist Theological Seminary.


Original do artigo: When Words Fail: Using Metaphor to Counsel Teenagers
Artigo publicado pela Biblical Counseling Coalition
Traduzido e adaptado para o português com autorização.